Saturday, January 28, 2006

Tecnologia boa, serviços nem tanto

* Pedro J. Bondaczuk


A tecnologia que possibilitou o desenvolvimento telefone celular (“aparelho de comunicação por ondas eletromagnéticas que permite a transmissão bidirecional de voz e dados utilizável numa área geográfica que se encontra dividida em células, cada uma servida por um transmissor/receptor”, conforme definição da Wikipédia), e sua ampla e crescente expansão, veio, como tantas outras, facilitar a vida do usuário. Tanto que alcançou, em dezembro de 2005 (conforme informaram as operadoras) 85,6 milhões de clientes no Brasil. Ou seja, mais do que a População Economicamente Ativa (PEA) brasileira e quase a metade de todos os habitantes deste país de dimensões continentais.
Ademais, ao contrário do que se apregoa, o tal do aparelhinho, em si, não se constitui em risco – nem físico e nem psicológico – a quem dele se utiliza, como algumas pessoas e instituições tentaram provar, e não conseguiram. O mesmo não se pode dizer, porém, das suas antenas. Mas esse é outro assunto, que merece considerações mais amplas e em separado.
Em resumo, este é o teor do que escrevemos no artigo divulgado na semana passada aqui neste espaço nobre do Comunique-se. Muita gente interpretou, no entanto (afoitamente), que estivéssemos, ao mesmo tempo em que defendíamos a excelência dessa tecnologia, tecendo loas às empresas que operam esse tipo de serviço no País.
Claro que não o fizemos e nem poderíamos fazer. Por mais mal-informados que fôssemos (e, acreditem, não o somos), sabemos, de sobejo, que a telefonia celular está entre os líderes de reclamações e problemas nos vários Procons espalhados pelo Brasil afora. E temos absoluta certeza que isso não ocorre por acaso. O brasileiro nem é tão ranzinza assim e raramente corre atrás dos seus direitos, o que prova que o atendimento é muito ruim.
A maior parte das queixas refere-se à falta de sinal, às tarifas abusivas (diríamos escorchantes) e à inexistência de detalhamento nas contas, entre outras tantas. Mas não é só isso. Não existe, por exemplo, nenhum sistema de proteção que impeça a clonagem dos aparelhos, o que se tornou verdadeira praga entre nós, trazendo prejuízos e contratempos de toda a natureza e, claro, uma dose cavalar de aborrecimentos ao descontente usuário.
Para que se tenha uma pálida idéia da extensão desse crime, somente na casa de um dos bandidos que se valem da fraude para ganhar dinheiro às custas dos incautos, localizada nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a polícia encontrou por volta de 300 aparelhos já clonados, prontinhos para seguirem para as mãos de detentos, nos vários presídios do Estado (e de fora dele), para que, através deles, pudessem comandar, de dentro das cadeias, seqüestros, assaltos, assassinatos, extorsões e sabe-se lá mais o quê.
Imaginem, até ser descoberto e preso, quantos outros usuários mais somente esse indivíduo não fraudou e prejudicou! E esta foi apenas a pontinha de um gigantesco iceberg. Com certeza, como ele, há muitos e muitos e muitos outros “espertalhões”, espalhados por aí, agindo impunemente, para desespero dos proprietários de telefones celulares.
Outro aspecto a considerar são os preços da telefonia no Brasil, notadamente da fixa. Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe) revela que a inflação acumulada entre 1994 e 2004 – nos dez primeiros anos de Plano Real, portanto – foi de 154,6%. Pois bem, nesse mesmíssimo período, as contas de telefones fixos subiram 706%!!!! Por que? As operadoras dão inúmeras explicações, nenhuma, todavia, convincente.
Daí a preocupação que elas têm com a vertiginosa expansão do “Voz sobre IP”, ou seja, dessa espécie de telefonia que se utiliza do computador, sem tarifas, sem taxas, sem reajustes, sem contas e sem a burocracia irritante e besta, que tanto desgostam os consumidores e que tentam, em vão, barrar. Convém ressaltar que a ligação do telefone celular é ainda mais cara do que a do fixo. Vai daí...
É verdade que a carga tributária brasileira, entre as mais elevadas do Planeta, é a grande vilã dessa história e tem muito, muitíssimo a ver com isso. O Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) constatou, por exemplo, que do tanto que o usuário paga em sua conta, no final do mês, 40% se constitui em impostos!!! E qual a justificativa para isso? Qual a razão dessa cobrança até absurda? Essa dinheirama toda, arrecadada pelo Fisco, reverte em benefício do consumidor? O governo diz que sim. A sociedade acha que não. Com quem está a razão? Cada um que responda com base na própria experiência!

Friday, January 27, 2006

E eles voltaram - Parte 6

(Conto de Natal)

(Continuação)

Como Tânya não parasse de chorar, desde o momento em que recebera aquele telegrama misterioso que tinha em suas mãos, comecei a ficar preocupado.
--- "Será que o problema é dela, envolvendo alguma coisa que lhe aconteceu enquanto esteve na aldeia ou é da correspondência, que trouxe alguma notícia tão ruim a ponto de abalar tanto uma pessoa tão equilibrada e jovial como minha irmã mais nova?" –, fiquei perguntando a mim mesmo, sem saber o que fazer.
O primeiro impulso foi o de tirar aquele papel, que ela amassava convulsivamente, de suas mãos. Não sei explicar porque, porém, algo me impedia de agir dessa forma. Uma sombra de mau agouro desceu sobre mim. Era um pressentimento de que aquela folha branca, com o timbre do Exército do czar, poderia modificar o meu destino. E eu tinha medo.
Nunca acreditei nessa história de sexto sentido. Aliás, sempre fui tido como o membro mais céptico, racional e equilibrado da nossa família. Jamais fui dado a arroubos místicos e quando um dia Andrei, meu futuro cunhado, falou sobre certas experiências que haviam sido feitas em Moscou, acerca de transmissão de pensamentos à distância, só pude dar um sorriso de mofa e de absoluta incredulidade.
Até hoje ainda costumo brincar com ele a esse respeito, zombando da sua ingenuidade em acreditar em tudo o que lhe dizem. – "Os moscovitas são cheios dessas invenções" –, disse-lhe na oportunidade, em tom de galhofa.
Lembrei-me que havia sentido essa mesma sensação estranha, que estava experimentando agora, no dia em que mamãe morreu. Corri para a cozinha e trouxe uma dose de conhaque para reanimar Tânya, que estava pálida, trêmula e prestes a desfalecer. Agora eu estava alarmado de fato!
Pensava em levar minha irmã à aldeia, para que o doutor Bóris desse uma olhada em seu estado, embora não confiasse muito no velho bêbado. Era bem possível que neste instante ele estivesse roncando, encharcado de vodca, como um urso vadio e desdentado, em estado de hibernação etílica.
A cor começou a voltar ao rosto de Tânya, após ingerir a dose generosa do conhaque que a forcei a beber, entre tosses e gemidos. Suas mãos já não estavam mais tão frias como antes, embora ela ainda não conseguisse articular qualquer palavra inteligível, em virtude dos espasmódicos soluços que lhe sacudiam todo o corpo.
Gentilmente, tirei o papel de suas mãos, mas não tive coragem de ler imediatamente. Dobrei-o, supersticiosamente, e o deixei na escrivaninha de papai, enquanto saía para o alpendre, para respirar um pouco o ar frio da tarde e meditar.
O céu estava escuro novamente. Nevava bastante, contrariando as previsões de melhoria do tempo. Tudo levava a crer que iria nevar a noite toda e talvez no dia seguinte inteiro. Yulka veio lamber-me as mãos, todo assanhado, e eu fiz um demorado carinho em sua orelha peluda.
Dentro de casa, podia ouvir, ainda, os soluços abafados de Tânya. – "Alguma coisa de muito ruim aconteceu com papai e Kyrillo" –, concluí. – "Somente eles poderiam provocar uma reação tão intensa em minha irmã, a predileta do velho" –, raciocinei.
Decidi enfrentar a realidade, fosse ela qual fosse. Subi primeiro para o meu quarto, para conferir uma dúvida que, de repente, me assaltou o espírito. Abri a cômoda e...Surpresa! Os presentes que havia ganhado, na noite passada, de papai e de Kyrillo, não estavam mais lá.
Desci a escada, como um raio, e fui perguntar a Tânya se havia mexido nas minhas coisas. Ela balançou a cabeça, em negativa. – "Estranho" –, pensei. – "A não ser minha irmã, ninguém mais esteve em casa" –, refleti. Entretanto, atribuí a negativa dela ao seu estado emocional, visivelmente abalado.
--- "De certo ela esqueceu, ou prefere não me dizer nada agora, para não me irritar" –, concluí. Contive o meu ímpeto inicial, de interrogá-la mais severamente.
Subi novamente e fui para o gabinete de papai. Em tudo, ali, eu sentia a sua presença. Em seus papéis, em seus livros, em seus móveis austeros, mas de muito bom gosto e num retrato de mamãe, pintado por um artista da aldeia, que praticamente dominava todo o aposento e podia ser visto de qualquer canto em que se estivesse.
Vi o papel dobrado, do jeito que eu havia deixado, sobre a escrivaninha. Ele exercia um fascínio até hipnótico sobre mim. Mas, estranhamente, estava dominado por um medo incrível daquilo que ele pudesse conter. Resolvi acabar de vez com aquele impasse. Afinal, nunca tive essas reações bobas. Desdobrei-o e comecei a ler.
A cada palavra lida, no entanto, entendia menos o seu significado. A minha primeira reação foi achar que aquilo era alguma brincadeira macabra. – "Mas quem faria uma coisa dessas e ainda usando papel timbrado do governo?!" –, refleti, desconfiado.
Reconheci, também, a assinatura do oficial que teria escrito a mensagem, pois se tratava de um velho amigo de papai, dos seus tempos de caserna. Até se hospedara em nossa casa, em várias ocasiões, quando vinha em missão do Exército a Moscou.
Aos poucos, as palavras foram penetrando em minha consciência e foi então que não entendi mais nada... A mensagem, em tom seco e formal, dirigida a mim, dizia, somente:
"Prezado senhor Illya Mikhailovich Kladunov:
Cumpre-nos a ingrata tarefa de comunicar a V. Sa. que Mikhail Illich Kladunov, capitão do Exército de Sua Majestade, o czar de todas as Rússias, e Kyrillo Mikhailovich Kladunov, soldado, ambos do 3º Regimento da 8ª Brigada de Cavalaria, foram mortos, em ação, no dia 5 de novembro passado, na Batalha de Inkermann, na Criméia. Tombaram como heróis, na defesa da Pátria. Aceite nossas sinceras condolências..."

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Thursday, January 26, 2006

E eles voltaram - Parte 5

(Conto de Natal)

(Continuação)

--- "Illya, quase ia esquecendo, trouxe um presente para você" –, disse Kyrillo, como que subitamente se lembrando de algo que não deveria esquecer.
--- "Infelizmente não vou poder retribuir" –, respondi –, "afinal, como poderia adivinhar que vocês viriam?!! Há muito que não tínhamos qualquer notícia de vocês. A última, foi trazida por um cossaco, que pernoitou em nossa casa" – acrescentei, num tom misto de censura e de desculpa.
--- "Não se importe comigo, mano" –, disse Kyrillo. – "Quanto a escrever, seria impossível naquele inferno" –, aduziu, com um vinco de preocupação aparecendo-lhe na testa, como se alguma recordação mais trágica lhe emergisse à mente.
--- "Mas vamos, Illya, abra o seu presente" –, voltou à carga, readquirindo a animação. – "Pelo que eu saiba, há muito tempo você deseja algo assim" – , acentuou, sorrindo.
Desembrulhei, atabalhoado, o objeto, enrolado num jornal velho, todo borrado e desbotado, e não me contive. Corri para Kyrillo e dei-lhe outro longo abraço, mais apertado ainda do que o da recepção, sufocando aquele sujeito grandalhão, com olhar de criança indefesa, ao qual queria tanto bem.
Meu irmão havia trazido da Criméia um punhal turco, com cabo de madrepérola, cravejado de diamantes. Lembro-me que quando os dois partiram, eu havia manifestado o desejado de possuir uma arma dessas, que tinha visto numa gravura de enciclopédia na casa da Vera.
Meu pai não se fez de rogado. Levantou-se, solenemente, como se fosse fazer um discurso muito importante para os seus comandados, um velho hábito adquirido ao longo de sua extensa carreira militar, e disse:
--- "Também não me esqueci de você!". – E num gesto abrupto, passou-me um enorme pacote, que trazia escondido atrás da cadeira e que no meu entusiasmo pelo reencontro eu não havia notado até então.
--- "Vamos, abra e experimente!" –, acrescentou. – "Tirei as medidas por Kyrillo. Claro que descontando meio homem" –, aduziu, em tom de brincadeira. Meu irmão, perto de mim, era um gigante musculoso em presença de um raquítico anão.
Eu puxei a compleição física franzina da minha mãe. Desembrulhei o pacote, todo afobado, vidrado de curiosidade e de lá saíram um maravilhoso gorro de pele de marta e um grosso sobretudo marrom, cujos pêlos até brilhavam, de tão novos. Notava-se que eram artigos da melhor qualidade.
Beijei meu pai, comovido, e se não me falha a memória, parece que vi duas lágrimas querendo descer de seus olhos austeros e duros, para a sua barba negra, salpicada de fios grisalhos e desalinhada.
Ficamos conversando até as primeiras luzes do novo dia aparecerem na janela. Falamos de tudo, menos da guerra. Recordamos casos engraçados e episódios comoventes da história da nossa família. Cansado, convidei-os a se recolherem, ao que ambos responderam, quase que em uníssono:
--- "Não podemos! Viemos, apenas, para um último momento de confraternização. Nossa missão é bem longe daqui. Temos muito que viajar ainda".
Não sei explicar a razão, mas aquelas palavras soaram como um definitivo adeus. Procurei espanar aquele pensamento sombrio. "Que nada! O velho e Kyrillo sabem se defender! Afinal, não estão aqui comigo?!" – perguntei a mim mesmo, em tom de afirmação.
Mas aquela sensação estranha que me dominava teimava em permanecer no meu espírito. Naquele momento, atribuí o fato à despedida. O adeus sempre me comoveu, mesmo que a pessoa que me dizia essa palavra, ou a quem eu a enunciava, pudesse ser encontrada a qualquer momento ou mesmo no dia seguinte.
Não sei por qual razão, me lembrei que não vi o trenó e nem a parelha de cavalos de papai e de Kyrillo, quando voltei da aldeia. – "Talvez eles os tivessem deixado na casa de algum camponês da herdade" – , findei por concluir.
Minutos depois, pude ouvir ao longe o som dos sininhos amarrados no pescoço dos cavalos. O ruído afastava-se, lentamente, tornava-se cada vez mais fraco e indistinto, até que desapareceu de vez.
Subi para o meu quarto, localizado no segundo andar da casa, guardei, na vasta cômoda, os presentes que havia ganhado e só então me dei conta de que papai e Kyrillo não haviam trazido nada para Olga e nem para Tânya. Aliás, durante toda a noite, mal haviam falado delas. – "Por que será?!” –, pensei, intrigado. Achei isso muito estranho, mas resolvi não perder muito tempo buscando explicações para esse curioso detalhe.
Despi-me e deitei-me, exausto, sentindo ainda os efeitos de tantas e tão fortes emoções. Este fora o Natal mais feliz e surpreendente da minha vida. Dormi quase que de imediato.
Antes de cair no sono, naquele estado de semi-inconsciência que precede o desligamento completo da realidade, ouvi, nitidamente, as vozes de papai e de Kyrillo dizendo – "Illya, adeus! Seja forte! Cuide de Tânya e de Olga por nós!".
Julguei estar sonhando. Talvez até estivesse. Dormi, enfim. Fui despertado já bem tarde, cerca de uma hora da tarde do dia seguinte, com a voz de Tânya, galhofeira, como sempre, atazanando os meus ouvidos, chamando-me de preguiçoso. Pensei em contar-lhe de imediato a minha experiência noturna. Consegui conter-me, todavia, deixando para falar das novidades quando Olga retornasse da aldeia.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Wednesday, January 25, 2006

E eles voltaram - Parte 4

(Conto de Natal)

(Continuação)

Quando cheguei ao alpendre da nossa casa, após ter desatrelado os cães do trenó e tê-los recolhido ao canil e alimentado, notei que havia luzes na sala de estar. Achei estranho, pois quando havíamos saído, eu, Olga e Tânya, ainda era dia claro e, por conseqüência, nenhum de nós havia acendido os candelabros, até por uma questão de prudência, de segurança, para evitar incêndio acidental.
--- "Deve ter sido algum servo que esqueceu alguma coisa, voltou para pegar e, ao sair, deixou de apagar as luzes" – pensei. Anotei mentalmente aquela falta grave, para cobrar da criadagem no dia seguinte. A ela, aduzi mais uma: o fato da lareira também ter sido deixada acesa, já que podia ver, perfeitamente, uma fumaça azulada saindo pela chaminé.
Entrei no vestíbulo, tirei o gorro de astracã, o grosso casaco de pele de urso e pendurei ambos atrás da porta. Descalcei as botas, um tanto enlameadas, que tive o cuidado de deixar escondidas num canto, para limpar logo cedo, no dia seguinte, antes que Olga voltasse e pudesse ralhar comigo, calçando grossos chinelos de lã no seu lugar, que eram um alívio para os meus pés doloridos. Feito isso, dirigi-me para a cozinha, para preparar um revigorante chá.
Ao chegar, no entanto, à porta desse espaçoso e agradável cômodo, quedei estupefato. Esfreguei duas, três, dez vezes os olhos para espantar um possível delírio ou eventual ilusão de óptica. Não! Eu não estava delirando!
Sentado junto à longa e sólida mesa de madeira polida, onde os servos faziam as suas refeições, estava papai, taciturno como antes de partir para a Criméia, mas aparentemente com boa saúde. Budka, o nosso gato de estimação, estava enroscado em seu colo, com os olhos como que vidrados de êxtase pelo carinho que recebia daquelas mãos grossas e fortes.
Junto ao grande fogão a lenha, que desprendia um intenso e gostoso calor, Kyrillo retirava um samovar de prata de uma das bocas, relíquia de várias gerações da família, e conduzia-o para a mesa. Yulka, o cão predileto de todos nós, que só faltava falar de tão esperto que era, dormia preguiçosamente aos pés de papai.
Por alguns instantes, que me pareceram uma eternidade, a surpresa paralisou-me. Todos os movimentos faltaram-me, simultaneamente, em todas as partes do corpo. Não conseguia me mover e, principalmente a língua, tinha ficado inerte. Fiquei estático, calado, mas radiante com o inesperado presente de Natal que estava recebendo!
Meu primeiro impulso foi o de correr para a aldeia, para avisar Tânya e Olga da grande novidade. Depois, eu e Kyrillo corremos ao mesmo tempo, como que impulsionados por uma poderosa mola, um em direção ao outro, para um forte abraço fraternal, desses de estalar todos os ossos. Fiz o mesmo com papai, que no entanto não era muito dado a esse tipo de gestos de efusão de sentimentalismo. Compreensivelmente, porém, ele abria nesse momento uma rara exceção a essa sua rígida regra pessoal.
Apanhei, debaixo da longa pia de pedra, a tigela bojuda, onde Galina guardava a nata, o açucareiro no armário e a forma repleta de deliciosos "peroshquês", que minha irmã mais velha sempre fazia questão de preparar ela mesma, de cima do fogão a lenha.
O velho pediu uma garrafa de vodca, que fui buscar, apressado, em seu gabinete, que permanecera virtualmente trancado desde a sua partida e onde somente Polina entrava, de vez em quando, para fazer a limpeza.
Acomodados junto à mesa, falamos todos, ao mesmo tempo. Havia tanta coisa para ser dita, de parte a parte! Quando nos demos conta da nossa precipitação de falar, caímos em uma gostosa e jovial gargalhada, que ecoou pelas paredes e pelo teto da casa e soou como uma música deliciosa e angelical para os meus ouvidos.
Até papai, depois de dois tragos de vodca, voltou a ser o homem alegre de antigamente, de antes da morte da mamãe. A princípio, nem ele, e nem Kyrillo, quiseram falar muito da Criméia e da grande carnificina que ocorria naquela região. Mas, devagar, foram deixando de lado esses escrúpulos e narraram algumas peripécias, apenas as mais engraçadas, ocorridas, geralmente, envolvendo "mujiques" analfabetos, ingênuos e ignorantes. Dos combates em si, nenhuma palavra. E eu respeitei esse sentimento de ambos. Afinal, a ocasião não era propícia para assunto tão macabro. Eles deviam ter visto cenas horríveis para serem relembradas em qualquer época, quanto mais numa ceia de Natal improvisada, como a nossa nesse momento.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Tuesday, January 24, 2006

E eles voltaram - Parte 3

(Conto de Natal)

(Continuação)

Eu estava regressando, só, para a nossa herdade, naquela noite de quarta-feira, véspera do Natal de 1854. Retornava, um tanto cansado, da casa de Vera, com quem estava namorando há já quase dois anos, planejando marcar para breve a data do nosso casamento, tão logo papai e Kyrillo voltassem do front.
Enfrentava caminhos muito difíceis nesta curta, mas acidentada jornada, pois havia nevado bastante em todo o dia anterior e até a metade deste. O céu agora estava claro e as estrelas cintilavam, como minúsculas, mas magníficas tochas numa procissão noturna. A lua brilhava intensamente no firmamento e o ar estava bastante frio, com uma ligeira brisa soprando que, no entanto, parecia cortar, quando, eventualmente, entrava em contato com a pele.
Tânya havia acompanhado Olga até a aldeia e ficara na casa do tio Ivan para passar ali o Natal. Toda a criadagem tinha sido dispensada, já que o meu plano original não era de voltar à herdade, mas permanecer nessa noite com a família de Vera.
Na atmosfera, parada e quieta, como que embalsamada de perfume, era possível de se ouvir, ao longe, o eco dos risos, de sons de guizos amarrados no pescoço dos cães que puxavam trenós e notas perdidas de canções natalinas, entoadas por pessoas que se presumia estarem alegres. Ou, o que era mais provável, embriagadas, para rebaterem o frio intenso, desse inverno particularmente severo ou para esquecerem as agruras de uma vida cinzenta, penosa e sem muitas perspectivas.
Ao longe, pude ver um rústico trenó, puxado por um robusto cavalo, que tinha imensa dificuldade com a neve em que afundava as patas e que chegava quase à sua barriga, que se afastava da nossa propriedade. Julguei ter reconhecido o "staretz" Athanásio, monge ortodoxo local, com sua longa barba grisalha, como se fora Santa Klaus.
Esse santo homem era amigo da família e, com certeza, estava voltando à aldeia, após encontrar tudo fechado e presumir que não havia ninguém em casa. Pensei em apressar os cães do meu trenó para alcançá-lo, mas desisti. Preferia estar um pouco sozinho, para recordar as pessoas que desejava ter ao meu lado nesta noite, mas não podia.
Algumas, seria impossível de abraçar e conversar com elas, não somente nesta véspera de Natal, mas em qualquer outra ocasião, por já não pertencerem ao mundo dos vivos. Eram os casos do tio Piotr, de mamãe e do primo Vassia, entre tantas. Outras pessoas, com as quais gostaria de partilhar minhas alegrias e preocupações, estavam muito distantes dali, como papai e Kyrillo.
Não pude me furtar de imaginar onde os dois estariam agora. "Talvez estejam, quem sabe, no fragor de alguma encarniçada batalha, cheia de estrondos, gemidos, fumaça de pólvora e cadáveres em profusão, espalhados no campo desolado, matando pessoas que nunca viram e jamais voltariam a ver, para não serem mortos. O mais provável, no entanto, é que estejam em uma barraca de campanha, dormindo ou conversando com os camaradas de armas sobre os combates desse dia, sobre a família e ou acerca da importância da data", ponderei.
--- "Será que as circunstâncias da guerra e o cansaço das longas marchas lhes permitem pensar um pouquinho que seja em nós?" –, perguntei aos meus botões.
Já fazia uns dias que eu estava tendo estranhos pressentimentos sobre a situação dos dois. É verdade que fazia quase dois meses que um oficial conhecido nosso, de regresso da Criméia, havia informado que vira meu pai e meu irmão durante uma retirada forçada de sua unidade, após a batalha de Blaklava, vencida pelos turcos. E que, a despeito da derrota das tropas russas naquela oportunidade, ambos pareciam estar muito bem. Pelo menos não haviam sido aprisionados e nem estavam feridos.
Depois disso, todavia, não soubemos mais nada deles. Carta já nem lembrava mais quando havia recebido a última. Desde o começo de novembro, eu vinha sentindo essa indefinível e sutil inquietação, uma espécie de irreparável sentimento de perda. Não comentei com ninguém da família, para não alarmar minhas irmãs. Afinal, poderia estar errado. Deus sabe o quanto estava torcendo para isso, para estar enganado e tudo não passar de mera e justa preocupação pela integridade dessas pessoas que tanto amo.
Quando estive em Moscou, no mês passado, soube qualquer coisa a respeito de concentrações de tropas para uma nova batalha, que poderia ser a decisiva, segundo o que se comentava. Entretanto, nenhuma nova notícia sobre a guerra chegou até nós desde então, nem oficial e nem oficiosa.
O território russo é uma enormidade. É tão extenso, que às vezes se passa até mais de um ano para que se saiba de fatos acontecidos na cosmopolita São Petersburgo. Imaginem notícias da inóspita região do Mar Negro! Com todas as dificuldades e perigos que existem, na locomoção para aquela ou daquela zona, informações de lá demoram uma eternidade para chegar!

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Monday, January 23, 2006

E eles voltaram - Parte 2

(Conto de Natal)

(Continuação)

Em março deste ano de 1854 estourou a guerra da Criméia, contra os turcos. Em pouco tempo, muitos oficiais, que estavam afastados da vida militar, foram re-convocados, um tanto às pressas, e enviados, imediatamente, para o front. Entre eles estava papai.
Kyrillo alistou-se como voluntário. Por mais que todos buscássemos tirar essa idéia de sua cabeça, foi inútil. Não havia força no mundo capaz de evitar que ele se incorporasse aos combatentes.
Olga, no final das contas, até gostou que ele fosse para o front. Afinal, estava bastante preocupada com papai e ninguém melhor para estar ao seu lado do que um jovem impetuoso, como era o meu irmão mais velho. Kyrillo tinha 27 anos e era um homem de estatura elevada, de um metro e noventa, robusto como um touro, bastante ágil para a sua compleição, louro, de olhos azuis, absolutamente saudável e dotado de uma energia incomum.
Era exímio caçador e atirava como ninguém. Comentava-se, na aldeia, que possuía um tiro tão certeiro, que seria capaz de acertar uma abelha em pleno vôo, a cem metros de distância. Exagero, é claro! Todavia, sua habilidade, tanto com uma espingarda, quanto com uma pistola, ou fuzil, era rara, digna de admiração.
Este fato, e mais o apego que tinha por papai nos deixavam tranqüilos quanto à proteção ao velho, que apesar da idade, era dado a arroubos de rapaz. É claro que a casa ficou um pouco mais sem graça sem eles. E as responsabilidades de zelar e de proteger a família, que já não eram pequenas com os dois presentes, redobraram e recaíram todas sobre os meus ombros. E não apenas as de proteção, mas as da administração da propriedade, além da resolução de pendências, que freqüentemente se verificavam entre os servos da nossa herdade. Eu teria de substituir o velho em tudo, e por tudo.
A princípio, senti-me inseguro com tamanha carga. Mas contando com o bom-senso de Olga, sempre por perto para corrigir os meus eventuais erros, tudo ficou mais fácil. E a não ser pelas naturais preocupações que tínhamos com as más notícias que nos chegavam do front, e pela saudade que todos sentíamos de papai e de Kyrillo, nossas vidas corriam quase que de forma normal.
Isto, até àquela sexta-feira, quando a notícia que havia causado tanto comoção a Tânya nos atingiu em cheio.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Sunday, January 22, 2006

E eles voltaram - Parte 1

(Conto de Natal)


Quando Tanya, minha irmã, desfeita em lágrimas, deu-me a notícia, minha primeira reação foi de incredulidade e até de uma certa indiferença. "Não pode ser! Deve ter havido algum engano", pensei, balançando a cabeça, entre complacente com o seu choro convulsivo e céptico, achando até um pouco de graça na situação melodramática, gerada por algum erro de interpretação, por algum equívoco, desses comuns que acometem pessoas crédulas ou supersticiosas.
Sempre me considerei um sujeito prático e racional. Confio nos meus sentidos e não creio no sobrenatural. Minha educação foi cartesiana e, por temperamento, acredito, apenas, no que é lógico, naquilo que é possível de ser comprovado.
Lá fora havia voltado a nevar, após relativa melhora do tempo, no dia anterior. Eu ainda trazia no espírito a satisfação pela visita que havia recebido na noite de Natal, o que me deixava predisposto à simpatia, e até a um pouco de indulgência com a tolice alheia. Principalmente, com as fraquezas da minha irmã. Como Tanya insistisse, gaguejando e chorando, em comunicar sua versão do fato, que a havia abalado dessa maneira, mas sem conseguir se fazer entendida, comecei a ficar intrigado, sem conseguir dissimular uma ponta de irritação.
--- "Por que não?!" –, perguntei a mim mesmo, abrindo um ínfimo espaço para a dúvida, mesmo que essa atitude fosse um tanto irracional.
--- "As estradas estão intransitáveis com a neve e a lama. Os lobos famintos e os bandoleiros, que não faltam nestes tempos difíceis, atacam qualquer um. Nem uns e nem outros têm raciocínio suficiente que lhes possibilite distinguir um oficial do czar de um mujique qualquer. Não são capazes de reconhecer nem o próprio soberano" –, conjecturei.
Essa idéia ficou martelando a minha cabeça por alguns instantes, agora misturada à descrença naquilo que me estava sendo comunicado de forma tão dramática por Tanya.
--- "Não, papai não se deixaria enganar por ladrões, que ademais são uns celerados sem muita combatividade e fogem espavoridos quando sentem que irão encontrar resistência. Quanto aos lobos, a pontaria de Kyrillo costuma ser infalível" –, ponderei.
Mas a dúvida havia se instalado, de vez, em meu espírito, enquanto Tanya não conseguia se conter, abraçada comigo e chorando no meu ombro, de forma contínua e convulsiva, segurando na mão um papel com o timbre do Exército do czar.
--- "Illya, o que vamos fazer?” –, perguntou minha irmã, buscando em meus olhos uma resposta para algo que eu nem sabia se era real ou apenas imaginado.
Naquele momento, só nós dois estávamos na sala. Olga não havia voltado, ainda, da casa de uma amiga, que fora visitar na terça-feira, portanto, há três dias. Estávamos na sexta-feira e minha irmã mais velha deveria passar o fim de semana todo fora. Isto, se o tempo melhorasse. Caso continuasse nevando, é possível que só voltasse para casa em dez dias ou mais.
Tanya era uma bela moça, no frescor dos seus 18 anos, cheia de vitalidade e humor. Embora fôssemos uma família proprietária de terras, ela parecia uma camponesa, livre, desinibida, vivaz, em seu selvagem esplendor. Era o símbolo da própria mulher russa, conhecida por sua tenacidade. Sua voz suave, sempre cantarolando alguma canção que aprendia com os servos da casa, ou caçoando de Vanka, o cocheiro; ou de Galina, a cozinheira, ou mesmo de mim, era o som que mais se ouvia naqueles ermos perdidos da Rússia.
Tanya era dessas pessoas agitadas, independentes, marotas, que estão sempre correndo e tropeçando nas coisas, balançando seus longos cabelos louros e agindo como se sempre estivesse com pressa, mesmo quando não havia, visivelmente, nada para fazer. Parecia uma garotinha travessa, de nove anos, e não se dera conta, ainda, de que crescera e se transformara numa bela moça, capaz de virar a cabeça de qualquer rapaz.
Segundo a opinião de Olga, o que lhe faltava era um homem capaz de domar o seu ímpeto juvenil. Sempre que dizia isso a Tanya, ouvia, por resposta, que estava ficando velha, rabugenta e resmungona. Que ela, sim, precisava se casar, para não ficar para titia. Geralmente esses pequenos bate-bocas aconteciam o dia todo. Quando menos se esperava, lá estavam as duas altercando, na maioria das vezes aos gritos. Mas terminavam sempre se entendendo, aos risos e beijos.
Apesar de tudo o que de ruim nos aconteceu nos últimos dois anos, podíamos ser considerados uma família unida, amorosa e feliz. Nossa mãe havia morrido no verão de 1852 de uma doença misteriosa, que médico algum conseguiu nem mesmo diagnosticar. Desde então, era Olga que cuidava de todos nós, esfalfando-se nos trabalhos domésticos, ralhando com a criadagem e até se preocupando com a nossa educação religiosa, tal como mamãe fazia. Ou até com mais energia. Era austera, zelosa e organizada, sem perder o senso de humor.
Aliás, quanto mais o tempo passava, mais Olga ficava parecida com mamãe, nos traços, nos trejeitos e até na voz, suave e melodiosa. Era severa, é verdade, quando a situação exigia, mas sempre pronta a acalmar as nossas dores, reais ou imaginárias, quando estas se manifestavam. Sua maneira de vestir-se, de pentear-se e até de andar não era o de uma moça de 25 anos. Gostava de usar um coque bem comportado no alto da cabeça, que lhe dava um aspecto austero, realçado pela roupa discreta e de tons neutros. Não sei o que seríamos sem Olga!
Kyrillo, antes de partir, costumava dizer que nossa irmã mais velha precisava conviver mais com rapazes. Que não era justo que sacrificasse a sua juventude para substituir mamãe. Todos concordávamos com sua opinião, ao menos da boca para fora. Mas nenhum de nós seria sequer capaz de conceber aquela casa enorme e vazia sem a sua presença constante, severa, protetora e prestativa.
Papai nada dizia a respeito. Aliás, o velho havia mudado bastante nos últimos tempos. Passava horas e horas fechado em seu gabinete. E sempre que algum de nós entrava, para chamá-lo para o jantar ou para comunicar algum fato ou dizer que havia alguma visita à sua espera na sala, geralmente o encontrava recostado em sua cadeira de espaldar alto, com os olhos fixos num ponto imaginário do espaço, como que perdido em meditação.
Por outro lado, dera para exagerar na vodca, posto que de maneira discreta, notada apenas por mim e por Kyrillo, que éramos as pessoas com quem ele tinha mais contatos. Papai tornara-se arredio e evitava sair para visitar amigos, com os quais mantinha um bom relacionamento antes da morte de mamãe. Quando recebeu a convocação para incorporar-se ao Exército, fiquei com a estranha impressão que ele chegou a ficar aliviado. Conclui que o velho precisava era de um pouco de ação para esquecer a esposa morta.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Saturday, January 21, 2006

O sino de ouro

Pedro J. Bondaczuk


A atividade do jornalista e, em especial, do homem de letras, às voltas com seus demônios interiores, é dolorosa e frustrante. Muitos escritores comparam a composição dos seus textos às dores de parto. É uma angústia contínua em busca da melhor forma de exprimir idéias, conceitos, descrições e enredos, da maneira mais fiel possível ao que foi imaginado. Luta-se com o estilo, com a linguagem, com o tempo, com as necessidades materiais inerentes à condição humana e sobretudo com o medo do ridículo a que se está sempre exposto.
Muitas vezes matamos uma excelente idéia no nascedouro por não encontrarmos a palavra correta ou a forma adequada de expressão. Em outras ocasiões, elaboramos uma reportagem, ou um artigo, ou uma crônica formalmente perfeitos, claros, ágeis, nervosos, dinâmicos, mas despidos de conteúdo.
Agradam ao leitor desatento, mas são imediatamente esquecidos, por não excitarem sua mente e não tocarem sua emoção. São vazios, ocos, não acrescentam coisa alguma ao jornalismo, à cultura e às letras. Um escritor zeloso (e também um jornalista, claro) "luta", com aquilo que escreve, por horas, dias, meses ou mesmo anos (em casos extremos), até que se dê por satisfeito com o resultado. E quase nunca se dá.
Mário de Andrade chegou a levar mais de vinte anos para dar alguns de seus contos por concluídos. Chegou a refazê-los inteiros um sem número de vezes. Preciosismo? Talvez. A maioria dos escritores não chega a esse requinte. Mas revisa, corta, acrescenta, torna a revisar, modifica, reescreve, desbasta, apara arestas, faz nova revisão, e assim sucessivamente, com duas, três, cinco, dez, cem ou quiçá mil versões. E quando dá o texto por concluído, em geral vencido pelo cansaço, o faz com uma sensação de fracasso e de frustração.
Todos sonhamos com uma obra-prima que nos consagre e nos garanta a ilusória "imortalidade" literária, que raríssimos conseguem. Alguns têm sucesso, embora, enquanto vivos, sequer se dêem conta do êxito, que apenas se consolida post-mortem. Outros julgam ter conseguido, na maioria das vezes iludidos por elogios de néscios ou de hipócritas, que lhes ofuscam a capacidade de autocrítica, e se acomodam.
Há uma citação de Rubem Braga, em seu livro "A Borboleta Amarela", na crônica "O sino de ouro", que costumo repetir e que diz: "Cada um de nós, quando criança tem dentro da alma seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra e lama e podridão".
O escritor passa por idêntica situação. Tão logo descobre estar tomado por esta "febre" de criação (se bênção ou maldição, não se sabe), um sino de ouro, de vinte e quatro quilates, vibra em seu interior, aguçando sua sensibilidade. No entanto, esse precioso metal, por culpa da indolência, da vaidade e do orgulho (principalmente), começa a se corromper. "Vai virando ferro e chumbo e pedra e terra e lama e podridão".
Claro que o cronista utiliza essa magnífica metáfora para retratar a degradação moral do homem, que abre mão dos sonhos e ideais da juventude, para correr atrás de fumaça, de ilusão e de banalidades, como riqueza, fama e poder. Mas como o escritor pode se manter íntegro e jamais desistir de perseguir a perfeição? Ela existe? No que consiste? É possível de ser alcançada?
Essas questões foram objetos de preocupação de Mário de Andrade, que as deixou registradas no capítulo "O artista moderno", do livro "A Escrava que não é Isaura". Indaga: "Será possível forçar a perfeição a surgir para as artes? Saltar a evolução para que as obras atuais ganhem em serenidade, clareza, humanidade? Escrevemos para os outros ou para nós mesmos? Para todos os outros ou para uns poucos outros? Deve-se escrever para o futuro ou para o presente? Qual a obrigação do artista?"
Esse questionamento atormenta o escritor (e também o jornalista) que ainda sente o "sino de ouro" vibrar na alma e quer impedir que ele se corrompa em "ferro e chumbo e pedra e terra e lama e podridão". A única forma de tentar impedir essa corrupção, sem garantia de sucesso, é a persistência. É o trabalho incansável e concentrado. É a observação do mundo que o rodeia. É a introspecção. É a "luta" com o anjo da perfeição, até o raiar da alba, para que este o abençoe, como fez o patriarca Jacó, no Vale de Jaboc.
Outra indagação do escritor refere-se á sua formação. Qual deve ser a prioridade? A cultural, obtida pela leitura de milhares e milhares de livros? Ou a capacidade de observação do que o cerca? Provavelmente, as duas. O crítico João Antonio, no ensaio "O escritor assume a sua cor. É Lima Barreto" ( Suplemento Literário do Diário Oficial do Estado de São Paulo, edição de abril de 1983), coloca a questão desta maneira: "Há escritores em que o leitor vê atrás deles uma biblioteca, uma 'sapientia' , uma sofisticação intelectual, uma aflição estética, antes de ver os seus personagens. E há escritores atrás dos quais, ou mesmo ao lado deles, logo se vê, de pronto, um povo – com suas caras, roupas, cheiros, as maneiras todas de ser".
O ideal é contar com as duas características, simultaneamente: ter vasta cultura para poder valer-se de idéias alheias como pontos de partida para as próprias, aperfeiçoando-as, atualizando-as, dando-lhes novos e originais contornos, nunca se esquecendo de mencionar a origem, os seus verdadeiros autores que, por uma razão ou outra, não puderam dar o toque final de excelência que pretendiam ao que escreveram. Ao mesmo tempo, nunca se afastar "do jeito, da forma, da cor e do cheiro do povo". E, acima de tudo, jamais deixar se apagar a chama do ideal, mesmo que não factível. Que impeça o sino de ouro que traz na alma de se corromper e se transformar em "ferro e chumbo e pedra e terra e lama e podridão..."

Friday, January 20, 2006

Necessidade de dizer

Pedro J. Bondaczuk


O genial autor de "O Velho e o Mar", "Por quem os Sinos Dobram" e "Adeus às Armas", Ernest Hemingway, costumava dizer que aqueles que nos elogiam mais nos atrapalham do que ajudam. Tendem a encobrir, por temor de ferir o nosso orgulho e o nosso amor próprio, as falhas que temos. Impedem, desta maneira, que as consertemos e tenhamos uma conseqüente evolução.
O romancista pode estar até certo, mas nem sempre isso é verdadeiro. No caso, não cabe uma generalização. O intelectual, o artista, o jornalista e, mais do que eles, o escritor, procuram, a todo o custo e instante, o reconhecimento público para os trabalhos que realizam. Principalmente porque põem neles muito de si. Sobretudo, criam. E a criação é um ato desgastante e solitário.
Nunca estamos verdadeiramente seguros da originalidade, da validade ou da qualidade do que criamos. Ademais, há um aspecto prático nessa necessidade de menções elogiosas: a de vender os trabalhos que criamos (reportagens, artigos, crônicas, ensaios ou livros, não importa). Portanto, não se trata só de uma questão de vaidade, embora esta componente não possa ser descartada. Aliás, não são somente os indivíduos criadores, mas todas as pessoas sem exceção, que buscam o reconhecimento para o que são, para o que pensam ou para o que fazem.
Mesmo os que estão à margem da vida contam com esse impulso, que é instintivo. É a nossa maneira de gritarmos ao mundo que existimos, que somos talentosos, que temos uma identidade, que somos alguém. Quem não tem orgulho do seu intelecto, o tem do físico: da força, da beleza ou da saúde. Ou da "coragem", na maioria das vezes confundida com temeridade. Ou do desempenho sexual. Ou de outro aspecto qualquer.
Procuramos não exatamente o aplauso, mas a aprovação. Queremos a certeza de que somos originais, excelentes e, portanto, notados em algum ponto. Ou de que o nosso esforço para realizar alguma coisa (não importa o quê) não foi vão. Aspiramos ser admirados (e alguns reverenciados) no que quer que seja. Isto vale dos mínimos atos cotidianos aos máximos. Do engraxar de um sapato à construção de uma pirâmide. De uma marca em qualquer atividade esportiva à descoberta de uma nova galáxia. Sua natureza não importa.
Há várias espécies de elogio. Alguns são nitidamente irônicos e querem dizer exatamente o contrário do que expressam. São, na verdade, críticas e das mais ácidas. Outros, são hipócritas e interesseiros, feitos por subalternos, no afã de agradar os superiores, de olho em vantagens que às vezes (na maioria delas) não são merecedores.
Quem não conhece a ridícula figura do "puxa-saco"? Encontramos esse tipo de indivíduo por toda a parte. Outros, ainda, são feitos por basbaques despreparados, que por falta de cultura, de informação e até de inteligência, elogiam tudo o que supõem ser erudito, mesmo que se trate de um conjunto de besteiras. Estão, na verdade, tentando se auto-elogiar.
Há elogios, por outro lado, sinceros, mas também sem validade, por virem de pessoas que nos amam e que ficam cegas em decorrência desse amor. Tudo o que fazemos, dizemos ou somos lhes agrada e desperta irrestrita admiração. Claro que suas manifestações fazem um bem enorme à nossa alma. Mas estão longe de servirem de referencial de qualidade. Provêm de pessoas "suspeitas", emocionalmente comprometidas, sem equidistância para qualquer espécie de julgamento.
Estas considerações vêm a propósito de um "fax" que recebi estes dias, elogiando uma das minhas crônicas. Esse elogio foi daqueles válidos e que se constituem em galardões. Equivale à conquista de um prêmio, de uma medalha, de um troféu. É, portanto, gratificante, por não haver sido ditado por nenhuma das razões apontadas acima como condições para tirar sua legitimidade.
Não proveio, por exemplo, de uma pessoa basbaque, já que quem o enviou – no caso uma mulher, chamada Tânia – mostrou ser dotada de cultura, pela linguagem que utilizou. Também não é de um "puxa-saco", pois sequer nos conhecemos e, portanto, não há nenhuma relação de subalternidade de uma ou de outra parte. Pela mesma razão anterior, a do desconhecimento mútuo, não foi ditado pelo amor ou amizade. A pessoa que teve a gentileza de me brindar com palavras tão elogiosas sequer é de Campinas. Reside em Santo André. Não há, por conseqüência, qualquer razão subjetiva por trás delas.
Este sim, portanto, é o tipo de elogio que gratifica o artista, o jornalista, o escritor. Provém da identificação intelectual entre dois seres humanos cultos, que não se conhecem, dificilmente virão a se conhecer (e sabem disso), mas possuem pontos de vista idênticos em alguns aspectos essenciais da vida. Significa que o objetivo do texto foi atingido: "comunicou" informações ou despertou emoções ou ambos. Um dos maiores terrores dos que por força da profissão, ou por convicção, publicam amiúde opiniões (pelo menos é o meu) é a possibilidade de cair no ridículo. Quem lida com idéias e tenta dar-lhes forma mediante esse instrumento fragílimo, que é a palavra, corre sempre esse risco.
Raras vezes conseguimos evitar esse deslize. Sequer percebemos quando nos encaminhamos para esse precipício. E, quando menos esperamos...zás! Caímos nele! Fazemos papel de idiotas publicamente! Aliás, Voltaire tem uma observação lapidar a esse propósito. "A necessidade obrigatória de falar, e o embaraço de nada ter que dizer, são duas coisas capazes de tornar ridículo ainda mesmo o maior homem", escreveu o filósofo francês. E como são! Constantemente, vemo-nos confrontados por essas duas situações.

Thursday, January 19, 2006

Jornalismo que crê

Pedro J. Bondaczuk


O homem prático, aquele que tem consciência das suas potencialidades e noção do seu papel no mundo, não vive com a mente presa em um passado, por melhor que ele possa ter sido, e nem tenta se projetar no futuro, que nem sabe se vai ter. Seu tempo é o "agora". Trabalha como se fosse viver eternamente e se prepara para deixar o "palco" deste mundo, como se fosse morrer no próximo minuto. Tem consciência de que cada momento, por mais banal que pareça, é precioso, por ser o único, e procura usufruir ao máximo a vida.
Evita alimentar a memória com lembranças (não confundir com informações), que embora possam ser um consolo para os que já abriram mão da luta e apenas aguardam a morte (são tantos!), não têm um sentido prático. Age de forma incansável – embora buscando preservar a saúde que é o seu maior capital – consciente de que terá "a eternidade para descansar". Seu lazer é o trabalho.
Passa por cima de pequenos aborrecimentos e limita os seus projetos ao factível. Ou seja, embora dê asas às fantasias, nunca permite que estas o levem longe demais. O passado e o futuro servem-lhe somente de referencial. O primeiro, no sentido de correção dos rumos, para evitar cometer sempre os mesmos erros e tropeçar nos mesmos obstáculos em que já tropeçou e o segundo como meta que pretende alcançar, mas nunca posta distante demais ou demasiadamente alta, de forma a se tornar inalcançável. Homem prático é o que mais procuro ser. Claro que, por mais que tentasse, jamais conseguiria abrir mão das emoções, pelo menos das que me tornam mais vulnerável e carente. E nem tento fazer isso. Afinal, sou humano e não um robô programável.
Contudo, quando comento fatos passados, em minhas crônicas e, principalmente, nos artigos que escrevo, busco agir em sentido prático. Tento extrair – e transmitir aos outros na qualidade de comunicador – experiências e lições. Ou, quando eventualmente sofro algum incontrolável "ataque" de sentimentalismo, procuro fazer dessas recordações um poema ou o enredo de um conto, ou ilustração de algum conceito filosófico que tento realçar.
Tudo coerente com meu objetivo maior de vida, que é o de praticar o “jornalismo que crê”. Ou seja, aquele que, sem resvalar para a alienação, deixa entrever nas entrelinhas a possibilidade de, por pior que seja o momento atual – dadas as injustiças, a corrupção e a violência que nos irritam e desanimam –, sempre há a possibilidade de dias melhores para as pessoas (e para a humanidade), desde que se aja no sentido prático, de profilaxia dessas distorções e aberrações e da construção de uma sociedade mais lógica e menos excludente. E, no terreno pessoal, procuro, nos limites da minha capacidade, tentar evitar a "segunda morte", a extinção de toda e qualquer lembrança, em um futuro remotíssimo, de que vivi, amei, odiei, pensei, sonhei, sofri, tive alegrias, tristezas e saudades. De que fui um homem, consciente e racional, integrado ao meu tempo e, sobretudo, útil.
Não creio na sobrevivência da alma. Prezo as amizades autênticas, que não se prendam a circunstâncias e a interesses, embora tenha dificuldades em conquistar novos amigos. Mas valorizo as que simplesmente existem, sem qualquer motivo ou razão, e procuro conservá-las e ampliá-las ao máximo. Entendo que elas sobrevivem ao tempo, à distância, à memória e à própria morte. Sinto-me responsável, por exemplo, pela descendência de um amigo morto e procuro prestar-lhe socorro nas horas de necessidade, dentro das minhas possibilidades.
Este é o meu credo, profissional e de vida, raras vezes interpretado e entendido em suas reais dimensões. Neste mundo de aparências, em que a "casca" é mais valorizada do que a essência, tenho sido alvo de mais críticas do que de elogios, o que não me surpreende (embora muitas vezes me aborreça) e não deixa de se constituir até mesmo em uma bênção. Meus antagonistas, ao enfatizarem meus defeitos, estão me prestando um favor inestimável. Dão-me condições de melhorar, embora me chateiem a não mais poder.
Creio que sou parte da divindade e que Deus está presente em cada célula do meu corpo. Ao morrer, vou me transformar e cada partícula do meu ser, por ser indestrutível (a famosa Lei de Lavoisier que diz que “na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”) estará em algum lugar do universo. Onde? Não importa!
Só o que fiz, ou o que pensei, tem remotíssima chance de sobreviver. Ou seja, as minhas obras. De todo o conhecimento que ambiciono conseguir, o que mais espicaça a minha curiosidade é o mais difícil de todos de se obter: o sobre mim mesmo. Tento, a todo o custo, descobrir minhas motivações e entender o que impulsiona os meus atos, para os direcionar no sentido construtivo, embora raras vezes tenha sucesso (acho).
Procuro, sim, a notoriedade, mas em sentido prático. Ou seja, como chave para abrir as portas da oportunidade. E para que as minhas idéias e conceitos fiquem na memória do maior número possível de pessoas e evitem a minha "segunda morte", como ocorreu com Platão, Homero, Sócrates, Aristóteles, Virgílio, Ovídio etc.etc.etc. que vivem até hoje nas magníficas obras que legaram à posteridade.
Não me julgo superior e nem melhor do que ninguém, em nenhum sentido, embora também não me ache inferior ou pior e detesto receber ou dar ordens, apesar de reconhecer a importância e a necessidade de hierarquias em qualquer sociedade organizada e, por conseguinte, em uma redação de jornal, que é o meu “habitat”.
Esta é a visão que tenho de mim mesmo. Se o quadro não é fiel, paciência. Pelo menos sou sincero. Faltam meus defeitos? Estes nem preciso enumerar e muito menos enfatizar. São visíveis demais! As pessoas que me conhecem, e que convivem comigo, os vislumbram sem a menor dificuldade. E as que me são estranhas, e que sequer me conhecem...para elas o que sou ou deixe de ser pouco importa, embora eu me importe com elas!

Wednesday, January 18, 2006

Solução ou problema?

Pedro J. Bondaczuk


As novas tecnologias que revolucionam a vida moderna são, quase sempre, recebidas com desconfiança, e até com variável grau de resistência, pelas pessoas mal-informadas (a maioria delas), enquanto não se imponham e não se tornem corriqueiras. E isso é mais velho do que andar pra frente.
Aconteceu com o tipo móvel de Johann Guttenberg, com o tear mecânico, a locomotiva a vapor, o automóvel, o avião, o rádio, a televisão, o computador e agora ocorre com o telefone celular, para citar, apenas, alguns dos grandes avanços tecnológicos a partir da Idade Média, notadamente dos séculos XIX e XX.
Em relação à TV, por exemplo (e disso lembro-me muito bem, pois tinha sete anos de idade por ocasião da inauguração da Tupi-Difusora, o primeiro canal da América Latina, ocorrida em 1950), dizia-se, na oportunidade, que ela apresentava sérios riscos à saúde. Houve quem garantisse que a radiação emanada da telinha poderia provocar leucemia. Outros, do alto da sua “sapiência” (para não dizer, monstruosa ignorância) asseguravam que o aparelho afetava a visão e poderia, até, causar cegueira. Bobagens, claro!
Não houve, desde o advento da TV, nenhum aumento significativo desses males. E nem poderia haver. Mesmo a má programação, a enxurrada de baboseiras que a televisão joga, diariamente, em nossa sala, não apresenta os riscos que tantos “especialistas”, psicólogos, pedagogos, o escambau, dizem que causa.
O problema não reside nesse veículo, tão útil e tão mal aproveitado, mas na educação, ou, para sermos mais exatos, na falta dela para um imenso contingente de pessoas. Deixei de assistir a muitos programas que apreciava por causa da mania superprotetora da minha mãe que, pelo sim, pelo não, queria prevenir algum eventual problema à minha saúde, confiando em tais “pesquisadores”. Não perdôo os que inventaram essas bobagens, sobre riscos imaginários, que não existem e nunca existiram de fato. Privaram-me de algumas satisfações, posto que por tabela.
A bola da vez, agora (reitero), é o telefone celular. Trata-se de uma das maiores invenções dos últimos tempos, que facilita as comunicações e torna muito mais prática a vida dos usuários. Fico imaginando como seria bom contar com esse aparelhinho, anos atrás, quando era editor de um jornal. Quantas bobagens dos repórteres (e minhas, obviamente), não teriam sido cercadas e corrigidas a tempo, antes mesmo da redação dos textos; quantas excelentes pautas não teriam sido cumpridas, em vez de derrubadas; quantos atrasos de edição não seriam evitados!
Todavia, “estudos” se multiplicam, tentando encontrar “chifre em cabeça de cavalo”. Há pesquisadores que (a exemplo do que aconteceu com a televisão) garantem que a radiação emanada pelo aparelho expõe quem dele se utiliza a sérios riscos de saúde. Outros afirmam, no entanto, que nesse aspecto ele é absolutamente inofensivo. Nem uns e nem outros, todavia, conseguiram comprovar suas teses sem sombras de dúvidas. Tenho comigo que faz mal é não termos dinheiro para adquirir um!
O Brasil é, hoje, um dos países em que mais a telefonia celular avançou em todo o mundo. E a expansão desse serviço não está com cara de parar ou de pelo menos reduzir o seu ritmo. Pelo contrário! Estima-se que cerca de um terço dos 182 milhões de brasileiros (por volta de 60 milhões de pessoas) sejam proprietárias do incrível aparelhinho, que se sofistica, mais e mais.
Hoje ele é dotado, por exemplo, de poderosas câmeras digitais, que possibilitam fotografar, com comodidade, rapidez e qualidade, o que quer que seja. Permite enviar e receber e-mails, toca música, sua tela virou receptor de TV e já há, inclusive, bons negociantes que se preparam para produzir mini-novelas, com capítulos de três minutos cada, especialmente voltadas para os seus felizes proprietários.
“Ah, mas o celular aborrece, porque toca em momentos e lugares inoportunos, como igrejas, cinemas, velórios etc.”, dirão alguns, com ares professorais. É verdade! Mas essa é uma questão de falta de educação dos usuários e não de falha da tecnologia. “Bandidos utilizam-se do aparelho para comandar assaltos, seqüestros e outros delitos”, dirão outros, certos de que apresentaram argumento decisivo contra o telefone celular. Isso sequer merece comentário, não é mesmo?
Li, dia desses, na seção “Viva Bem – Medicina & Bem-Estar”, da revista “IstoÉ” (edição número 1891 de 18 de janeiro de 2006), assinada por Lena Castellón (excelente, por sinal), que pesquisadores da universidade norte-americana de Wisconsin concluíram um estudo que mostra que o inofensivo aparelhinho aumenta, e muito, o stress no lar, sendo causa, muitas vezes decisiva, da separação de muitos casais.
Argumentam, entre outras coisas, que “os homens atendem muitas chamadas do trabalho quando estão em casa e as mulheres recebem ligações das amigas e tudo isso na hora em que a família está reunida”. Reunida onde, cara pálida? Claro, em torno da TV, à espera do capítulo da novela ou das peripécias do BBB6! No quê, num lar com esse costume, o celular atrapalha? Piora um relacionamento que já não é dos melhores? Ora, ora, ora... Duvido! Será que esses caras não têm mais o que fazer? A conclusão parece óbvia, não é mesmo? Não devem ter mesmo!

Tuesday, January 17, 2006

Sobre cães e gatos

Pedro J. Bondaczuk


Os cães ferozes, especialmente os Pitt-bulls, Rothweillers e Filas Brasileiros, têm estado, ultimamente, na ordem do dia, no noticiário da imprensa, por causa de ataques a crianças e adultos, que redundaram, em alguns casos, em mortes e em outros, em graves ferimentos das vítimas. Em algumas cidades do País – como Ribeirão Preto, por exemplo – as autoridades optaram por soluções radicais, provavelmente exageradas, como a esterilização de espécimes dessas raças, na tentativa de extinguir, a médio prazo, esses animais, de suposta ferocidade incontrolável.
Tais medidas vêm despertando debates e protestos, tanto dos que estão de acordo com elas e que pedem providências ainda mais duras, quanto daqueles que são contrários a ações desse tipo, as considerando desnecessárias e absurdas. Estes últimos argumentam que a culpa, pela excessiva agressividade dos cães, não cabe aos irracionais, mas aos ditos racionais, seus donos ou treinadores, que os condicionam a serem como são.
Cachorros ferozes, a rigor, sempre existiram e vão existir, desde que o mundo é mundo, em todas as épocas e lugares. Tudo depende das circunstâncias e do tratamento dado aos animais. Ataques brutais de cães, em especial os de grande porte, sequer são novidade, embora apenas recentemente os meios de comunicação tenham decidido noticiar com maior ênfase esses fatos. Talvez lhes faltem notícias ou quiçá falte competência aos seus editores para hierarquizar melhor o noticiário.
Não são apenas Pitt-bulls, Rothweillers ou Filas Brasileiros que, quando de alguma forma ameaçados, ou quando condicionados a agredir, têm cometido, ou podem cometer, ataques, muitas vezes mortais. Dependendo das circunstâncias e situações, até espécimes de raças miúdas, como os Toys ou Pequineses, por exemplo, costumam se comportar como perigosas feras. Quem possui animal de estimação deve sempre manter uma série de cautelas, por maior que seja sua estima pelo bicho. Afinal, trata-se de um ser irracional, que age por instinto ou por condicionamento.
De cães ferozes ouve-se falar a todo o momento (o que temo é outro tipo de ferocidade), mas de gatos... Pois é, tenho em casa – sem que até há poucos dias soubesse – um rematado exemplar de "Pitt-cat". Pelas reclamações que venho recebendo desse animal – um vira-lata simpático (ou dissimulado?) de pêlos pretos com manchas brancas – por parte dos vizinhos, se trata do terror do pedaço. Muitos (eu mesmo) já foram acordados pelo fragor de suas pelejas noturnas, em disputa do amor das fêmeas das redondezas, e pelos gemidos escandalosos, produzidos durante seus turbulentos "romances" da madrugada.
Esse gato valentão atende pelo nome de "Jack" (o Estripador?), que lhe foi dado pelos meus filhos. Em casa, é o animal mais dócil, carinhoso e inofensivo do mundo. Quem o vê esfregando o corpo em nossas pernas, miando meloso, ronronando, descontraído, em busca compulsiva de carinho, ou acomodando-se no meu colo quando estou à frente da tela do meu computador, escrevendo meus textos (como agora), só pode atribuir sua pretensa ferocidade, reclamada com tanta ênfase pelos vizinhos, a intriga de desocupados ou a fofoca de inconciliáveis inimigos dos felinos. Há gente assim...
Mas as reclamações são muitas... Concluo que este simpático malandro tem dupla personalidade e consegue ludibriar toda a família, conquistando, com seu enganador jeito manso, a nossa irrestrita solidariedade. Outro dia o Jack foi acusado pela vizinha do lado de haver invadido, como reles ladrão, a sala da sua casa, dado uma sova daquelas no seu gato, sem a menor cerimônia e, de quebra, arranhado a mão da sua filha. No caso do felino agredido, a explicação é simples: disputa de território. Quanto à menina arranhada, se o Jack pudesse falar, certamente se defenderia usando o argumento da "legítima defesa". Ou a garota tentou bater nele ou ele achou que ela estava tentando fazer isso. Sobre gatos, encontrei, por acaso, este delicioso e inteligente poema de Fernando Pessoa, composto em janeiro de 1931, que diz:
"Gato que brincas na rua/como se fosse na cama,/invejo a sorte que é tua/porque nem sorte se chama.//Bom servo das leis fatais/que regem pedras e gentes,/que tens instintos gerais/e sentes só o que sentes.//És feliz porque és assim,/todo o nada que és é teu./Eu vejo-me e estou sem mim,/conheço-me e não sou eu". Eu também não sou eu, poeta! Contudo, nem sei quem sou!

Monday, January 16, 2006

Tempos de boêmia

Pedro J. Bondaczuk


O termo boêmia traz consigo, de imediato, a idéia de dissolução, de irresponsabilidade, de vícios, de noites de embriaguez e, por conseqüência, de dias de ócio, para curar a ressaca. Durante muito tempo, essa expressão foi utilizada para rotular indivíduos que não eram, digamos, "muito responsáveis". Pessoas sem regras ou disciplina, incapazes de parar em qualquer emprego ou de constituir e sustentar uma família.
Ainda hoje a palavra tem esse sentido pejorativo. Mas nem todos os boêmios dedicam-se o tempo todo a noitadas alegres, regadas a álcool. Pelo menos no meu caso e do nosso grupo de rapazes, em São Caetano do Sul, em princípios dos anos 60, não acontecia dessa forma. Todos trabalhávamos, estudávamos e nos preparávamos com afinco para a vida.
Reuníamo-nos nas noites de sexta-feira, após o trabalho, em um bar da Rua Santa Catarina, que pertencia a um amigo nosso, em um cômodo reservado, para colocar a conversa em dia. Era a nossa forma de lazer. Ali, entre um uísque e outro, acompanhado de petiscos, (ou entre um chope e outro, no verão), varávamos a madrugada conversando (e algumas vezes "urrando"), já que no sábado, ninguém da nossa turma teria que trabalhar.
Os temas eram extremamente ecléticos. Versavam sobre todos os assuntos em voga, já que tínhamos de tudo entre nós: estudantes de medicina, filósofos recém formados, professores, jornalistas, advogados, futuros cientistas políticos, ex-jogadores profissionais de futebol, detetives de polícia, etc.
Não me recordo de ninguém que se excedesse na bebida e de nenhuma desavença séria, apesar do "calor" com que alguns assuntos eram debatidos aos gritos e até palavrões. Principalmente os que se referiam à política brasileira.
A despeito da crise – o Brasil sempre conviveu com alguma – o País vivia um período de euforia, após a gestão de Juscelino Kubitschek, com a sua arrancada para o desenvolvimento. Estava na moda a pregação das chamadas "reformas de base" – as mesmíssimas que o ex-presidente Fernando Henrique se propôs e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se propõe a implantar nos seus governos – que na ocasião eram vistas como "idéias subversivas, comunistas" por parte de determinados setores de direita.
Tolice, claro, mas esses retrógrados não se davam conta do seu atraso e ignorância. Ou cinismo, oportunismo, ou sabe-se lá o que mais. Uma vez por mês, nosso grupo fazia serenata, autorizado pela polícia, em algum bairro da cidade. Eu apenas acompanhava, já que cantar nunca foi meu talento. Violência era coisa rara. Hoje, seria impossível isso. Quem se atrever, corre o risco de voltar nu para casa, se voltar. Será, fatalmente, assaltado.
Essa era a nossa boêmia. Ingênua, barulhenta, inocente. Além de aproximar amigos, servia como um aprendizado da realidade brasileira, embora na ocasião não nos déssemos conta. O objetivo era somente o de lazer. Havia noites que sequer bebíamos algo mais forte do que um guaraná.
Muitos dos meus poemas mais caros foram debatidos e emendados nesse bar da Rua Santa Catarina, hoje demolido para dar lugar a um espigão. Nem gosto de passar por ali, pois quando o faço, me dá um aperto no coração.
Um pedaço de mim ficou perdido nesse tempo específico e nesse local exato. Aprendi muitíssimo com os jovens brilhantes que participavam dessas noitadas, hoje profissionais e políticos vencedores, de renome nacional. O grupo também teve seus "desaparecidos" durante a ditadura que viria alguns anos depois.
Estas reminiscências associo-as ao poema "Minha Boêmia", de Arthur Rimbaud, que diz: "Eu caminhava, as mãos nos bolsos desgastados;/também meu paletó fazia-se ideal;/ía sob o céu, Musa! e era o amante leal!/Ah que esplêndido amor que então foi sonhado!//Meus únicos calções tinham um grande furo./ - Pequeno Polegar que entre rimas discursa,/via minha taverna às margens da Grande Ursa,/no escuro!//Sentado eu escutava, à beira dos caminhos,/as meigas noites de setembro; e tinha o vinho/do orvalho sobre a fronte – ó tônico perfeito!//E ali rimas tecia entre vultos fantásticos,/com a minha lira – meu sapato e seus elásticos/que eu fazia vibrar, tendo um pé contra o peito".
Nossa boêmia era mais inocente do que a do poeta. E provavelmente mais produtiva, profícua e inteligente. Não tinha esse ranço decadentista de cabarés, de dissolução e de pecado. Não se associava à embriaguez, a não ser aquela que atinge jovens idealistas dispostos a lutar por aquilo em que acreditam: a das idéias. Parecia mais um cenáculo, onde irmãos de fé arquitetavam um futuro, sem que sequer desconfiassem que estavam fazendo isso.

Sunday, January 15, 2006

Em busca do papel

Pedro J. Bondaczuk


Os pressupostos em que se baseia a civilização não resistem à mínima análise. Disfarçada sob uma tênue camada de verniz civilizatório, o que ainda impera é a lei da selva: a prevalência do mais forte sobre o mais fraco. A riqueza é o disfarce que se usa para dissimular a força bruta. Hoje, não é o indivíduo com maior massa muscular, ou mais perito no manejo de armas, o que prevalece sobre os que lhe são mais frágeis ou indefesos. É o rico. É o que pode "comprar" essa montanha de músculos, ou essa máquina de coagir e matar, para impor e assegurar os seus interesses. E a maioria, consciente ou inconscientemente, apóia tal sistema ou pelo menos não se lhe opõe como deveria.
A sociedade atual, tirando os recursos tecnológicos que facilitam a vida de milhões (vedados a dois terços da humanidade, que vegetam sob o espectro da fome, sem acesso à educação, à moradia, à saúde, à segurança etc.), é a reprodução fidelíssima do inferno, pintado por furibundos pregadores do passado (e alguns atuais) como castigo àqueles que não seguissem os dogmas que pregavam.
Todavia, em treze milênios de civilização, o homem ainda não se conscientizou do seu verdadeiro papel, "brincando" de viver, transformando o mundo em um circo de horrores, onde imperam o crime, a violência (física e principalmente social), a corrupção e o desmedido egoísmo. No fundo, bem no íntimo da consciência, todos sabemos que os paradigmas que norteiam as relações humanas são errados. No entanto... relutamos em abrir mão deles ou nos insurgimos contra a sua modificação.
Nunca a vida foi mais desvalorizada do que no século passado, o 20º da Era Cristã, que conheceu as maiores guerras jamais travadas pelos povos e até um genocídio nuclear (Hiroshima e Nagasaki), que pode se reproduzir em escala um milhão de vezes maior, até acidentalmente.
A morte é banalizada, até mesmo nas artes, como se matar uma pessoa (ou toda uma nação, como Adolf Hitler e Pol Pot, entre outros, tentaram, e quase conseguiram), fosse uma ação trivial, simples, meritória, como apagar um número de uma relação estatística. Em desespero, milhares de seres humanos, pelo mundo afora, recorrem à fuga, às drogas, ao alcoolismo, quando não ao suicídio, por entenderem que viver se tornou penoso. O que falta ao homem é definir o seu verdadeiro papel.
O escritor D. H. Lawrence, célebre por seu romance "O Amante de Lady Chaterley", que teve sua obra censurada como "pornográfica" e "atentatória à moral" e que não viu o livro ser publicado na íntegra (o que ocorreria apenas após a sua morte), criticou os pressupostos baseados no "ter", em detrimento do "ser". Erich Fromm, por seu turno, escreveu um livro, hoje verdadeiro clássico do comportamento, sobre esse tema. Essa obra é muito citada por intelectuais, mas, na verdade, suas recomendações são raramente seguidas.
Lawrence escreveu a esse propósito: "O que queremos é destruir nossas falsas, inorgânicas relações, especialmente com o dinheiro, e restabelecer nossa relação orgânica e viva com o cosmos, o Sol e a Terra, com a raça humana e com a nação e a família".
Imoral não é falar e/ou escrever sobre sexo e erotismo, mas deixar pessoas morrendo à míngua, enquanto temos mais do que precisamos e desperdiçamos. Qual a razão do patrimônio da humanidade – que são os recursos do Planeta – estar entregue a pessoas tão medíocres, sem princípios e sem idéias, que os vêm depredando de forma estúpida e sistemática? Quem lhes conferiu essa prerrogativa?
Foram as idéias (não foi a força), que tiraram o homem das cavernas, com a maior revolução já ocorrida em todos os tempos: a descoberta da agricultura. Foi a ciência, e não o comércio, que ampliou os anos de vida desse animal frágil, exposto a um número incontável de doenças, e lhe proporcionou conforto e segurança. Foram as artes, e não as guerras, que deram sentido à vida, com a revelação da beleza. No entanto, tudo isso está sendo deixado de lado, trocado por acúmulo de "bens", que na verdade são "males".
O poeta mexicano Octávio Paz, Prêmio Nobel de Literatura, observou: "As idéias perderam sua atração e os corpos seu mistério. A gratificação instantânea não somente prejudica o desejo como frustra um dos gozos mais certos do amor sexual: o mútuo descobrimento que o casal faz de seus corpos. Nossas sociedades substituíram o desejo pela higiene, a liberdade pela promiscuidade".
Seria saudável a cada pessoa se, ao despertar, ela pensasse que esse dia pode ser o último de sua passagem na Terra. Pode parecer mórbido, mas não é. É um exercício de humildade. Da humildade que o homem perdeu e precisa recuperar. Esqueceu-se da sua efemeridade, arrotando um poder que em verdade não possui. Falta ao ser humano – pelo menos à maioria – descobrir seu verdadeiro papel e exercitá-lo. Só assim este macabro inferno, de violência, de injustiças e de egoísmo, poderá ser transformado, senão num paraíso, pelo menos em um lugar bom para se viver...
Todos temos (ou deveríamos ter) um papel social a exercer, de acordo com a nossa aptidão física e/ou intelectual. O nosso, de jornalistas, ou, sobretudo, de comunicadores, é o de atuar como uma espécie de “espelho”, refletindo as ações e comportamentos da sociedade, para que estes possam ser detectados, identificados e – quando for o caso – mudados. E, claro, para melhor. É uma função nem sempre (ou quase nunca) agradável, mas absolutamente necessária, se não fundamental. Exerçamos, pois, com diligência, e sobretudo com ética, esse nosso papel, sem nunca transigir, seja qual for a razão. Caso contrário, seremos cúmplices dos facínoras que infelicitam tanta gente e ameaçam a própria sobrevivência da espécie.

Saturday, January 14, 2006

Luminosas manhãs

Pedro J. Bondaczuk



As manhãs são a melhor parte do dia, cheias de promessas e de possibilidades. Significam um diário renascimento de esperanças. Melhores se tornam se forem daquelas luminosas e perfumadas de primavera. Das que trazem consigo um frescor especial, um cântico de pássaros mais alegre ou mesmo o burburinho característico das grandes cidades, a nos mostrar que estamos vivos e que temos obrigações a cumprir. E isso, ao contrário do que se pensa, é um privilégio, senão uma felicidade. Significa que somos necessários. Representa que precisam de nós. Quer dizer que temos lá a nossa importância.
Por maiores que sejam nossas preocupações, é sumamente agradável caminhar pelas calçadas logo ao amanhecer, distribuindo cumprimentos bairro afora, no trajeto para a padaria. Ou, mesmo calados, simplesmente apreciando, distraídos, o movimento das ruas.
Embora sejam promessas, no entanto, as manhãs só se realizam ao longo do dia, com nossas façanhas, fracassos, tensões, alegrias e tristezas. São como a vida do homem. Por mais agradável e promissora que seja a juventude, por exemplo, só nos realizamos (ou deixamos de nos realizar) na idade madura, quando o tempo nos curte e nos dá substância, através da experiência.
O padre Antônio Vieira, em um dos seus sermões, compara a fase da maturidade ao outono. Ou seja, ao período dos frutos que antecede o inverno, que representa o tempo em que já não somos mais considerados necessários.
Uns encaram essa etapa com a serenidade dos que estão conscientes de terem feito a sua parte. Outros, com indisfarçável amargura, pelo que deixaram, por uma razão ou outra, de fazer. O amor próprio fica, sem dúvida, ferido quando somos deixados de lado, superados por uma nova geração, à qual, um dia, temos fatalmente que ceder lugar. Mas este é o ciclo natural. Não adianta nos rebelar contra isso. É naturalíssimo e saudável que assim seja.
Vieira, no mencionado sermão, constata: "O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em frutos, só essas são as que duram, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o mundo. Será bem que o mundo morra de fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores?".
Todas as etapas da vida de um homem possuem uma beleza e uma feiúra próprias. São partes de um todo que é avaliado somente pelos resultados. E mesmo estes são ilusórios e passageiros. Poucos, pouquíssimos, raros, raríssimos indivíduos desta geração serão lembrados dez, vinte, cinqüenta, cem anos após sua morte. E não se trata de achar que ela seja pior do que as antecessoras ou as sucessoras. Em todos os tempos sempre foi assim.
O número dos que lograram sobreviver ao esquecimento absoluto é tão pequeno, tão ínfimo, tão irrisório que raros são os que conseguem lembrar seus nomes e o que eles fizeram de simples memória, sem consultar livros ou enciclopédias. E os lembrados são, em geral, os que realmente marcaram seu tempo, mas de forma insofismável.
Voltando a falar das manhãs, é preciso manter os sentidos alertas para apreciá-las convenientemente. Nem todos têm essa capacidade. Coitados! Não sabem o que perdem! É como ensinava Confúcio: "Todos comem e bebem, mas quão poucos sabem distinguir os sabores!". São candidatos, mais do que certos, à frustração, à amargura, ao desencanto, quando perceberem que tudo o que tanto desejaram e pelo que lutaram, muitas vezes usando expedientes cruéis e desleais, e com uma arrogância assombrosa, não passou de imensa ilusão.
O poder, por exemplo, é "escorregadio como um peixe", constatou Garcia Marquez em um dos seus romances. Ou é como aquela areia fininha que escorre por entre os nossos dedos, quando fechamos a mão para tentar retê-la. É um esforço vão. A glória? Coisa risível. O amor? Em geral não passa de jogo de interesses. A fortuna? É juntada para os outros e raras vezes traz benefícios concretos a quem a junta. Se trouxer, é porque ele a estará gastando e, portanto, logo não mais disporá dela.
O que realmente vale a pena na vida é simples, gratuito e sequer exige grande esforço. Requer apenas predisposição favorável e sentidos alertas. Está na natureza, da qual fazemos parte e quase nunca nos damos conta. Existe para o nosso usufruto. É um bem inesgotável e universal.
Nas pequenas coisas é que reside a satisfação maior. Em geral, porém, costumamos agir da forma como o poeta Emílio Moura descreveu tão bem nestes preciosos versos: "Eu fiquei só diante da vida/e todas as coisas me assustaram..." Somos os arquitetos dos nossos próprios sustos. Mas também o somos da felicidade, que reside em pequenos momentos que raramente sabemos identificar e valorizar e em geral está em nossas mãos.

Friday, January 13, 2006

Um dia por vez

Pedro J. Bondaczuk


O conceito de sucesso é bastante subjetivo e pode ter uma conotação específica para cada um de nós, dependendo da nossa personalidade, visão de vida e expectativas. O dinheiro, por exemplo, é um parâmetro para a maioria.

A pessoa simples, que passa privações e que sequer é levada em conta, como se fosse mera sombra ou menos, por não possuir bens, tem como meta, evidentemente, o ter, não o ser. Não se entra aqui no mérito se essa ambição é válida ou não. Se traz ou não felicidade. Todavia é compreensível.

Mas, para um monge tibetano, por exemplo, ou par um ermitão do Oriente Médio, ou para qualquer outro indivíduo que se despoje de aspirações materiais, a acumulação de objetos, seja qual for seu valor intrínseco, ou sua natureza, ou sua escassez, pouco ou nada significa. Para tais pessoas, juntar coisas não representa ser bem sucedido. Provavelmente, significa o contrário. Para elas, o que conta é o autoconhecimento, a iluminação espiritual, a contemplação da natureza, etc.

Não há, portanto, qualquer regra fixa que garanta o êxito pessoal de quem quer que seja. O fator primordial para que qualquer empreendimento chegue a bom termo é o reconhecimento alheio. E esse é muito complicado para ser obtido.

Aos nossos próprios olhos podemos ser sábios, valentes, nobres ou virtuosos. Mas isto apenas será verdadeiro, será consensual, será aceito se for reconhecido pelos que nos rodeiam. Há algumas coisas bastante simples e óbvias que poderemos fazer para tornar nossa vida menos tensa, menos áspera ou menos maçante e, portanto, mais agradável e produtiva. Talvez bem sucedida.

Uma delas é viver um momento por vez. O norte-americano Dale Carnegie dá este conselho a propósito: “Do mesmo modo que nos grandes transatlânticos os compartimentos são construídos separadamente e à prova de água, nós também devemos fechar portas de ferro sobre o passado – os amanhãs nascituros. Se formos juntar o peso do amanhã ao do ontem, e tentar carregar tudo hoje, ele será demasiado e nos fará tropeçar. A única maneira de prepararmo-nos para o futuro é concentrar toda a nossa inteligência e entusiasmo na execução perfeita do trabalho de hoje”.

O escritor inglês, Robert Louis Stevenson, vai mais longe e explica a razão porque esse procedimento é a maneira mais sensata de viver. Observa: “Todos podem executar seu trabalho, por difícil que seja, por um dia. Todos podem viver com doçura, paciência, ternura e pureza até que o sol se ponha. E isso é tudo o que a vida realmente significa”.

Dando um passo de cada vez, buscando executar as pequenas coisas com o máximo de empenho para atingir a perfeição em tarefas aparentemente inexpressivas e corriqueiras, tornaremos nossos dias, cada um deles, todos eles, agradáveis.

Não precisaremos ficar recordando o passado. O presente nos bastará. Não teremos tempo para projetar um futuro que sequer sabemos se vamos ter. O aqui e agora serão suficientes. E da soma de todos esses dias calmos, aparentemente sem brilho, sem dramatismos, sem euforias e sem heroísmos, construiremos nossa biografia. Fabricaremos o sucesso ou, quiçá, a felicidade. Simples, não é verdade...?

Thursday, January 12, 2006

Armadilha das cidades

Pedro J. Bondaczuk


O consumidor brasileiro, a despeito da existência de códigos, leis, órgãos e associações que pretensamente atuam em sua defesa, é um dos mais desprotegidos e desrespeitados do mundo. Em geral, tem de arcar com prejuízos na aquisição de produtos e serviços de má qualidade, pagos a peso de ouro e quando tenta reclamar, acaba transformado no vilão, no chato, no encrenqueiro.
Nem é preciso citar exemplos para fundamentar essa afirmação. Raros são os cidadãos que nunca passaram por essa situação desconfortável e sobretudo prejudicial. Os órgãos de defesa do consumidor fazem o que podem, mas poucos cidadãos são informados o suficiente para buscarem sua ajuda quando são, ou quando se sentem lesados.
Outro aspecto interessante a ser notado é que, nesta era do consumo em massa, o indivíduo acaba, de fato, massificado, despersonalizado, rotulado. Ele é o cliente, o espectador, o paciente, o leitor, o usuário, o passageiro, o fiel, o torcedor, o funcionário, o aluno e vai por aí afora, e nunca o Paulo, o Antonio, o José ou a Maria. As pessoas têm sido submetidas a instituições que elas próprias criaram para as servir e que findam por fazer delas suas escravas.
É o caso dos Estados, por exemplo, que não passam de uma abstração, de um rótulo, de um conceito. A grande concentração da população mundial contribui, de forma decisiva, para a crescente despersonalização do indivíduo. As primeiras cidades surgiram, conforme alguns historiadores, há cerca de 9 mil anos e foram erguidas para proteger as pessoas de saques de bandoleiros nômades, de tribos bárbaras que recorriam à força para garantir seu sustento e sobrevivência.
Devem ter sido lugares agradáveis, onde todos se conheciam e em geral eram ligados por algum laço de parentesco. A quantidade de moradores era pequena e havia um verdadeiro espírito comunitário. Hoje... Bem, na atualidade, as cidades não passam de enormes depósitos de pessoas, amontoadas umas sobre as outras em enormes caixotes de concreto, vidro e aço. Barulhentas, poluídas e agitadas, são o protótipo de como não se viver. Transformaram-se numa selva, sem os atrativos desta.
O fator segurança, que determinou sua própria concepção, hoje virtualmente não existe. A solidariedade, que ligava os moradores das cidades antigas na defesa do patrimônio individual e coletivo, foi substituída pelo antagonismo, pela desconfiança, pela indiferença e pela ostensiva hostilidade. Não se trata mais de comunidade, pois pouquíssima coisa, quase nada, é atualmente comum.
A mania pelo estereótipo estende-se por todos os setores da existência e nós, jornalistas, de maneira até inconsciente, não raro compactuamos com ela e a disseminamos em nossos textos. Seres humanos são classificados por etnias, por religiões, por cor ou por convicção política e não são levados em conta na sua essência, naquilo que realmente têm de importante, na sua individualidade. Esse procedimento, fruto de uma cultura profundamente arraigada nas diversas sociedades, gera preconceitos, rancores gratuitos, ódios insensatos e está na raiz de todas as guerras, revoluções e explosões de violência que marcaram a história.
Eça de Queiroz, em seu livro "A Cidade e as Serras", observou: "Na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetitivo! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte se assemelhassem! Na cidade pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa, todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação, as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há de mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro...A mesmice: eis o horror da cidade!"
Por que não encarar o homem pelo que ele é? Por que não conceder aos outros o respeito que exigimos deles? Por que nos colocarmos numa posição de todo poderosos quando somos transitórios, passageiros, impotentes para vencer nossa insignificância e efemeridade? Empresas, instituições, Estados, sistemas e até religiões passam e às vezes sequer deixam vestígios de sua existência ao longo da história.
Ficam princípios, atos, idéias, sentimentos, desde que realmente valham a pena. Hoje a figura da "pessoa jurídica" prepondera sobre a física. Mas afinal, o que ela significa? A gentileza vem deixando de ser uma espontânea manifestação de respeito pelo próximo para se transformar em mera "tática de venda". Por não se rebelar contra isso, o consumidor, que acima de tudo é um ser humano, compactua com a despersonalização e se automatiza, robotiza, age como uma máquina programada e não como "homo sapiens". É preciso uma nova confusão de línguas, como a registrada no relato bíblico, para que os construtores dessas babéis contemporâneas, dessas selvas de concreto e asfalto, cada vez mais loucas, violentas, enfumaçadas e barulhentas, se dispersem pelo mundo.

Wednesday, January 11, 2006

Vontade e consciência

Pedro J. Bondaczuk


O convívio entre as pessoas, dadas as contradições do nosso tempo entre a avançada tecnologia e o retrocesso do humanismo, descamba cada vez mais para o absurdo. A vida que se vê por aí, no plano material, naquele que se convencionou chamar de "real", é marcada por dores, medos, egoísmo, desamor, injustiças e violência. E também por sujeição, exploração, cinismo, corrupção e impiedade. Vez por outra tomamos conhecimento de um ato nobre, de um gesto desprendido, de uma manifestação genuína de amor. Não daquele possessivo, que tudo quer e pouco ou nada dá em troca. Mas do magnânimo, do desinteressado, do espontâneo, que ainda resiste e existe (embora a maioria duvide), mas que é extremamente raro.
Porém essa não é uma regra, senão exceção. No mais... O noticiário da imprensa é um desfile de desgraças, corrupção, sangue e aberrações. Ao contrário do que pensam os alienados, não é a mídia que cria (ou pelo menos amplia) tamanha insanidade. Ela não passa de espelho do comportamento humano. Só reflete a feiúra e a loucura do suposto "homo sapiens".
É preciso que o homem crie um outro mundo – o da razão, o da arte, o do ideal, o da sensibilidade – para que esta existência se torne pelo menos suportável. Não é a vida que é ruim, mas a maneira como somos forçados a viver. Quando nascemos, isto que está aí já existia e já havia um relativamente extenso retrospecto de insânia, que se denomina de "História", instalado. Deixaremos que as gerações futuras encontrem o mesmo cenário, ou quiçá pior? É o questionamento que o intelectual, o jornalista que ama o que faz, homem racional e idealista devem fazer a cada instante da sua existência. Se deixarmos, seremos cúmplices dos tiranos, dos corruptos e dos assassinos que levaram a humanidade ao atual impasse.
Sem ilusão de que as coisas possam e vão melhorar, o indivíduo é capaz de enlouquecer, tamanha será sua impotência para se proteger e tão grandes são os perigos que o cercam a cada passo do seu convívio, desde que põe os pés fora de casa até seu regresso (e mesmo no recesso do seu lar). Mas esta precisa ter uma dosagem certa. Não pode se limitar a mera fantasia. Tem que ser verossímil. Precisa poder ser transformada em potencial, em meta, em alvo, em objetivo factível a se alcançar.
Estas idéias, embora concorde com elas (e nem posso deixar de concordar diante das evidências palpáveis da sua exatidão), não são minhas. São do teatrólogo, poeta, ensaísta político e ex-presidente da República Checa, Vaclav Havel. Li, recentemente, uma resenha de seu pensamento e senti-me enriquecido por conhecer alguém que conseguiu colocar em palavras aquilo que eu apenas intuía, embora sentisse na própria carne as contradições que ele aponta.
Como sobre o absurdo da existência tal como a vivemos, onde a busca do poder é o objetivo maior de alguns, o acúmulo de bens materiais é de outros e a luta pura e simples pela sobrevivência física é o que resta à maioria das pessoas. Por que, se todos os homens nascem iguais e o fim é idêntico – "com terra por cima e na horizontal", como diz a letra de um samba de Billy Blanco? É preocupante notar que a maioria das pessoas sequer crê nas benesses da democracia, pelo menos em nosso país. É o que revela pesquisa das Nações Unidas, feita em vários países, e divulgada nesta semana.
O levantamento em questão constata, entre outras coisas, que 54,7% dos brasileiros trocariam o regime democrático em vigor por uma ditadura, caso ela fosse capaz de resolver problemas econômicos. Claro que não é. Mas a maioria das pessoas não tem essa percepção. Pior é o que os entrevistados pensam dos políticos (não, convenhamos, sem forte dose de razão, embora não se deva generalizar). Sessenta e quatro por cento dos pesquisados disseram que “os governantes mentem e não cumprem suas promessas”.
Outro aspecto marcante da obra de Vaclav Havel é o que destaca a importância do intelectual em geral (e do jornalista, em particular) como fator de transformação social, como o que desperta e cristaliza os anseios de liberdade do indivíduo e dos grupos mesmo que não organizados ou mobilizados e lhes mostra o caminho adequado para empreender essa luta milenar, essencial, básica, fundamento da paz. Essa influência é que torna tais pessoas "especiais". Mas também as transforma em contestadoras, revolucionárias, subversivas, "perigosas" para os tiranos e os que lucram com o sistema e que por isso agem no sentido da sua preservação.
Quem exerce esse poder de influenciar afronta enorme responsabilidade. Não pode ser um cego guiando outros. Precisa ter clarividência para entender que as idéias são mais poderosas do que as pessoas. Deve armar a estratégia adequada para que a verdade prevaleça. E necessita ter, sobretudo, sinceridade de propósito, para não transformar a vitória sobre a tirania em outra pior. Só faz cabeças quem já tenha a própria feita. O intelectual (e o jornalista, reitere-se) dependendo do seu engajamento e do seu poder de persuasão, tanto pode se transformar em fator de libertação quanto conduzir multidões ao caos da violência, do preconceito e da destruição.
É escusado apresentar exemplos históricos, de lideranças equivocadas, que conduziram povos à desgraça, por serem tão recentes e abundantes. No sentido inverso, os casos também abundam, embora em número menor. O verdadeiro líder, o que dissemina humanismo e razão e cuja vida se torna um marco, um referencial, um guia no caminho da liberdade para os homens do seu tempo e das gerações vindouras, trabalha, basicamente, com dois conceitos abstratos importantes: vontade e consciência. Cada um deles deve ser aplicado no momento e na dosagem adequados.
Através do primeiro, são deflagradas as ações, embora estas possam ser positivas ou negativas. Mediante o segundo, são feitas as correções de rumo, evitadas as distorções, reparadas as injustiças e dominados os demônios interiores que tentam o indivíduo a subjugar e explorar seus semelhantes. O escritor Humberto de Campos sintetizou os dois, determinando o seu âmbito e abrangência, ao escrever: "Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência". Existe síntese melhor?

Tuesday, January 10, 2006

Grilo no quarto

Pedro J. Bondaczuk


O silêncio do meu quarto, da casa, do mundo, é quebrado apenas pelo insistente cri-cri de um grilo. E pela água cantando na calha, já que chove lá fora. Às vezes o ronco das crianças ou o seu ressonar podem ser ouvidos em fundo, pois é alta madrugada. Que horas? Não importa! Mas é tarde. No mais, tudo é quietude e solidão.
É a situação ideal para ler algum livro que exija concentração (como uma obra de filosofia, por exemplo, ou a de poemas de Ezra Pound). Aliás, seria, não fosse a insistente cantilena do bichinho, que dá nos nervos. Levanto, chinelo na mão, em busca do grilo. Em vão. Procuro-o em um canto, no outro, embaixo da cama, ao lado do criado-mudo, e não o encontro. Desisto de matá-lo.
Lembro-me de algumas superstições. Há muitas envolvendo essa minúscula criatura. Alguns dizem que quando um grilo canta no quarto é aviso de que alguém das nossas relações vai morrer. Bobagem. Prefiro acreditar em outra versão que garante que esse canto monótono, que penetra como uma bala em nosso ouvido e parece ampliado no tímpano, é sinal de sorte. Tomara que sim. Bem que preciso de uma certa mãozinha do imponderável, do "acaso".
A esta altura, minha concentração já foi para o espaço. O cri-cri do grilo, dizem os estudiosos, faz parte do seu ritual de acasalamento. Seria um menestrel cantando para a amada. Prefiro essa versão. É mais simpática e faz com que eu suporte a cantilena com maior paciência e até com certa cumplicidade. Sei, pelo menos, os sacrifícios e as loucuras que nós humanos fazemos para conquistar uma mulher que nos desperte os instintos e bagunce a nossa cabeça e as nossas emoções.
O inconveniente é que este grilo poderia ir cantar em outra freguesia. Por que tinha que ser exatamente em meu quarto e a esta hora, que reservo para estudo e reflexão? Seria a minha consciência? Não creio. Ultimamente ela anda em paz. Se não tenho sido um primor de santidade, também não prejudico ninguém.
Aliás, meu empenho com a profissão e com a literatura tem sido tão grande, que mesmo que quisesse ser um sujeito errado, não teria tempo para isso. Ademais, não sou Pinocchio, aquele personagem do escritor italiano Colodi, um boneco de madeira, que acabou transformado em ser humano, cuja consciência era um grilo falante.
Este que me acompanha, nesta noite silente e chuvosa, não fala. É cantante. Ou, para ser mais exato, é irritante. Lembro-me que Mário Quintana tem um poemeto a respeito em seu livro "Sapato Florido". Vou até a estante onde guardo as minhas obras preferidas, as de cabeceira, separadas da biblioteca normal, e pego o referido volume. Folheio-o a esmo e não tardo a encontrar o texto que quero. Diz: "O grilo canta escondido...e ninguém sabe de onde vem seu canto...nem de onde vem essa tristeza imensa daquele último lampião da rua".
Quintana... saudoso Quintana... Quanta falta nos faz sua postura bem-humorada face à vida e seus versos irônicos, que não conseguiam disfarçar uma profunda ternura pelas fraquezas e contradições humanas! O bichinho, como que adivinhando que o desvio da minha linha de raciocínio original estava me conduzindo para a melancolia, voltou a cantar desesperado. Parecia que iria arrebentar, como uma taça de cristal diante de uma nota aguda de algum soprano.
Agora entendo porque as pessoas dizem, quando temos em mente algum problema que nos incomoda e do qual não conseguimos nos livrar, que estamos com "grilos na cabeça". Ligo a televisão. O controle-remoto da TV tornou-se uma arma quando desejamos nos livrar de chatos, sejam eles humanos ou insetos.
Faço uma ronda pelos canais ainda abertos (três) e nenhum deles exibe alguma coisa que justifique o gasto de energia elétrica. Um passa um filme da década de 30, repetido no mínimo por cinqüenta vezes. Os outros dois apresentam programações de telemarketing, em que vendedores eletrônicos, "pastores do consumismo", tentam impingir aos incautos insones, que aceitam a sua companhia, na ausência de outra mais excitante, bugigangas perfeitamente dispensáveis.
Desligo a TV e apago a luz. Aos poucos, o cansaço do dia começa a cobrar o seu preço. O sono faz pesar minhas pálpebras, vai apagando a minha mente e ao fundo, como se fosse a minha consciência, ouço o cri-cri do grilo, que se transforma em uma deliciosa sinfonia...E apago de vez...

Monday, January 09, 2006

Emoção e razão

Pedro J. Bondaczuk


O homem, dito civilizado, oscila entre a emoção, que é incontrolável pela mente, e a razão, exercitada pelo lado voluntário do cérebro, a parte consciente e treinada mediante um condicionamento que denominamos genericamente de educação. Todos temos, em dosagens variadas, esses dois componentes da inteligência (capacidade de entender o que nos cerca ou de cuja existência tomamos conhecimento). A parte racional utiliza-se da "lógica" para a compreensão dos objetos e dos fenômenos. Prepondera nos cientistas de quaisquer áreas das ciências (exatas, humanas, biológicas etc.).
O termo vem de uma palavra grega. O significado de "lógica" é exatamente "razão". Trata-se, conforme definição de R. Jolivet, no livro "Curso de Filosofia", de "um sistema de conhecimentos certos, fundados em princípios universais". Já a parte emocional do homem raramente depende dele mesmo. Está na dependência dos seus hormônios e do que está nos seus inconsciente e subconsciente. O exterior deflagra, através de estímulos, as reações (positivas ou negativas), em geral involuntárias, às emoções. A emotividade exacerbada, mas parcialmente dirigida, é característica dos artistas, os únicos que conseguem domar as vagas emocionais e fazer delas matérias-primas de suas obras.
O escritor argentino Ernesto Sábato lembra que "quase nada do que é essencial ao homem diz respeito à lógica: nem os sonhos, nem a arte, nem as emoções, nem os sentimentos, nem o amor, nem o ódio, nem a esperança, nem as angústias". As pessoas extremamente racionais agem como se o animal humano fosse um robô, capaz de ser programado para reagir aos estímulos com atitudes absolutamente lógicas e controladas. Os indivíduos até que são treinados para isso. Acabam, no entanto, traídos por suas emoções.
Daí o conjunto de normas morais e de leis existentes no mundo ter sido impotente para acabar, ou sequer reduzir, a criminalidade. Pelo contrário. Apesar das punições serem cada vez mais severas, culminando com a pena de morte, os delitos crescem, por uma série de causas, entre as quais a impossibilidade de completo controle sobre as paixões. Os princípios que regem o funcionamento dos organismos vivos também não se mostraram suficientes para a medicina eliminar as doenças ou para prolongar a vida. O ideal é a existência concomitante, em dose rigorosamente equilibrada, de emoção e razão na mente das pessoas. O que ninguém conseguiu descobrir até hoje é como chegar a essa dosagem perfeita, sem que haja faltas ou excessos.
Os que são excessivamente emotivos se revelam desajustados no convívio com os semelhantes. Têm freqüentes explosões de paixões (amor, ódio, ira, ciúmes, angústias, depressões, etc.). As violentas os levam a atentar contra os semelhantes, (através de agressões e até de assassinatos), ou contra si próprios, (pelo suicídio). Tais indivíduos acabam sendo vítimas de suas neuroses. Muitas vezes chegam até a ser internados em manicômios, dados como loucos. Nem sempre são. Foi o caso, para citar um exemplo, do mestre da pintura holandês, Vincent Van Gogh. Tratava-se de um homem que era um feixe de sensibilidade incontrolável.
Esse vulcão de emoções, quando passado para o pincel, produziu quadros maravilhosos, que parecem emanar energia, não entendidos por seus contemporâneos, daí o fracasso do artista enquanto vivo. Mas o descontrole desses hiperemotivos pode representar perigo para os outros. Por isso há a necessidade de sua segregação. No caso de Van Gogh, representou a sua agressão contra outro pintor, Paul Gauguin, ao qual atacou por motivos banais. O problema destes feixes ambulantes de emoções, portanto, não está na intensidade destas. Reside na incapacidade de controlá-las. Quando esta fúria consegue ser direcionada para uma obra de arte, redunda, geralmente, em poemas, canções, pinturas, esculturas, etc. de beleza inigualável.
Há quem negue toda a lógica, em um universo aparentemente ilógico, dadas suas incomensuráveis dimensões e a incrível pequenez humana. Alberto Morávia é um dos que não vêem sentido em nada. Acentua: "A vida é um perfeito caos, do qual se pode extrair apenas algum fragmento ordenado, e todavia misterioso". O romancista italiano tem lá a sua dose de razão. Afinal, como podemos ambicionar conhecer o mundo que nos cerca e as pessoas que nos rodeiam se somos incapazes de saber sequer quem realmente somos?

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