Saturday, January 28, 2006

Tecnologia boa, serviços nem tanto

* Pedro J. Bondaczuk


A tecnologia que possibilitou o desenvolvimento telefone celular (“aparelho de comunicação por ondas eletromagnéticas que permite a transmissão bidirecional de voz e dados utilizável numa área geográfica que se encontra dividida em células, cada uma servida por um transmissor/receptor”, conforme definição da Wikipédia), e sua ampla e crescente expansão, veio, como tantas outras, facilitar a vida do usuário. Tanto que alcançou, em dezembro de 2005 (conforme informaram as operadoras) 85,6 milhões de clientes no Brasil. Ou seja, mais do que a População Economicamente Ativa (PEA) brasileira e quase a metade de todos os habitantes deste país de dimensões continentais.
Ademais, ao contrário do que se apregoa, o tal do aparelhinho, em si, não se constitui em risco – nem físico e nem psicológico – a quem dele se utiliza, como algumas pessoas e instituições tentaram provar, e não conseguiram. O mesmo não se pode dizer, porém, das suas antenas. Mas esse é outro assunto, que merece considerações mais amplas e em separado.
Em resumo, este é o teor do que escrevemos no artigo divulgado na semana passada aqui neste espaço nobre do Comunique-se. Muita gente interpretou, no entanto (afoitamente), que estivéssemos, ao mesmo tempo em que defendíamos a excelência dessa tecnologia, tecendo loas às empresas que operam esse tipo de serviço no País.
Claro que não o fizemos e nem poderíamos fazer. Por mais mal-informados que fôssemos (e, acreditem, não o somos), sabemos, de sobejo, que a telefonia celular está entre os líderes de reclamações e problemas nos vários Procons espalhados pelo Brasil afora. E temos absoluta certeza que isso não ocorre por acaso. O brasileiro nem é tão ranzinza assim e raramente corre atrás dos seus direitos, o que prova que o atendimento é muito ruim.
A maior parte das queixas refere-se à falta de sinal, às tarifas abusivas (diríamos escorchantes) e à inexistência de detalhamento nas contas, entre outras tantas. Mas não é só isso. Não existe, por exemplo, nenhum sistema de proteção que impeça a clonagem dos aparelhos, o que se tornou verdadeira praga entre nós, trazendo prejuízos e contratempos de toda a natureza e, claro, uma dose cavalar de aborrecimentos ao descontente usuário.
Para que se tenha uma pálida idéia da extensão desse crime, somente na casa de um dos bandidos que se valem da fraude para ganhar dinheiro às custas dos incautos, localizada nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a polícia encontrou por volta de 300 aparelhos já clonados, prontinhos para seguirem para as mãos de detentos, nos vários presídios do Estado (e de fora dele), para que, através deles, pudessem comandar, de dentro das cadeias, seqüestros, assaltos, assassinatos, extorsões e sabe-se lá mais o quê.
Imaginem, até ser descoberto e preso, quantos outros usuários mais somente esse indivíduo não fraudou e prejudicou! E esta foi apenas a pontinha de um gigantesco iceberg. Com certeza, como ele, há muitos e muitos e muitos outros “espertalhões”, espalhados por aí, agindo impunemente, para desespero dos proprietários de telefones celulares.
Outro aspecto a considerar são os preços da telefonia no Brasil, notadamente da fixa. Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe) revela que a inflação acumulada entre 1994 e 2004 – nos dez primeiros anos de Plano Real, portanto – foi de 154,6%. Pois bem, nesse mesmíssimo período, as contas de telefones fixos subiram 706%!!!! Por que? As operadoras dão inúmeras explicações, nenhuma, todavia, convincente.
Daí a preocupação que elas têm com a vertiginosa expansão do “Voz sobre IP”, ou seja, dessa espécie de telefonia que se utiliza do computador, sem tarifas, sem taxas, sem reajustes, sem contas e sem a burocracia irritante e besta, que tanto desgostam os consumidores e que tentam, em vão, barrar. Convém ressaltar que a ligação do telefone celular é ainda mais cara do que a do fixo. Vai daí...
É verdade que a carga tributária brasileira, entre as mais elevadas do Planeta, é a grande vilã dessa história e tem muito, muitíssimo a ver com isso. O Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) constatou, por exemplo, que do tanto que o usuário paga em sua conta, no final do mês, 40% se constitui em impostos!!! E qual a justificativa para isso? Qual a razão dessa cobrança até absurda? Essa dinheirama toda, arrecadada pelo Fisco, reverte em benefício do consumidor? O governo diz que sim. A sociedade acha que não. Com quem está a razão? Cada um que responda com base na própria experiência!

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