Tuesday, January 24, 2006

E eles voltaram - Parte 3

(Conto de Natal)

(Continuação)

Eu estava regressando, só, para a nossa herdade, naquela noite de quarta-feira, véspera do Natal de 1854. Retornava, um tanto cansado, da casa de Vera, com quem estava namorando há já quase dois anos, planejando marcar para breve a data do nosso casamento, tão logo papai e Kyrillo voltassem do front.
Enfrentava caminhos muito difíceis nesta curta, mas acidentada jornada, pois havia nevado bastante em todo o dia anterior e até a metade deste. O céu agora estava claro e as estrelas cintilavam, como minúsculas, mas magníficas tochas numa procissão noturna. A lua brilhava intensamente no firmamento e o ar estava bastante frio, com uma ligeira brisa soprando que, no entanto, parecia cortar, quando, eventualmente, entrava em contato com a pele.
Tânya havia acompanhado Olga até a aldeia e ficara na casa do tio Ivan para passar ali o Natal. Toda a criadagem tinha sido dispensada, já que o meu plano original não era de voltar à herdade, mas permanecer nessa noite com a família de Vera.
Na atmosfera, parada e quieta, como que embalsamada de perfume, era possível de se ouvir, ao longe, o eco dos risos, de sons de guizos amarrados no pescoço dos cães que puxavam trenós e notas perdidas de canções natalinas, entoadas por pessoas que se presumia estarem alegres. Ou, o que era mais provável, embriagadas, para rebaterem o frio intenso, desse inverno particularmente severo ou para esquecerem as agruras de uma vida cinzenta, penosa e sem muitas perspectivas.
Ao longe, pude ver um rústico trenó, puxado por um robusto cavalo, que tinha imensa dificuldade com a neve em que afundava as patas e que chegava quase à sua barriga, que se afastava da nossa propriedade. Julguei ter reconhecido o "staretz" Athanásio, monge ortodoxo local, com sua longa barba grisalha, como se fora Santa Klaus.
Esse santo homem era amigo da família e, com certeza, estava voltando à aldeia, após encontrar tudo fechado e presumir que não havia ninguém em casa. Pensei em apressar os cães do meu trenó para alcançá-lo, mas desisti. Preferia estar um pouco sozinho, para recordar as pessoas que desejava ter ao meu lado nesta noite, mas não podia.
Algumas, seria impossível de abraçar e conversar com elas, não somente nesta véspera de Natal, mas em qualquer outra ocasião, por já não pertencerem ao mundo dos vivos. Eram os casos do tio Piotr, de mamãe e do primo Vassia, entre tantas. Outras pessoas, com as quais gostaria de partilhar minhas alegrias e preocupações, estavam muito distantes dali, como papai e Kyrillo.
Não pude me furtar de imaginar onde os dois estariam agora. "Talvez estejam, quem sabe, no fragor de alguma encarniçada batalha, cheia de estrondos, gemidos, fumaça de pólvora e cadáveres em profusão, espalhados no campo desolado, matando pessoas que nunca viram e jamais voltariam a ver, para não serem mortos. O mais provável, no entanto, é que estejam em uma barraca de campanha, dormindo ou conversando com os camaradas de armas sobre os combates desse dia, sobre a família e ou acerca da importância da data", ponderei.
--- "Será que as circunstâncias da guerra e o cansaço das longas marchas lhes permitem pensar um pouquinho que seja em nós?" –, perguntei aos meus botões.
Já fazia uns dias que eu estava tendo estranhos pressentimentos sobre a situação dos dois. É verdade que fazia quase dois meses que um oficial conhecido nosso, de regresso da Criméia, havia informado que vira meu pai e meu irmão durante uma retirada forçada de sua unidade, após a batalha de Blaklava, vencida pelos turcos. E que, a despeito da derrota das tropas russas naquela oportunidade, ambos pareciam estar muito bem. Pelo menos não haviam sido aprisionados e nem estavam feridos.
Depois disso, todavia, não soubemos mais nada deles. Carta já nem lembrava mais quando havia recebido a última. Desde o começo de novembro, eu vinha sentindo essa indefinível e sutil inquietação, uma espécie de irreparável sentimento de perda. Não comentei com ninguém da família, para não alarmar minhas irmãs. Afinal, poderia estar errado. Deus sabe o quanto estava torcendo para isso, para estar enganado e tudo não passar de mera e justa preocupação pela integridade dessas pessoas que tanto amo.
Quando estive em Moscou, no mês passado, soube qualquer coisa a respeito de concentrações de tropas para uma nova batalha, que poderia ser a decisiva, segundo o que se comentava. Entretanto, nenhuma nova notícia sobre a guerra chegou até nós desde então, nem oficial e nem oficiosa.
O território russo é uma enormidade. É tão extenso, que às vezes se passa até mais de um ano para que se saiba de fatos acontecidos na cosmopolita São Petersburgo. Imaginem notícias da inóspita região do Mar Negro! Com todas as dificuldades e perigos que existem, na locomoção para aquela ou daquela zona, informações de lá demoram uma eternidade para chegar!

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

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