Monday, January 23, 2006

E eles voltaram - Parte 2

(Conto de Natal)

(Continuação)

Em março deste ano de 1854 estourou a guerra da Criméia, contra os turcos. Em pouco tempo, muitos oficiais, que estavam afastados da vida militar, foram re-convocados, um tanto às pressas, e enviados, imediatamente, para o front. Entre eles estava papai.
Kyrillo alistou-se como voluntário. Por mais que todos buscássemos tirar essa idéia de sua cabeça, foi inútil. Não havia força no mundo capaz de evitar que ele se incorporasse aos combatentes.
Olga, no final das contas, até gostou que ele fosse para o front. Afinal, estava bastante preocupada com papai e ninguém melhor para estar ao seu lado do que um jovem impetuoso, como era o meu irmão mais velho. Kyrillo tinha 27 anos e era um homem de estatura elevada, de um metro e noventa, robusto como um touro, bastante ágil para a sua compleição, louro, de olhos azuis, absolutamente saudável e dotado de uma energia incomum.
Era exímio caçador e atirava como ninguém. Comentava-se, na aldeia, que possuía um tiro tão certeiro, que seria capaz de acertar uma abelha em pleno vôo, a cem metros de distância. Exagero, é claro! Todavia, sua habilidade, tanto com uma espingarda, quanto com uma pistola, ou fuzil, era rara, digna de admiração.
Este fato, e mais o apego que tinha por papai nos deixavam tranqüilos quanto à proteção ao velho, que apesar da idade, era dado a arroubos de rapaz. É claro que a casa ficou um pouco mais sem graça sem eles. E as responsabilidades de zelar e de proteger a família, que já não eram pequenas com os dois presentes, redobraram e recaíram todas sobre os meus ombros. E não apenas as de proteção, mas as da administração da propriedade, além da resolução de pendências, que freqüentemente se verificavam entre os servos da nossa herdade. Eu teria de substituir o velho em tudo, e por tudo.
A princípio, senti-me inseguro com tamanha carga. Mas contando com o bom-senso de Olga, sempre por perto para corrigir os meus eventuais erros, tudo ficou mais fácil. E a não ser pelas naturais preocupações que tínhamos com as más notícias que nos chegavam do front, e pela saudade que todos sentíamos de papai e de Kyrillo, nossas vidas corriam quase que de forma normal.
Isto, até àquela sexta-feira, quando a notícia que havia causado tanto comoção a Tânya nos atingiu em cheio.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

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