Sunday, January 22, 2006

E eles voltaram - Parte 1

(Conto de Natal)


Quando Tanya, minha irmã, desfeita em lágrimas, deu-me a notícia, minha primeira reação foi de incredulidade e até de uma certa indiferença. "Não pode ser! Deve ter havido algum engano", pensei, balançando a cabeça, entre complacente com o seu choro convulsivo e céptico, achando até um pouco de graça na situação melodramática, gerada por algum erro de interpretação, por algum equívoco, desses comuns que acometem pessoas crédulas ou supersticiosas.
Sempre me considerei um sujeito prático e racional. Confio nos meus sentidos e não creio no sobrenatural. Minha educação foi cartesiana e, por temperamento, acredito, apenas, no que é lógico, naquilo que é possível de ser comprovado.
Lá fora havia voltado a nevar, após relativa melhora do tempo, no dia anterior. Eu ainda trazia no espírito a satisfação pela visita que havia recebido na noite de Natal, o que me deixava predisposto à simpatia, e até a um pouco de indulgência com a tolice alheia. Principalmente, com as fraquezas da minha irmã. Como Tanya insistisse, gaguejando e chorando, em comunicar sua versão do fato, que a havia abalado dessa maneira, mas sem conseguir se fazer entendida, comecei a ficar intrigado, sem conseguir dissimular uma ponta de irritação.
--- "Por que não?!" –, perguntei a mim mesmo, abrindo um ínfimo espaço para a dúvida, mesmo que essa atitude fosse um tanto irracional.
--- "As estradas estão intransitáveis com a neve e a lama. Os lobos famintos e os bandoleiros, que não faltam nestes tempos difíceis, atacam qualquer um. Nem uns e nem outros têm raciocínio suficiente que lhes possibilite distinguir um oficial do czar de um mujique qualquer. Não são capazes de reconhecer nem o próprio soberano" –, conjecturei.
Essa idéia ficou martelando a minha cabeça por alguns instantes, agora misturada à descrença naquilo que me estava sendo comunicado de forma tão dramática por Tanya.
--- "Não, papai não se deixaria enganar por ladrões, que ademais são uns celerados sem muita combatividade e fogem espavoridos quando sentem que irão encontrar resistência. Quanto aos lobos, a pontaria de Kyrillo costuma ser infalível" –, ponderei.
Mas a dúvida havia se instalado, de vez, em meu espírito, enquanto Tanya não conseguia se conter, abraçada comigo e chorando no meu ombro, de forma contínua e convulsiva, segurando na mão um papel com o timbre do Exército do czar.
--- "Illya, o que vamos fazer?” –, perguntou minha irmã, buscando em meus olhos uma resposta para algo que eu nem sabia se era real ou apenas imaginado.
Naquele momento, só nós dois estávamos na sala. Olga não havia voltado, ainda, da casa de uma amiga, que fora visitar na terça-feira, portanto, há três dias. Estávamos na sexta-feira e minha irmã mais velha deveria passar o fim de semana todo fora. Isto, se o tempo melhorasse. Caso continuasse nevando, é possível que só voltasse para casa em dez dias ou mais.
Tanya era uma bela moça, no frescor dos seus 18 anos, cheia de vitalidade e humor. Embora fôssemos uma família proprietária de terras, ela parecia uma camponesa, livre, desinibida, vivaz, em seu selvagem esplendor. Era o símbolo da própria mulher russa, conhecida por sua tenacidade. Sua voz suave, sempre cantarolando alguma canção que aprendia com os servos da casa, ou caçoando de Vanka, o cocheiro; ou de Galina, a cozinheira, ou mesmo de mim, era o som que mais se ouvia naqueles ermos perdidos da Rússia.
Tanya era dessas pessoas agitadas, independentes, marotas, que estão sempre correndo e tropeçando nas coisas, balançando seus longos cabelos louros e agindo como se sempre estivesse com pressa, mesmo quando não havia, visivelmente, nada para fazer. Parecia uma garotinha travessa, de nove anos, e não se dera conta, ainda, de que crescera e se transformara numa bela moça, capaz de virar a cabeça de qualquer rapaz.
Segundo a opinião de Olga, o que lhe faltava era um homem capaz de domar o seu ímpeto juvenil. Sempre que dizia isso a Tanya, ouvia, por resposta, que estava ficando velha, rabugenta e resmungona. Que ela, sim, precisava se casar, para não ficar para titia. Geralmente esses pequenos bate-bocas aconteciam o dia todo. Quando menos se esperava, lá estavam as duas altercando, na maioria das vezes aos gritos. Mas terminavam sempre se entendendo, aos risos e beijos.
Apesar de tudo o que de ruim nos aconteceu nos últimos dois anos, podíamos ser considerados uma família unida, amorosa e feliz. Nossa mãe havia morrido no verão de 1852 de uma doença misteriosa, que médico algum conseguiu nem mesmo diagnosticar. Desde então, era Olga que cuidava de todos nós, esfalfando-se nos trabalhos domésticos, ralhando com a criadagem e até se preocupando com a nossa educação religiosa, tal como mamãe fazia. Ou até com mais energia. Era austera, zelosa e organizada, sem perder o senso de humor.
Aliás, quanto mais o tempo passava, mais Olga ficava parecida com mamãe, nos traços, nos trejeitos e até na voz, suave e melodiosa. Era severa, é verdade, quando a situação exigia, mas sempre pronta a acalmar as nossas dores, reais ou imaginárias, quando estas se manifestavam. Sua maneira de vestir-se, de pentear-se e até de andar não era o de uma moça de 25 anos. Gostava de usar um coque bem comportado no alto da cabeça, que lhe dava um aspecto austero, realçado pela roupa discreta e de tons neutros. Não sei o que seríamos sem Olga!
Kyrillo, antes de partir, costumava dizer que nossa irmã mais velha precisava conviver mais com rapazes. Que não era justo que sacrificasse a sua juventude para substituir mamãe. Todos concordávamos com sua opinião, ao menos da boca para fora. Mas nenhum de nós seria sequer capaz de conceber aquela casa enorme e vazia sem a sua presença constante, severa, protetora e prestativa.
Papai nada dizia a respeito. Aliás, o velho havia mudado bastante nos últimos tempos. Passava horas e horas fechado em seu gabinete. E sempre que algum de nós entrava, para chamá-lo para o jantar ou para comunicar algum fato ou dizer que havia alguma visita à sua espera na sala, geralmente o encontrava recostado em sua cadeira de espaldar alto, com os olhos fixos num ponto imaginário do espaço, como que perdido em meditação.
Por outro lado, dera para exagerar na vodca, posto que de maneira discreta, notada apenas por mim e por Kyrillo, que éramos as pessoas com quem ele tinha mais contatos. Papai tornara-se arredio e evitava sair para visitar amigos, com os quais mantinha um bom relacionamento antes da morte de mamãe. Quando recebeu a convocação para incorporar-se ao Exército, fiquei com a estranha impressão que ele chegou a ficar aliviado. Conclui que o velho precisava era de um pouco de ação para esquecer a esposa morta.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

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