Saturday, December 31, 2005

Lições no tempo

A estrela azul dos meus sonhos
aos poucos se perde nas trevas
e o brilho fugaz de seus olhos
estão sepultos no passado.

A garça que busca o seu ninho,
a rosa que perde seu viço,
e o sol, vagando distante,
são visões do nosso afeto...

O Tempo, ímpio tirano,
aniquila tudo o que fomos
e nos prende pela alma
com seus grilhões de saudade...

Se a doce lembrança de ontem
criar cristais em seus olhos
fazendo o orvalho brotar,
sorria pras estrelas distantes,
fabrique nova ilusão,
não se detenha no tempo
que a vida não pode parar...!

(Poema composto em Campinas, em 1 de março de 1967 e publicado na "Gazeta do Rio Pardo", em 28 de abril de 1968).

Friday, December 30, 2005

Voz da humanidade

Pedro J. Bondaczuk


A vida é como as águas de um rio. Nunca é a mesma de segundos atrás. Consiste de ganhos e de perdas contínuos, e não raro ilógicos. É uma sucessão de encontros e de desencontros, quase sempre incontroláveis e sem explicação. O acaso, que muitos chamam de “destino”, reúne pessoas, as separa, proporciona fortunas e ocasiona ruínas a todo o instante, sem aviso e de maneira aleatória. Quase nunca pensamos nisso. E muito menos na possibilidade, e mais do que isso, na certeza (inexorável) da nossa extinção.
Lá um belo dia, não se sabe como e nem porque, sem qualquer planejamento prévio, subitamente nos damos conta dessa infernal gangorra, desse jogo de perde e ganha. Fazemos, então, a nossa “contabilidade” e, quase sempre (salvo raras exceções), as conclusões são muito deprimentes, quando não sumamente dolorosas.
Concluímos, acabrunhados, que perdemos muito, muitíssimo mais do que logramos ganhar. Que desperdiçamos, sobretudo, o nosso tempo, que é o maior capital com que podemos contar, com coisas que são absolutamente sem importância, mas que julgamos “importantíssimas”, como riqueza, fama e poder. E esse erro de avaliação tem um preço alto demais, diria proibitivo.
Dia desses, remexendo velhos papéis que trago comigo há décadas – a maioria sem qualquer utilidade, desses que a gente nem sabe porque guarda, mas que teima em guardar, consistentes, entre outras tantas coisas, de convites para festas diversas (casamentos, formaturas, aniversários, batizados, etc.), de notas fiscais antigas e de recados anotados às pressas em pedaços de papel – localizei um poema, intitulado “Pela Rua”, que escrevi em 30 de novembro de 1963. Há mais de 40 anos, portanto. Uma vida! Estava escrito em um maço de cigarros “Lincoln”, marca há muito fora de circulação.
“Bobagem”, pensei de cara. E o impulso inicial foi o mais racional possível. Ou seja, foi o de jogá-lo fora. O de fazer, portanto, o que estava fazendo com outras tantas tralhas e velharias inúteis, já que a intenção era a de desocupar uma gaveta (até então inutilizada por esses papéis amarelados, que nunca usei) da escrivaninha.
Todavia, talvez por curiosidade, ou até por mero acaso (destino?), resolvi ler o conteúdo. De início, nem me lembrava de tê-lo escrito. Mas era a minha letra, sem dúvida. E era, também, o meu estilo inconfundível, verborrágico, copioso e muitas vezes exagerado. E, subitamente, todo um período da minha vida e um outro “eu” que custei a reconhecer, se desenharam diante de mim. O poema, frise-se, não é nenhuma obra-prima, mas não deixa de ter lá seus encantos. Já li coisas bem piores.
Diz: “Pela rua vai vagando/em vago, vagamundo vagabundear./Vaga para onde, vago destino,/em vagaroso, vago caminhar?//Máquinas zunem, maquinalmente,/ruidosas, fumarentas, apressadas,/reflexo do sol, luz iridiscente/incide nas latarias estilizadas.//Vago, vagando, pela rua apinhada,/o poeta, vagamundo, vagabundeia/à procura de si, à procura de nada,/ao calor do sol, que o ar incendeia,/na vaga humana, vaga, sem feição,/anônima (sombras entre sombras)/amorfa, em caótica movimentação.//Vaga, poeta vagamundo, vadeando/caudalosas torrentes de solidão,/sem saber onde, como e quando/ouviu aquela estranha, vaga canção/de sons desarmoniosos, ritmos/selvagens, batuques do coração.//Vaga, vagaroso, vagotonicamente/à procura de alguém, à procura do nada,/distraído, vaga, displicentemente/em busca de etérea, de vaga amada.//Reflete idéias, palavras, versos,/rumina coplas de inspiração sua,/filosofias, artes, pensamentos travessos,/vagando, vago, vagaroso pela rua...”.
Ao concluir a leitura, me perguntei, melancólico: em que parte do caminho se perdeu aquele garoto idealista, que escreveu estes versos ingênuos, e que acreditava tanto poder salvar o mundo apenas com a força das suas convicções? Onde os sonhos, onde os projetos altruísticos, onde as tantas utopias? Restaram esquecidos em algum segmento do tempo, em um passado já tão velho, tão distante, tão remoto...E, no entanto, sobrevive dentro de mim, reprimido, sufocado, amarrado a tolas convenções, mas vivo.
Entendi (ou pelo menos julguei entender) a mensagem procedente de uma época já tão remota, embora pareça somente ontem. Compreendi o que havia por trás de cada verso, cada metáfora, cada estrofe. Pois, como escreveu Theodor Adorno, “só entende aquilo que o poema diz quem escuta em sua solidão a voz da humanidade”. E eu a escuto, aflita e desesperada, a cada segundo, minuto, hora e dia e a cada passo da minha vida que, célere, se escoa, sem nada poder fazer para ajudar.

Thursday, December 29, 2005

Inteligência e bondade

Pedro J. Bondaczuk


A bondade, ou seja, a capacidade de ajudar o próximo, de maneira espontânea e desprendida, só para vê-lo seguro, alegre ou pelo menos equilibrado, sem esperar a mínima espécie de reconhecimento (nenhuma, sequer a sua gratidão) – e essa ajuda nem mesmo precisa ser de caráter material, bastando, não raro, um simples minuto de atenção, que pode fazer a diferença entre a vida e a morte de alguém –, é o que verdadeiramente distingue o homem, na verdadeira acepção do termo, dos demais animais.
É através de gestos dessa espécie que ele faz luzir sua racionalidade. Essa atitude, embora os néscios, os gananciosos e os egoístas não percebam (e não admitam), é que lhe confere superioridade moral, ascendência afetiva e credibilidade. Os maus, que movem guerras, conquistam cidades e causam dor e aflição, ficam, muitas vezes, para sempre nos livros de história. Seus nomes são lembrados, em geral com horror e asco, para todo o sempre, como são os casos de grandes guerreiros de todos os tempos, como Átila, Alarico, Alexandre, o Grande, Júlio César, Napoleão, Hitler, Stalin e tantos e tantos outros, de todos os tempos e lugares.
Figuras bondosas, todavia, têm recompensa muito maior: são alçadas à santidade! E, mesmo depois de mortas, são invocadas por fiéis, para interceder por eles, em suas preces, junto à divindade (e sequer interessa saber se essa intercessão tem ou não o mínimo efeito prático). É o caso, por exemplo, de São Francisco de Assis (apenas para citar um desses seres abnegados, todos bondade e compreensão que, esquecidos das próprias necessidades e aflições, só pensam na valorização e na preservação da vida, humana ou não).
O caso mais recente, nesse aspecto, é, sem dúvida, o de Madre Teresa de Calcutá. Pessoas dessa espécie podem não constar das páginas da História – esse desfile de aberrações, brutalidade e loucura –, que registra a trajetória de povos e nações, com seus dramas e contradições. Mas se perpetuam na “memória” de gerações. Suas ações são reconhecidas e exaltadas por séculos afora. Seus feitos são aumentados pelo imaginário popular. Tornam-se lendas, sagas e mitos. São santificadas. São inteligentes, porquanto boas.
O compositor Ludwig van Beethoven afirmou que “não existe verdadeira inteligência sem bondade”. O sacerdote dominicano francês, Padre Jean Baptiste Henri Dominique Lacordaire (1802-1861) foi ainda mais explícito, e mais enfático nessa constatação. Escreveu, em um de seus tantos livros, voltados à orientação moral e espiritual da juventude: “Não é o gênio, nem a glória, nem o amor que medem a elevação de nossa alma. É a bondade”.
O poeta Vinícius de Moraes coloca essa verdade de forma ainda mais simples e direta, ao escrever, na letra de uma de suas tantas canções, em parceria com Antonio Carlos Jobim: “A vida só dá para quem se deu”. Claro que a pessoa dotada de bondade não faz o bem esperando qualquer espécie de recompensa. Age assim porque é sábia. Porque isso lhe dá prazer. Porque “pode” ajudar e por isso não se faz de rogada: ajuda.
Em Campinas, nos últimos anos, cresceu bastante o movimento do voluntariado. Dezenas, talvez centenas de pessoas reservam um pouco do que têm, e parcela considerável do seu tempo, para ajudar creches, asilos, hospitais, orfanatos e outras tantas entidades assistenciais, que lutam com enormes dificuldades para sobreviver. Levam carinho, conforto, esperança e alegria aos que precisam.
Seus nomes não freqüentam as manchetes dos jornais e nem mesmo as colunas sociais. Seu trabalho, em geral anônimo, todavia, é inestimável. Ajudam porque sentem prazer. Desdobram-se em benefício do próximo porque têm consciência da importância, da transcendência e da grandeza da vida. São solidárias porque são, verdadeiramente, inteligentes. O dramaturgo inglês, William Shakespeare, escreveu: “O futuro do homem não está nas estrelas, mas sim na sua vontade”.
Michel Quoist, que nos legou magníficas orações em forma de poemas (ou seria o contrário? Não importa!), fez a seguinte (e pertinente) constatação: “Na nossa vida há duas soluções: amar a si próprio até o esquecimento total dos outros ou amar os outros até o esquecimento total de si”.
Quem faz a primeira opção, pode até enriquecer. Conquista fama, fortuna e poder (quando conquista, é claro), mas nunca consegue a desejável paz de espírito. E quando morre, não leva nada disso consigo. A fortuna fica para os herdeiros, que não raro a malbaratam. A fama...é enganadora e logo se esvai. E o poder? Bem, que poder é esse que nada pode contra a morte? Quem faz a segunda escolha, no entanto, pode atravessar a vida sofrendo toda a espécie de privações (e via de regra atravessa). Mas é dotado de sabedoria. Conquista o mundo! Ascende à santidade!

Wednesday, December 28, 2005

Sons da infância

Pedro J. Bondaczuk


A vida pode ser definida, também, (pois há inúmeras definições possíveis e nenhuma delas definitiva) como conjunto de sons: ternos ou dramáticos, angustiantes ou eufóricos, harmoniosos ou dissonantes etc. Expressam, em sua variedade, todos os sentimentos e situações pelas quais passamos, positivas ou negativas, alegres ou tristes, cômicas ou dramáticas, de vida ou de morte. Eles são, em última análise, a forma como todos os animais (não apenas os ditos racionais) se comunicam.
Os sons que se calam com maior profundidade, e com mais intensidade, em nossa memória são os mais remotos possíveis, de muitos anos atrás, em alguns casos os de décadas: são os da infância. São os daquela fase encantada de formação, de descobertas, de pasmo e de espanto face ao mundo e tudo o que nele há. São os risos francos e cristalinos das crianças a brincarem no pátio de uma escola. São seus gritos de alegria, de protesto, de dor ou de raiva. São seu choro convulsivo ou somente de birra.
Sons...A vida é repleta de sons...E não somente os espontâneos, os que destoam, os que agridem os tímpanos e machucam a alma. Tempos atrás, escrevi uma crônica, fartamente divulgada por jornais e páginas da internet, em que abordei um dos aspectos dessa parafernália sonora (o tema é tão vasto que creio que jamais se esgotaria).
Em determinado trecho constatei: “Todos temos, em maior ou menor grau, determinadas canções que nos evocam, sempre que executadas, momentos marcantes, bons ou maus, da vida. Elas formam, em conjunto, uma espécie de “trilha sonora” desses acontecimentos, como nos filmes, com a diferença de que não se trata de ficção, mas da realidade nua e crua, mesmo que a fantasiemos, na medida do nosso temperamento e da nossa personalidade”.
E citei várias dessas canções, populares ou não, gravadas fundamente na memória e que, sempre que tocadas, me evocam emoções, alegres ou tristes, positivas ou negativas que, embora adormecidas, não morreram como podem parecer. Permanecem ali, mais vivas do que nunca, e que afloram quando menos espero, pois só vão morrer no dia em que eu deixar de vez este mundo para me reincorporar à natureza. “És pó e ao pó retornarás”, nos alertam, com realismo, os pregadores de várias religiões. São “gatilhos” que, sempre que acionados, trazem de volta, com variáveis intensidades, esses sentimentos que ajudam a compor nossa personalidade.
Entre as composições citadas, mencionei peças de Chopin, de Wagner, de Bach, de Liszt, de Rachmaninoff, de Brahms, de Mozart, de Tchaikowski, de Jacques Offenbach (principalmente a “Barcarola”, da série “Les contes d”Hoffmann”) e, em especial de Beethoven. Citei, também, canções que me embalaram a adolescência, principalmente aquelas dos chamados “anos dourados”, como “Jambalaya”, com Brenda Lee; “Love letters in the sand” e “Only you”, com os The Platers; “Minha namorada”, com Carlos Lyra, “Noite do meu bem”, de Dolores Duran, com Maysa Matarazzo e “Hino ao amor”, tanto com a Edith Piaff, no original em francês, como na versão que vendeu toneladas de discos, na voz de Wilma Bentivegna, entre outras, marcaram instantes memoráveis.
Estranhamente, porém, omiti aquela que mais me toca, sempre que ouço, que revela, sobretudo, minha principal característica: o apego às pessoas e o desapego às coisas. Trata-se de “Peixe Vivo”, cantiga folclórica, cujo autor e época em que foi composta são desconhecidos que, certamente, brotou espontânea da alma popular, dadas as suas características.
O ex-presidente Juscelino Kubitschek fez dela sua trilha sonora. Provavelmente, essa cantiga de roda originou-se em Portugal, em alguma remota região de pastoreio (conclusão óbvia, levando em conta o que diz a segunda parte da letra), trazida para o País, notadamente para Minas Gerais, pelos colonizadores portugueses.
“Como pode o peixe vivo/viver fora da água fria?/Como pode o peixe vivo/viver fora da água fria?//Como poderei viver,/como poderei viver/sem a tua, sem a tua,/sem a tua companhia?”. Quanta evocação essa cantiga me traz! De maneira simples e ingênua, diz o que há anos venho tentando dizer, em milhares e milhares de crônicas e em outros tantos de versos, e jamais consegui. Ou seja, expressa o meu apego atávico aos meus pais, aos meus filhos e à minha amada. Declara a necessidade física, psicológica e, sobretudo afetiva, dos amigos, sem que importe o tempo, a característica (se virtual ou presencial) e a intensidade dessas amizades. Exprime a importância dos leitores, contumazes ou ocasionais, deste constante desnudamento emocional em público que pratico há tantos anos através dos textos que produzo.
“Os pastores desta aldeia/já me fazem zombaria,/os pastores desta aldeia/já me fazem zombaria//por me ver andar sozinho,/por me ver andar sozinho,/sem a tua, sem a tua,/sem a tua companhia”. São sons da infância que me lembram, a todo o momento, que o menino que um dia fui não morreu. Continua mais vivo do que nunca. Que apesar dessa máscara de adulto sério, compenetrado, aparentemente cético, com profundas cicatrizes no corpo e na alma, ainda é o mesmo: ingênuo, carente de atenção e de afeto, inocente e deslumbrado.
Só posso concluir estas confidências com as palavras do mestre de todos nós, Rubem Braga, que na crônica “A Navegação da Casa” (inserida em seu livro “A Borboleta Amarela”), desabafou: “Oh! Deuses miseráveis da vida, por que nos obrigais ao incessante assassínio de nós mesmos e a esse interminável desperdício de ternuras?”...”Como poderei viver, como poderei viver, sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia” anônimo leitor que me prestigia com a tua atenção?!!

Tuesday, December 27, 2005

Conhecimento e educação

Pedro J. Bondaczuk


No livro “Megatendências”, John Naisbit constatou a existência de uma grande contradição na sociedade norte-americana. Enquanto o país se encaminha para se transformar num produtor e exportador de informações – no seu entender o grande “produto” do século XXI – o sistema educacional dos Estados Unidos atravessa uma enorme crise, especialmente de qualidade.
Embora a obra tenha sido escrita em 1982, portanto, há 24 anos, o quadro não evoluiu para melhor. Muito pelo contrário, até se deteriorou. Pesquisas revelam que a educação também atravessa momentos críticos em outras partes do mundo, como na Europa Ocidental e no Leste europeu. No Brasil, nem se diga!
Conclui-se que, enquanto a tecnologia teve avanços rapidíssimos e até miraculosos nos últimos anos, o sistema educacional estagnou e não acompanhou esse progresso. Naisbit ressalta, na página 31 do seu livro: “Torna-se cada vez mais evidente que os graduados nos colégios, e mesmo nas universidades, não conseguem escrever um inglês aceitável, ou mesmo trabalhar com simples aritmética. Pela primeira vez na história americana, a geração de jovens que chega à idade adulta tem menos capacidade que seus pais”.
Se nos Estados Unidos e na Europa o quadro é esse, o que dizer do Brasil, onde, além de tudo, os educadores são sobrecarregados de serviços, em virtude de salários humilhantes, e sequer encontram tempo para preparar aulas decentes, quanto mais para passar por indispensáveis e periódicas reciclagens didáticas?!
De uns anos para cá, tanto em nosso País, quanto em outras partes do mundo ocidental, de onde abundam informações a esse respeito, os educadores e, principalmente, os responsáveis pelas políticas educacionais vêm confundindo educação com mera acumulação de conhecimentos.
Opta-se pela formação de repetidores de conceitos alheios, de meros papagaios, alguns, verdadeiras enciclopédias vivas, em detrimento dos pensadores. De pessoas capazes de adotar postura crítica face qualquer informação e, sobretudo, aptas a acrescentar algo de próprio a ela.
Desestimula-se o raciocínio. Em muitas partes, as escolas têm praticamente o mesmo perfil autoritário e medieval de três, quatro ou mais séculos atrás. Mas o mundo mudou muito desde então. Conhecimentos são acumulados hoje de maneira muito mais rápida, eficiente e organizada em memórias de computadores do que no cérebro humano. Ao homem compete saber como usar esse acervo para melhorar sua vida e a da comunidade em que se insere.
O pensador Jiddu Krishnamurti traçou, com clareza, numa entrevista dada há alguns anos, a diferença entre educar e acumular informações. Sentenciou: “As escolas existem principalmente para conseguir uma transformação profunda nos seres humanos, e a responsabilidade do educador é tremenda. Há muita diferença entre aprender e acumular conhecimentos. Aprender eleva a inteligência, acumular conhecimentos apenas embota a mente e não pode solucionar nossos problemas espirituais”.
O homem é educado para a liberdade ou a servidão, o altruísmo ou o egoísmo, a solidariedade ou o isolamento de seus semelhantes – que Santo Tomás de Aquino atribuía a uma deformação de caráter e condenava quem agisse assim, como se fosse uma ilha solitária e dissociada dos outros seres humanos.

Monday, December 26, 2005

Palavra cavada no silêncio

Pedro J. Bondaczuk


O verão, em Campinas, tem dias maravilhosos, como uma pintura de hábil artista (isto, quando não chove), não raro os mais bonitos do ano. Num dos poucos sábados livres que tenho, saio para dar uma volta pelo centro da cidade, razoavelmente tranqüilo nesta tarde, bem diferente do que ocorre durante a semana, quando o trânsito caótico, as multidões apressadas e a ação dos trombadinhas tornam o simples ato de andar distraído pelas calçadas verdadeira aventura.
Caminho, despreocupado, pelo Largo do Rosário, apreciando o revoar das pombas ao redor dos prédios e das marquises da praça. Sinto sede. Resolvo dar uma paradinha no Éden Bar para uma cervejinha estupidamente gelada.
Não tarda muito, aparece um conhecido, ferrenho torcedor do São Paulo, que logo me acena. Tento fingir que não o vi, mas volto atrás, para não cometer uma indelicadeza com essa pessoa. Afinal, quando não fala sobre futebol, ele até que é um bom sujeito.
Cumprimentamo-nos, trocamos as palavras formais de sempre. “Como vai?”, pergunta o tal conhecido, “você anda sumido”, acrescenta. “É o meu trabalho no jornal”, respondo. “Não encontro tempo sequer para respirar”, explico, torcendo para que a conversa se atenha, apenas, ao terreno neutro das amenidades. Ou que o meu interlocutor enverede para aquilo que é a minha especialidade enquanto jornalista, a política, com as suas nuances, digamos, nem sempre éticas.
A questão que eu temia, porém, não se fez esperar muito. “E a Macaca? Quase caiu, mais uma vez, do galho”, sapecou o sampaulino fanático, para o meu desgosto, em alusão à péssima campanha, no Segundo Turno do Campeonato Brasileiro, recém-encerrado, do meu time do coração, a Ponte Preta. Foi tão mal, que só escapou do rebaixamento no último jogo, ao derrotar o rebaixado Brasiliense, no Majestoso, por 3 a 1, em um jogo tenso e dramático.
Como se vê, lá vinha ele com mais uma das tantas piadinhas que circularam, nos dias que antecederam essa partida, em geral respondidas com palavrões. Afinal, o que responder? O time tinha decepcionado mesmo!
Claro que ainda estou de cabeça inchada por mais esse fracasso do meu clube de coração, uma das minhas paixões que, como todas as que temos, é ilógica e irracional. Pois é, mais uma vez, a falta de planejamento e de organização (e, principalmente, de dinheiro) nos atropelou. E lá vai a Ponte Preta, detentora da maior torcida da cidade (apesar de uma certa pesquisa ter mostrado o contrário) tentar montar outro time, completamente novo e desentrosado, para não dar vexame no Campeonato Paulista de 2006.
“Onde ficou a recuperação que você escreveu que haveria?”, perguntou o chato, em tom de chacota. Eu havia publicado, na metade do Segundo Turno, em uma das minhas colunas de esportes que escrevo para jornais de bairro, que a equipe iria dar a volta por cima e permanecer distante das últimas colocações. Não permaneceu. Mas escapou (por um triz) do rebaixamento. Ufa! Que alívio!
“Bem, embora goste muito de futebol, não sou especialista dessa área”, respondi, meio que com vontade de espantar o chato para longe. “Por essa razão, não tenho necessidade de ser neutro. E não sou. Na qualidade de simples torcedor, acreditei até o final. Não é este o único papel da torcida?”, acrescentei, sentindo que não estava sendo nada convincente e incomodado com o papo, que estava se tornando cada vez mais desagradável.
Ninguém gosta de ficar em desvantagem, seja lá no que for, e eu não precisava me aborrecer sem necessidade. Ainda mais num sábado tão bonito de verão, como era esse. Emborquei, rapidamente, o último copo de cerveja, sem sequer saborear o paladar da bebida, olhei para o relógio, dando a entender que estava atrasado para um compromisso (que na verdade não tinha), dei um tapinha nas costas do sampaulino chato, mas cuja amizade queria preservar, e segui adiante, General Osório abaixo, rumo à Praça Carlos Gomes.
Andei apressado, quase correndo, pelo primeiro quarteirão, temendo que o conhecido quisesse me acompanhar. Não quis. Ufa! Reduzi o passo e voltei às minhas reflexões. Senti o quanto esta cidade faz parte de mim, o quanto tem me influenciado positivamente. Não se diz que o homem é produto do meio em que vive? Talvez não seja assim, mas que este tem lá sua influência, ah, isso tem!
Lembro-me, a propósito, de uma crônica de Wilson Luiz Sanvitto, publicada no Jornal da Tarde, que diz, em determinado trecho, algo que me marcou e que, sempre que posso, costumo citar: “Após uma longa vida, o homem é um pouco uma fusão de todas as pessoas que conheceu, todos os livros que leu, todos os crepúsculos que admirou, todas as obras de arte que apreciou, todas as músicas que ouviu...De sorte que eu concordo com quem disse: cada homem que morre é uma biblioteca que arde”.
Pois é, um pouco desta tarde também ficará incorporado em mim. Espero, apenas, que a parte do encontro com o sampaulino se apague da mente. Que atrevimento vir me gozar por causa da Ponte Preta! Justo ele, que é campineiro de nascimento, mas que sequer torce para algum clube da sua cidade natal! Também sou cidadão desta metrópole, mas por opção. Mas...deixa para lá!
Não é a primeira vez que o time viveu situações como essa e sempre (ou quase sempre) deu um jeito de se safar. Afinal, já foi vice-campeão por quatro vezes! Só no Brasil o segundo lugar não tem valor algum.
O poeta italiano, G. Ungaretti, tem um verso que, não sei por qual razão, me vem à memória, enquanto perambulo, preguiçosamente, pela Praça Carlos Gomes: “Quando encontro/neste meu silêncio/uma palavra/cavo nela minha vida/como um abismo”, escreveu o poeta.
Qual é a minha palavra? Olho ao redor, vejo tantas caras estranhas e conhecidas, alegres e tristes, feias e bonitas, e lugares tão familiares desta cidade, que já é um pedaço de mim. Já sei qual é...”Na palavra ‘amor’, cavo minha vida, como um abismo”, digo aos meus botões, parodiando Ungaretti...

Sunday, December 25, 2005

Louvor à vida

Pedro J. Bondaczuk


O Natal, apesar de ter sido apropriado pelo comércio como uma época de zerar os prejuízos ou de consolidar os lucros (dependendo do caso e do estado da economia) é, sobretudo, uma louvação à vida. O próprio significado da palavra, "nascimento", sugere essa conotação.
Como tema literário, é dos mais difíceis, já que vem sendo explorado há quase dois mil anos por artistas de todas as tendências e línguas. Virtualmente, tudo o que se podia dizer, em qualquer das linguagens artísticas que se utilize – a palavra (em qualquer idioma ou dialeto), o pincel (em qualquer estilo), o buril (em qualquer mão) ou o som (em qualquer tonalidade) – já foi dito por alguém em algum lugar e em algum tempo.
Quem se aventura a explorar a temática sabe que dificilmente (provavelmente nunca) conseguirá ser original. Mas será que a originalidade é tão importante neste caso? Ou há fatores mais relevantes na arte, como a visão pessoal, o bom gosto, a clareza, a simplicidade, etc, a serem enfatizados?
O que o artista contemporâneo acrescentará será somente sua experiência pessoal, que é única, desde que se disponha a perder o medo e se exponha de fato, de corpo inteiro, sem nenhuma espécie de pudor ou dissimulação, perante o público: com absoluta sinceridade, sem buscar criar estereótipos. No mais, tudo o que escrever ou disser não passará de variação em torno do mesmo tema.
Ainda assim, é um desafio que o artista de verdade, aquele dotado não somente de técnica, mas, sobretudo, de talento e sensibilidade, deve encarar, mesmo correndo o risco de resvalar para o pieguismo, que é onde geralmente vão parar os textos que têm sido escritos anualmente sobre o Natal. É quase inevitável...
Há os que preferem se alienar da realidade e enveredar pelas fantasias, como se vivessem em mundo ideal e não no "perdido", no violento, no áspero, no duro, no inflexível no qual um deus precisou se fazer humano para salvar. Sua obra fica privada da verossimilhança. Outros descambam para um rumo diametralmente oposto. Também são inverossímeis. Tudo o que vêem no homem é violência, hipocrisia, mentira, vaidade, egoísmo e desamor.
Esquecem-se que essa espécie animal ainda está em formação, já que é extremamente "jovem" em relação não apenas à idade universal, mas da própria Terra, que foi formada, há no mínimo, 4 bilhões de anos. Em pouco mais de seis milênios, (uma piscada de olhos imperceptível de tão rápida, um quase nada da eternidade), evoluiu demais, tanto em termos materiais, quanto morais.
É certo que a história relata avanços e retrocessos contínuos, de acordo com as várias gerações, que são como safras. Umas são de primeira qualidade, outras somente medianas e outras ainda infestadas de pragas de toda a espécie, que não vingam e deixam vestígios de comportamentos doentios nos descendentes. Não se pode ser maniqueísta quando se trata de ser humano.
Os santos sempre foram raros e ninguém tem a absoluta certeza se sua santidade não foi apenas para "consumo público". A mente e o coração de uma pessoa são indevassáveis... No outro extremo, os piores monstros que já passaram pela Terra, os seres mais asquerosos e repelentes pelas atitudes hediondas que tomaram, certamente tiveram uma pontinha, um lampejo, uma centelha por menor que fosse de bondade, de grandeza e de racionalidade.
Tudo o que valoriza a vida e enfatiza o seu mistério e a sua beleza, deve ser preservado, cultivado e transmitido através das gerações. Mesmo com pieguismo... E o Natal, mais do que nunca, está nesta condição.
Porque a data marca não apenas o nascimento de um deus que se fez homem, mas o surgimento da esperança para uma espécie condenada ao desaparecimento por sua própria animalidade, por seus instintos e por suas inclinações.
Se a humanidade não tivesse "conserto", um Deus não se disporia a mandar para este inexpressivo planeta seu próprio filho para a tarefa da sua redenção, mesmo sabendo de antemão qual seria o seu destino na Terra, dada a sua onisciência (e esta é a base da nossa fé cristã).
Possivelmente, muitas gerações ainda irão se suceder. Algumas dessas "safras" serão magníficas. Outras, serão apenas comuns. Outras ainda vão ser de péssima qualidade. Estas últimas é que são perigosas, porquanto podem determinar, através de suas ações, a destruição do Planeta e de tudo o que nele há, se não forem condicionadas, não importa de que forma, a valorizar a vida.
Hoje, há milhões de arautos da morte espalhados pelo mundo. Basta ligar um receptor de televisão ou de rádio, assistir a qualquer filme ou ler os jornais e revistas para perceber onde está a ênfase. A mesma coisa vale em relação à literatura e por extensão às outras artes. Está na violência de toda a espécie, na marginalidade, na criminalidade, na exclusão, na controvérsia, na discórdia, nas guerras civis ou entre nações...Nos conflitos de toda a sorte...
Não que estejamos criticando a mídia. Se a imagem que determinado espelho reflete é horrível, não é este que deve ser quebrado. E os meios de comunicação não passam de reflexos dessa feia realidade que nos cerca. Daí tradições como a do Natal – não importa comemorado de que maneira ou descrito de que forma – são importantes de serem preservadas e transmitidas geração após geração. É a vida prevalecendo, com toda a sua fragilidade, sobre a ronda grotesca e permanente da morte... e do nada...

Saturday, December 24, 2005

Poema de Natal

(Este poema foi composto em 16 de dezembro de 1974, ano de nascimento da minha primeira filha, a Tatiana. Não se trata de uma obra-prima, mas reflete, com exatidão, como eu estava me sentindo nesse dia).


Projeta-se, em minha memória,
o fato mais comovedor,
lembrança de maior valor
de uma particular história...

Recordo, com grande emoção
(só tinha seis anos, então)
de um homem de vermelho e branco
barba postiça, de algodão,
luva furada em cada mão,
trazendo um saco (de papel)
que eu (que infantil ilusão!)
julgava ser Papai Noel.

“Faça seu pedido, filhinho,
ou bola, ou casinha ou trenzinho,
ou o que mais quiser pedir”,
dizia mamãe, a sorrir.

“Eu quero ganhar uma bola
que possa levar à escola
e nos dias em que houver sol,
brincar com o Chico Patola,
e ser craque de futebol”.

E eu achava sempre normal,
(e nem ficava surpreendido)
quando, no dia de Natal
via o pedido atendido.

Lá ía eu, todo gabola,
a correr para a escola,
brincar com o Chico Patola
com minha preciosa bola.

“Hoje lhe peço, bom velhinho,
para os meus natais de ilusão
só o seu paternal carinho,
nada mais do que a sua bênção!
Meu amigo, meu pai (Noel?),
nos acordes do Jingle Bell,
recuemos a nossa história.
Vamos reviver, na memória,
juntos, e com sua netinha,
aquela cena, tão real:
Um menino, sua cartinha,
a árvore e a estrelinha
feita de dourado papel,
o doce encanto do Natal,
o peru, a castanha, a torta
e o seu carinho, meu papai
(Noel?)! O nome não importa!

Friday, December 23, 2005

A comunicação que permanece

Pedro J. Bondaczuk


O ato de comunicar um pensamento, um sentimento, uma idéia ou uma informação implica em maiores dificuldades que um leigo pode imaginar. A deficiência de comunicação tende a provocar enormes contratempos, que não raro descambam para conflitos, entre as pessoas,l gerando antagonismos e brigas, na maioria das vezes evitáveis.
Isto é válido desde as relações pessoais do dia-a-dia (no lar, no trabalho, no lazer e na convivência social), até o relacionamento entre povos. Por exemplo, muito marido indispõe-se com a esposa por não saber lhe comunicar corretamente uma emoção. Ou por não se fazer entendido ao lhe prestar determinada informação sobre os seus atos.
O mesmo acontece com pais, com filhos, com patrões, com empregados, com amigos etc. Por outro lado, pelo mesmo motivo, muita guerra tem sido deflagrada através da História. A palavra é poderosa, quando manejada com perícia. Contudo, pode tornar-se uma faca de dois gumes se utilizada de maneira, digamos, desastrada.
A tarefa da comunicação se complica um pouco mais se é feita através da escrita. Esta implica, a priori, no conhecimento da grafia das palavras, das regras gramaticais, do significado exato de cada termo e, para quem faz desse exercício uma profissão, do estilo.
A principal virtude de um bom redator é a clareza, seguida da concisão. É indispensável que se faça entendido. Além disso, o que escreve precisa ser interessante, tem que atrair o leitor, e prender a sua atenção. Para tanto, deve deixar a erudição para textos voltados a um público específico, e mesmo assim tomando as devidas cautelas para não resvalar para o pedantismo.
Além desses cuidados técnicos, o comunicador precisa atentar para o essencial: o que vai comunicar e para quem. O que tem a dizer vai esclarecer os leitores, ajudar a formar uma opinião, servir de acréscimo ao seu acervo cultural, ou se trata, somente, de um conjunto de lugares-comuns, de um rosário de críticas inconseqüentes, ou de lamúrias neuróticas, ou de obviedades dignas daquele personagem do romance “O Primo Basílio” de Eça de Queiroz, o Conselheiro Acácio?
Boa parte do que lemos nos jornais, revistas, sites, blogs e até em livros bastante divulgados não passa disso! Melhor seria, nesse caso, em especial da mídia impressa, que se preservasse a árvore que foi abatida para fornecer a matéria-prima do papel onde o acervo de bobagens será estampado.
O comunicador, antes de tudo, é o que poderíamos chamar, figurativamente, de “fazedor de cabeças”. O texto, em geral, adquire maior credibilidade do que a palavra oral. Além de tudo, permanece, ao contrário daquilo que dizemos, que entra por um ouvido, sai por outro, e em geral, acaba esquecido minutos depois. Ou, quando é algo de fato relevante, deixa uma ou outra informação gravada na memória, de forma truncada, já que muitos detalhes (alguns essenciais) se perdem.
Para que possamos “fazer cabeças”, diz a lógica, é preciso que, antes, tenhamos a nossa cabeça feita. O papel em branco numa máquina de escrever (ou tela vazia do monitor do microcomputador, hoje em dia o instrumento por excelência do redator) é um desafio aos que fazem desse ato de inteligência e comunicação uma espécie de estilo de vida.
Para alguns, o texto flui naturalmente, claro, cristalino, vigoroso, às vezes contundente, outras confortador, mas sempre útil. Outros, no entanto, embaralham-se ora com a grafia de determinadas palavras, ora com a construção das frases, períodos, parágrafos, capítulos etc.; ora com a ausência de recursos vocabulares, ora com regras da crase e de concordância verbal, ou de grau, gênero e número.
Uns, têm idéias boas, fartas, vigorosas e sabem como comunica-las. Outros, querem, somente, comunicar sua revolta, suas frustrações, seus temores e sua perplexidade face à vida. Estes últimos, quando conseguem se expressar, muitas vezes elaboram textos que vão ter uma influência perniciosa sobre os que se sentem confusos, revoltados, frustrados e temerosos, como eles. Na maioria das vezes, porém, suas “mensagens” são fúteis.
Estas considerações vêm a propósito de uma enxurrada de má literatura (e de mau jornalismo) que circula por aí. Temos recebido inúmeros trabalhos de candidatos a escritor, que nos pedem para prefaciar essas obras ou para emitir a nossa opinião. Muitos desses textos são de inegável valor, exigindo, somente, um ou outro retoque para que possam ser classificados de excelentes. Alguns chegar a beirar a perfeição.
Alguns, todavia, se esquecem que a compreensão é o objetivo principal, se não único, da comunicação. Raciocinam de maneira confusa, daí se expressarem, também, sem clareza e sem precisão. Na ânsia de mostrar erudição, que muitas vezes sequer possuem, se tornam, literalmente, ininteligíveis.
Há os que confundem erotismo com pornografia e resvalam para o absoluto mau gosto, mostrando que, na verdade, não tinham nada a comunicar. Quanto a alguns textos jornalísticos, que nos foram encaminhados para apreciação (e outros tantos que lemos na chamada “grande imprensa” nacional e4 internacional), é difícil deixar de dar razão ao dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (conhecido por suas tiradas mordazes), quando constatou que “os jornais, ao que parece, são incapazes de distinguir um acidente de bicicleta do colapso da civilização”.

Thursday, December 22, 2005

Relógio e espelho

Pedro J. Bondaczuk


A vida é um evento tão rápido e misterioso, é tão efêmera e inconstante, que passa como um piscar de olhos. Mal nos damos conta quando crescemos, amadurecemos, envelhecemos e... zás! Mistério...Simplesmente "deixamos de ser". Partimos ou para a anulação absoluta (o nada), ou para algum lugar de onde ninguém jamais voltou para explicar se de fato existe ou onde e como é. Se há ou não continuidade da vida, em alguma outra dimensão, despidos do corpo físico, é uma discussão interminável dos místicos (e dos fanáticos). Foge do racional.
E morrem de velhice apenas os cada vez menos numerosos que têm esse privilégio e não são "arrancados pela haste", como uma frágil flor, pelo "acaso" travestido de alguma súbita doença, de algum desastre ou dos cada vez mais freqüentes atos de violência alheios. Um número crescente de pessoas é eliminado por um desses fatores sem chegar aos cinco, dez, quinze, vinte ou cinqüenta anos.
Dois objetos, criados pelo engenho humano, são simbólicos da passagem do tempo e dos estragos que esta "ronda implacável" da decadência faz sobre a estrutura física: relógio e espelho. O primeiro marca a passagem dos segundos, minutos e horas que, somados, compõem os dias, que escoam velozes. O segundo reflete as transformações externas, que nem sempre notamos – não pelo menos com constância – em nossa aparência.
Quando adolescentes, são o surgimento de espinhas, dos primeiros fios de barba, dos indícios de amadurecimento. Passados dos quarenta, vêm os cabelos brancos, a calvície, as primeiras rugas, as sombras sob os olhos, etc.: os vestígios de decadência. Relógio e espelho... Ambos "trabalham" para o mesmo implacável e abstrato senhor: o Tempo.
O primeiro marca o quanto nos resta de vida, sem que nos demos conta da necessidade de aproveitar cada um dos instantes que fogem, já que certamente não teremos uma segunda chance. O segundo, posto que inconscientemente, na sua condição de objeto inanimado, mostra coisas que preferiríamos não saber sobre a decadência do nosso físico.
Felizmente, não alcança refletir nosso espírito e nosso raciocínio. No meu caso, revela-me, por exemplo, que meus dentes se estragaram, após ficarem manchados de nicotina e começarem a cair, por falta de tratamento, necessidade difícil de ser atendida, dado o alto preço cobrado pelos dentistas. Faço parte, portanto, da imensa legião de banguelas existentes no País. Afinal, o Brasil é o recordista mundial dos desdentados!
Além disso, o espelho denuncia as permanentes e crescentes olheiras que ostento, resultado de intensíssima leitura e de noites e mais noites de estudos e de texto. Exibe, com a maior desfaçatez, as entradas que ameaçam se transformar em calvície, que começaram com um círculo no centro da cabeça, semelhante às tonsuras dos monges, e evoluíram pelas laterais, mostrando uma pele branca e lustrosa.
Se, pessoalmente, estes dois objetos me causam aflição e até certo temor, pelas incômodas revelações que fazem acerca da minha aparência, machucando a minha vaidade, vingo-me deles e transformo-os em temas de centenas de versos. Dou sempre um jeito para que estejam presentes no cenário dos meus contos. Faço com que sejam símbolos de decadência e de efemeridade, que realmente são.
Infeliz descoberta humana! O espelho, por exemplo, teria surgido da imitação de um lago, que reflete a imagem daquilo que o cerca. Foi a causa do desvario do personagem mitológico Narciso, que se apaixonou perdidamente pela própria figura refletida na água, posto que distorcida. Hoje, inúmeros intelectuais agem da mesma forma. São impermeáveis a críticas e por isso ficam expostos ao ridículo. Apaixonam-se por sua imagem e julgam-se sábios. São uns Narcisos...
Cecília Meirelles, em seu poema "Canções", utilizou esse objeto como tema literário, nestes magistrais versos: "Quando meu rosto contemplo,/ o espelho se despedaça:/ por ver como passa o tempo/ e o meu desgosto não passa./ Amargo campo da vida,/ quem te semeou com dureza,/ que os que não se matam de ira/ morrem de pura tristeza?".
No meu caso, porém, há muitas diferenças entre o que a poetisa descreve e a minha visão de mundo. E nem poderia deixar de ser assim, já que nossas realidades de vida são heterogêneas. Em princípio, embora o acaso tenha sido perverso comigo em muitas circunstâncias, não tenho um desgosto tão renitente, a ponto de nunca passar.
Ponderando bem, meus momentos felizes são em muito maior número do que os que me desgostam. Por conseqüência, não considero o campo da vida amargo. Acho-o dulcíssimo. Tanto que gostaria de viver – na impossibilidade de ser eterno – os 983 anos de Matusalém ou chegar às marcas multicentenárias de outros patriarcas bíblicos. Não estou morrendo de tristeza. Vivo a plenitude da alegria de exercer o que mais gosto de fazer: escrever.
Talvez ajude a postura que assumo no meu cotidiano. Tenho escassos desejos. Não me alimento de esperanças e ainda assim não sou amargo. Até porque, as coisas boas que me ocorreram, em linhas gerais, foram as absolutamente inesperadas. Quando esperei, ansioso, que algum evento ocorresse, invariavelmente me frustrei.
Daí concordar com os versos do poema "O fumo", escrito no século XVII por Marc Antoine de Saint-Amant, que dizem: "Nenhuma diferença a minha mente alcança/ em fumaça o tabaco ou viver de esperança:/ um é simples fumaça, a outra é apenas vento".
Creio haver justificado, pois, a razão do temor e do respeito que tanto o relógio, símbolo de Cronos, quanto o espelho, que simboliza Narciso, me despertam. Não quero testemunhar a passagem do tempo. Recuso-me a conferir os estragos que ele me faz. Desejo usufruir cada segundo, como se fosse o derradeiro da vida que, no dizer de Manuel Bandeira, "é um milagre". E como é!

Wednesday, December 21, 2005

Traje que faz o monge

Pedro J. Bondaczuk


“O traje não faz o monge”, diz conhecido dito popular, citado e repetido amiúde, quando se quer ilustrar o quanto as aparências costumam enganar quem está habituado a tirar conclusões apressadas sobre os semelhantes, baseado, apenas, no que vê. E, em certa medida, todos nós, uma vez ou outra, agimos dessa maneira. Medimos a capacidade, e até a “respeitabilidade” (quando não a projeção profissional e/ou social) de uma pessoa, apenas pela forma como ela se veste.
Fazemos, por conseqüência, juízos apressados (quando não ridículos), baseando-nos, somente, no aspecto exterior de alguém, naquilo que é passivo de ser disfarçado, ou imitado. Há, inclusive, quem faça desse comportamento uma espécie de regra (e não são poucos). E, claro, cometem equívocos monumentais. E como se enganam!
Albert Einstein, por exemplo, tido e havido como desleixado, no que diz respeito à forma de se trajar, e de se apresentar socialmente (quem nunca viu a imagem do famoso cientista, com os cabelos compridos e desgrenhados, mostrando a língua, como que a debochar dos que se apegam somente às aparências?) jamais seria recebido no círculo social de quem se utiliza desse parâmetro (tão comum, porém mesquinho) de avaliação.
No entanto... foi um dos maiores gênios que o mundo já produziu em todos os tempos, respeitado e admirado não exatamente por sua “elegância” (que não tinha), mas pela força do seu raciocínio e pelo uso continuado e racional do seu cérebro privilegiado. Inúmeros outros casos, como esse, poderiam ser mencionados, para mostrar o quanto essa maneira de julgar o próximo é enganosa, quando não ridícula e principalmente preconceituosa.
A forma de se trajar, porém, é uma espécie de “cartão de visitas” nos nossos relacionamentos do dia a dia. Principalmente nos contatos com os que nos são desconhecidos. E isso vale tanto no plano profissional (os anúncios de oferta de emprego, invariavelmente, exigem que o candidato tenha “boa aparência”), quanto no social e, às vezes (e não tão raro assim), até no afetivo.
O modo de nos vestirmos tende a determinar, por conseguinte, (salvo raras exceções), a forma com que seremos recebidos (e tratados), por exemplo, em um escritório, em um banco, em uma repartição, em um estabelecimento comercial, em uma casa de família, etc. Isto, se nos receberem, é claro.
Se estivermos com uma roupa puída, ou desbotada, ou amassada, ou que revele qualquer espécie de desleixo, de desalinho ou de deselegância, podemos estar certos de que a recepção que nos será tributada (se conseguirmos ser recebidos, convém reiterar) será, no mínimo, arrogante, quando não hostil. O traje, portanto, ao contrário do que reza o mencionado clichê, “faz o monge”. Hoje, raros jornais e revistas que se prezam não têm editorias de Moda. Isso requer profissionais especializados, que saibam o que dizem e que entendam, de fato, do riscado. E que aliem, a esse conhecimento, sensibilidade e bom-gosto.
Reitero: infelizmente, o “traje faz o monge”. E como faz! Isto, apesar de todos os esforços, notadamente dos jovens, para “desmoralizar” esse tipo de comportamento, que só leva em conta a aparência exterior, aqueles sinais visíveis de riqueza ou de pobreza, facilmente disfarçáveis e escamoteáveis, sem atentar para aquilo que a pessoa de fato é.
Por paradoxal que possa parecer, a moda conseguiu – notadamente a partir da segunda metade do século passado – transformar, até, a “deselegância” em padrão de “elegância”. Cooptou, dessa maneira, a rebeldia da juventude em relação à aparência (cabelos e barba compridos) e ao traje, de movimentos como os dos “beatniks”, “hippies” e “punks”, entre outros.
Calças jeans, e ainda por cima puídas, por exemplo, que eram vestes características de pessoas não apenas mal vestidas, mas miseráveis (quando não indigentes), são ostentadas, hoje em dia, com orgulho, como sendo “sumamente elegantes”, por rapazes e moças de classe média e até de famílias abastadas, sem que quase ninguém mais repare e nem estranhe.
Deixamos, para reflexão dos leitores, o seguinte trecho do romance “Dedo nos Lábios”, de Afonso Schmidt, editado no início dos anos 60 pelo Clube do Livro, pela pertinência e como ilustração do assunto aqui tratado: “Que seria da grandeza dos reis, da glória dos marechais, da santidade dos papas e da austeridade dos juizes sem a roupa que cobre as misérias do corpo? A roupa começou pela tanga e pelo cocar, não foi feita para resguardar do frio, mas para impor o domínio de alguns homens sobre os demais”. E não foi?. Portanto, apesar das tantas mudanças verificadas no comportamento das pessoas, (não sei se feliz ou infelizmente) “o traje ainda faz monge”...o que contradiz o tão propalado clichê.

Tuesday, December 20, 2005

Fruto de equívoco

Pedro J. Bondaczuk


O poeta Rainer Marie-Rilke escreveu que “a fama é a soma de equívocos criados em torno de uma pessoa”. A mesma afirmação é válida em sentido oposto. Ou seja, no caso de alguém comprovadamente competente em sua atividade permanecer obscuro, anônimo ou, pelo menos, desconhecido da maioria.
Aliás, há os que obtêm o reconhecimento devido pelo seu talento e competência apenas muitos anos depois da sua morte. E isto quando suas obras (em geral casualmente) são apreciadas com serenidade, com isenção e com critério por alguém capacitado para avaliá-las, que só o distanciamento ditado pelo tempo permite.
Alguns não são reconhecidos nunca e acabam esquecidos para todo o sempre., Há muitos indivíduos famosos hoje que logo vão cair no absoluto esquecimento. Um médico britânico, Angus Wallace, viveu em maio de 1995, e com justiça, o seu momento de fama.
Sua façanha foi a de realizar uma cirurgia a bordo de um Boeing 747, em pleno vôo, a dez mil metros de altura, sem contar com instrumental adequado para fazer a operação. Ao invés de uma unidade cirúrgica, sua “sala de cirurgia” foi improvisada nos bancos da parte traseira do avião.
Para esterilizar os instrumentos, um litro de “brandy” foi suficiente. Contando, apenas, com um canivete, uma tesoura, um cabide, uma garrafa plástica de água mineral e sua competência, o cirurgião salvou a vida de uma paciente, que estava com obstrução em um dos pulmões e não conseguia respirar.
Para agir com tamanha presteza e sangue frio, Wallace, certamente, devia ser um profissional competentíssimo e treinado. No entanto, até esse vôo, entre a então colônia britânica de Hong Kong (hoje de volta à soberania da China), de 14 horas de duração, nunca havia tido a chance de mostrar sua perícia para o público, embora deva ter curado uma infinidade de pessoas.
Portanto, para se conseguir fama e prestígio, é preciso não apenas ser bom naquilo que se faz. É necessário, também, contar com a oportunidade. Isso vale para todo e qualquer campo de atividade. Tanto faz que se trate de medicina, engenharia, jornalismo ou literatura.
Não é raro os bibliófilos toparem, surpresos, com livros excelentes, de escritores absolutamente desconhecidos, em geral relegados a sebos. Mais comuns ainda, no entanto, são “best-sellers” sofríveis, com histórias escabrosas ou incoerentes e textos apelativos, na maioria das vezes horríveis.
Pelo menos nesses casos, não há como deixar de dar razão a Rilke: a fama é, mesmo, a soma de equívocos criada em torno de uma pessoa. A maioria desses erros de avaliação acaba sendo corrigida e, para muitos, a notoriedade dura tanto quanto o seu medíocre talento. Não é o caso, claro, do médico Angus Wallace.
Contudo, se é difícil conquistar a fama, mais difícil ainda é conservá-la. As pessoas esquecem fácil e são poucos os que sobrevivem para sempre na memória das gerações. Passados mais de dez anos da façanha do cirurgião, quem se lembra dele? Que fim levou? Continua vivo? Morreu? Trabalha ainda? Onde? Ninguém sabe dizer!
É verdade que, em alguns casos, o indivíduo glorificado, mesmo que de méritos escassos ou contestáveis, se transforma em mito e ninguém ousa restabelecer a verdade. A soma de equívocos se consolida, perpetua, permanece para sempre.
Há, por outro lado, muita gente que permanece famosa por causa de modismos. Títulos de suas obras são citados e repetidos em círculos de basbaques, de pseudo-intelectuais, pelos que desejam mostrar erudição, sem ter, em arroubos de pedantismo, sem que jamais seus livros (no caso de escritores, claro) tenham sido sequer folheados, quanto mais lidos.
A fama, portanto, por partir, em geral, de um equívoco (ou de uma soma deles, conforme afirma Rilke), não passa de vaidade vã, quando não de um desnecessário incômodo. Melhor é conquistar o respeito e a genuína amizade de um círculo restrito de pessoas, do que adquirir essa notoriedade efêmera, quando não apenas interesseira e, por isso, efêmera.

Monday, December 19, 2005

A poesia sai dos livros

Pedro J. Bondaczuk


O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, em certa ocasião, que “a poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais”. “Mas como?”, pergunto aos meus botões, conhecendo, como poucos, o teor do noticiário diário (afinal, sou e sempre fui editor), com seu desfile de taras, velhacarias, aberrações, violências e tensões.
Seria mesmo assim ou o poeta estaria forçando a barra? Onde a beleza, por exemplo, dos ataques terroristas no metrô de Madri, ou no centro de Bagdá, ou em alguma rua de Beirute? Onde a beleza dos massacres, principalmente de crianças, mulheres e velhos, no Iraque, na Faixa de Gaza ou no Afeganistão?
Como vislumbrar poesia na fome, no abandono, na depredação da natureza etc.etc.etc? Ocorre que, mesmo nessas distorções, há vida. Certamente Drummond quis referir-se a ela, quando fez essa espécie de desabafo.
Talvez o escritor de Itabira tenha pretendido fazer uma critica a muitos que posam como poetas e que, no entanto, escrevem um monte de besteiras, linhas e mais linhas eivadas de pornografia barata e de palavras desconexas, muitas, inclusive, grafadas erradas, que entendem por poesia.
E há tolos que aplaudem, babando, essas garatujas, feitas para enganar trouxas, e consideram seus autores como gênios, talvez reencarnações de Camões, de Fernando Pessoa, de Manuel Bandeira ou de Vinícius de Moraes. Questão de gosto! Ou, para sermos mais precisos, de falta dele. O que fazer?
Mas os jornais não têm somente notícias, mas também opiniões e crônicas. Nestas últimas, sim, há poesia, principalmente se o cronista é bom. Textos de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Lourenço Diaféria, do próprio Drummond, de Henrique Pongetti, Rachel de Queiroz etc.etc.etc. nunca cansavam (e nem cansam, quando relidos). Não ferem o senso crítico e, simultaneamente, agradam à sensibilidade.
Suas crônicas, imortalizadas em livros e antologias (e hoje, na internet), que muitas vezes abordam temas pungentes e dramáticos, não irritam, não agridem e não chateiam. Pena que desapareceram dos jornais, com a morte desses sublimes cronistas.
Já não temos mais, por exemplo, além dos mencionados, um Vinicius de Moraes. Há quarenta anos estamos privados do humor inteligente de Sérgio Porto, que assinava seus textos com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.
Guilherme de Almeida, e seus deliciosos “Ecos ao longo dos Meus Passos”, desapareceram com o poeta. Rubem Braga e Fernando Sabino deixaram de nos deliciar com suas historietas saborosas e às vezes hilariantes. Quem não se lembra de “O Homem Nu”, transformado em livro e até em filme? Qualquer pessoa está sujeita a ser flagrada em situação ridícula como a do personagem. Por isso, ela é engraçada!
Hoje os cronistas estão cada vez mais sisudos, mais mal-humorados, mais amargos e por isso chatos. Poucos têm coragem de escrever na primeira pessoa. Suas crônicas só nos trazem mais tensões (claro que há exceções. Sempre há!), mais preocupações, mais aborrecimentos, rivalizando com os articulistas.
Estão deixando de lado aspectos aparentemente banais do cotidiano que, na verdade, são muito mais importantes do que muitos podem supor. Ninguém está defendendo, obviamente, a alienação. Mas para quem deseja estar em dia com a realidade, basta ler o noticiário. A principal característica da crônica é, exatamente, o bom-humor, a leveza, o descomprometimento.
Drummond constatou, a esse respeito, em um texto que publicou em outubro de 1979, no Jornal da Tarde: “Pobre cronista urbano, teus assuntos cheiram a reclamação e protesto, e acabas ao lado da coluna de cartas de consumidores, aborrecidos com a má qualidade dos eletrodomésticos, que pifam uma semana depois de instalados, ou nem chegam a funcionar”. Não é o que está acontecendo?!
O engraçado é que os editores, sob a argumentação de que, em virtude de se tratar de um espaço precioso, o jornal deve abordar assuntos que eles consideram sérios, dão prioridade a artigos sobre temas políticos, econômicos e sociais (estes, mais raramente), em detrimento da leveza da crônica.
Os articulistas colocam-se como donos da verdade, criticando tudo e todos, em postura, na maioria das vezes, carregada de arrogância. Quantos conseguem, de fato, o beneplácito do leitor e são lidos? Poucos! Pouquíssimos! Ademais, seus textos são tão efêmeros, tão perecíveis, tão passageiros, quanto o próprio noticiário, que os enseja.
O leitor se lembra, assim de estalo, de memória, de algum articulista do século XIX? Claro que não! É possível que nem se lembre de alguém que tenha publicado pomposo e panfletário comentário sobre a crise política (não fosse o Brasil o país das crises) há 30 dias, quando não há uma semana. Mas não se preocupe. Não é a sua memória que é falha.
Se o texto não durou, foi porque não tinha importância. Cronistas, porém, há aos montes, inclusive o sublime Machado de Assis, para citar um dos melhores, se não o melhor deles. A fragilidade da crônica, portanto, é ilusória. Há enorme sabedoria por trás da sua aparente banalidade. É ela que capta a alma do povo, seus costumes, suas reações, seus gostos e desgostos, que variam de tempos em tempos e de pessoa para pessoa, mas conservam uma inegável identidade.

Sunday, December 18, 2005

Um toque de letra

Pedro J. Bondaczuk


A literatura, que se propõe a ser um ato de criação em cima da realidade, ou que pelo menos tem, em geral, nela seu parâmetro de verossimilhança, peca por não abordar, com a freqüência desejável, um dos fenômenos de massa mais representativos do mundo atual: o futebol.
Aliás, não é só ela. À exceção do cinema, e da música popular, que vez por outra traz canções homenageando, ou pelo menos citando, um clube ou outro ou um ídolo aqui, outro ali, outras formas de arte raramente exploram esse filão quase que inesgotável.
Contudo, o tema presta-se, e muito bem, a diversas expressões artísticas. Por exemplo, que riqueza plástica o pintor e o escultor deixam de aproveitar, nos movimentos dos jogadores, no momento do chute, na explosão do gol e até numa jogada de bola dividida!
Para a dança, então, é um campo vasto. Basta que os coreógrafos deixem a imaginação trabalhar à solta. Muitos poderão me contestar por abordar, neste espaço nobre da internet, destinado à opinião e à reflexão, um assunto considerado “não sério”. Afinal, podem argumentar, trata-se de um jogo, de um espetáculo, de um lazer, de uma forma de diversão. Mas isso não é importante?! Depende do critério adotado para definir “importância”.
Raros são os contos, em nossa literatura, que exploram o futebol. Conheço dois ou três em que a modalidade é enfocada, aliás, subsidiariamente, não como tema principal. Poemas só são compostos e divulgados em épocas de Copa do Mundo, isto quando são. Em 2002, a “Folha de S. Paulo” publicou (não me lembro se na editoria de Esportes, ou se na Folha Ilustrada ou se no caderno Mais), alguns textos no gênero, muito bons, por sinal.
Mas foi só. Passada essa competição internacional, que mobiliza em torno de dois bilhões de pessoas ou mais (dizem que desperta a atenção de metade da humanidade), o assunto é prontamente esquecido, embora freqüente, com enorme assiduidade, nosso cotidiano. João Cabral de Mello Neto foi um dos raros poetas que incursionaram pelo tema. Compôs um antológico poema em homenagem ao supercraque Ademir da Guia.
Romance, que eu saiba, não existe nenhum que se passe num clube ou que envolva jogador, diretor ou treinador de algum time. Isso sem falar no torcedor, em especial nos integrantes das torcidas organizadas, que vivem freqüentando manchetes policiais pelas estripulias que causam, notadamente nas grandes cidades, em dias de grandes clássicos. Pode até ser que existam, mas são tão poucos, e tão mal divulgados, que pouca gente conhece. Eu, pelo menos, não conheço.
E por que esse preconceito, ou, pelo menos, omissão? Não se trata de uma realidade, onipresente, do mundo contemporâneo? Não é uma atividade que movimenta somas de dinheiro incríveis e que desperta tantas e tão contraditórias paixões mundo afora?!
No caso dos cronistas, até que se entende. E no dos articulistas, entende-se mais ainda. Nestes tempos bicudos, onde faltam líderes e abundam os canalhas e os corruptos, as pessoas usam o futebol como mera válvula de escape das tensões do dia-a-dia, como uma forma de catarse coletiva, uma espécie de fuga da realidade. O pior é que acabam se fanatizando. Muitos encaram, por exemplo, a paixão pelos seus times, como uma religião. Aliás, dão mais importância a eles do que às denominações religiosas a que dizem pertencer. O que fazer? O errado, no caso, não é, evidentemente, o futebol, concordam?
Gosto pelo esporte, aliás, muitos escritores têm e tiveram e sempre fizeram questão de não esconder de ninguém. Foram os casos, para citar apenas dois, de Mário de Andrade e de Nelson Rodrigues (especialmente este último, torcedor ferrenho e apaixonado do Fluminense do Rio de Janeiro). Mas poderíamos mencionar muitos e muitos outros que, no entanto, ficaram nos devendo obras-primas tendo o esporte bretão (que se diz nascido no século XIX na Grã-Bretanha) como tema.
Aqui em Campinas, onde resido, se algum cronista quiser publicar, nas colunas dos jornais da cidade, fora da editoria de Esportes, algum texto leve, abordando Ponte Preta e Guarani, por exemplo, dificilmente vai conseguir. E caso a crônica seja publicada, será, certamente, com reservas. Afinal, o assunto não é considerado “sério”. E, no entanto, raros são os campineiros, que gostem de esporte, que não torçam para um desses dois times. A mesma coisa ocorre em outras grandes cidades em relação aos seus grandes clubes. Preconceito estranho e, sobretudo, bobo, não é verdade?

Saturday, December 17, 2005

Gigantes da comunicação

"A História é uma sucessão de mudanças efêmeras, enquanto os valores eternos se perpetuam fora da História, são imutáveis e não precisam de memória". Estas palavras são do escritor checo Milan Kundera, no romance "O Livro do Riso e do Esquecimento". O homem não se conforma com sua mortalidade e busca, através do volátil instrumento que denomina de "poder", preservar algo que o lembre num futuro distante, através de obras e ações (boas ou más). Jamais saberá se logrou seu objetivo. A morte não deixa. E a maioria nunca consegue o objetivo de permanecer na memória dos povos.
Outros, perpetuam-se em decorrência da sua crueldade, da sua loucura, da sua sede de sangue ou da sua ganância desmedida. São os casos dos Calígulas, dos Neros, dos Átilas, dos Alaricos, dos Gensericos, dos Gengis Khans, dos Hitlers etc. etc.etc.
A História (da qual, atualmente, o jornalismo é o registro, no momento em que os fatos acontecem) quase nunca faz justiça aos que merecem, pela postura que assumem, pelos valores que defendem, por sua inteligência e pela força do seu caráter, em suas páginas, quase sempre banais. O que realmente importa na vida dos povos não ganha espaço em seus episódios. Ainda assim, os que defendem os valores eternos e imutáveis, os que vivem e morrem por eles e os propagam com a força do exemplo, sobrevivem ao tempo e ao esquecimento.
Estes conquistam espaço no coração, e na mente, dos homens, na sucessão de gerações. Tornam-se sagas, lendas, mitos. São os casos de dois contemporâneos que nunca se conheceram, com origens, idéias, crenças e procedimentos absolutamente diferentes, mas com um elo comum: o poder das palavras que utilizavam como únicas armas. São dois gigantes da comunicação em todos os tempos.
Referimo-nos ao poeta grego Homero, autor das epopéias "Ilíada" e "Odisséia" (o “jornalista” daqueles tempos em que sequer o alfabeto havia sido inventado) e do profeta e juiz judeu Elias, cujo procedimento foi revestido de tamanha retidão, que "subiu aos céus numa carruagem de fogo" e jamais conheceu a morte, conforme relato bíblico. Há certas coincidências que comprovam a afirmação de que "não há nada de novo debaixo do sol".
Pode parecer aos desavisados que estou fugindo do tema a que me propus a abordar no Comunique-se, ou seja, o jornalismo em seus mais diversos ângulos, aspectos e situações. Todavia, não fugi. Trata-se de um tema original, dos primórdios da comunicação. É uma espécie de proto-história dessa atividade fundamental e indispensável à civilização.
Na minha juventude – fato que eu atribuía à minha inexperiência e aos lapsos existentes em minha cultura – sempre relacionei estes dois homens, Homero e Elias, mesmo sabendo que ambos nunca se encontraram e pouco ou nada tinham em comum. Confesso que nunca me dei conta que eram contemporâneos. Aparentemente, um nada teve a ver com o outro. Onde, pois, a relação? Sempre busquei esse elo, em vão. Mas pensava, nem sei porque, talvez intuitivamente, nos dois juntos.
Recentemente, lendo o excelente livro do jornalista e escritor sérvio Milorad Pavitch, "O Dicionário de Kazar", dei com um trecho absolutamente inesperado. O autor coloca na boca de um de seus personagens (históricos), o monge grego Metódio, santo da igreja ortodoxa russa – o sacerdote, ao lado de São Cirilo, foi um dos responsáveis pela civilização e cristianização da Rússia, dotando-a do alfabeto que utiliza até hoje, o cirílico – uma reflexão instigante. Relaciona os dois grandes homens, que jamais se conheceram, mas se tornaram imortais.
Diz o texto: "Pensava em como Homero tivera mares e cidades no seu imenso império poético sem desconfiar que em uma dessas cidades, em Sidon, vivia o profeta Elias, que se tornaria cidadão de um outro império poético – o Livro Santo – tão vasto, eterno e poderoso quanto o de Homero. E Metódio perguntava-se, finalmente, se esses dois contemporâneos tinham-se encontrado em algum momento, Homero e o profeta Elias, o tichbita da Galaad – ambos imortais, ambos armados apenas com a palavra, um cego e voltado para o passado, outro vidente obcecado pelo futuro, um grego que cantara a água e o fogo melhor do que todos os poetas, outro, um judeu que premiava com a água e punia com o fogo usando a sua capa como ponte".
Está aí o elo entre ambos: a preocupação com os extremos. Um descreveu, com seus versos geniais, a saga de deuses e heróis no convívio com os humanos. Outro, conduziu os homens do seu tempo e lugar aos pés do único Deus. Um relatou os passeios de Apolo em sua carruagem de fogo pelos caminhos do céu (o que foi transmitido, de boca em boca, de geração para geração, pelos gregos). Outro, foi arrebatado e conduzido a um lugar que desafia a imaginação das pessoas, muito além da Terra e do Sistema Solar.
Não foi a História, porém, que perpetuou estes dois gigantes do gênero humano: foi a sua grandeza. A conclusão destas reflexões só poderia, mesmo, ser a de Pavitch, neste magnífico trecho do seu livro: "Nunca duas coisas tão grandes estiveram tão próximas uma da outra". Nunca mesmo! E, no entanto, jamais se encontraram...

Friday, December 16, 2005

Curiosidade e educação

Pedro J. Bondaczuk


“A curiosidade é a mãe da sabedoria”, diz conhecido dito popular, que ouvi um dia, há muito tempo, na tenra infância, e não esqueci jamais. Trata-se de verdade óbvia, da qual poucos se dão conta, mas que a prática comprova, de forma insofismável. Quem não é curioso, no bom sentido, não se sente motivado a aprender coisa alguma, por mais que necessite desse aprendizado, mesmo que invista nele todos os recursos de que dispõe. Até aprende, mas com sacrifício, com muito esforço e, não raro, com sofrimento. Este deveria ser, portanto, princípio básico da educação.
A criança precisa, desde tenra idade, ter sua curiosidade despertada, espicaçada e estimulada, em relação a tudo o que a cerca, não importa se a coisas concretas ou a idéias abstratas, se a pessoas ou a objetos, se a acontecimentos ou se a princípios.
Não é, infelizmente, o que ocorre em relação à maioria das pessoas. Pelo contrário, essa fome de conhecimento, via de regra, é inibida, em vez de ser saciada, de forma até inconsciente, pelos pais. E na escola, esse estímulo, que deveria ser constante, (convenhamos) também raramente ocorre, tornando o aprendizado uma coisa até chata, atado a rígidos currículos, a sensaboronas teorias e a frios esquemas, nem sempre inteligentes, atrativos ou até mesmo necessários.
É certo que saber não ocupa lugar. Mas precisamos de estímulo para aprender o que quer que seja. A palavra-chave é “motivação”. Temos que nos sentir curiosos a respeito de determinados conhecimentos para que os obtenhamos, sem muito esforço e com total prazer. Devemos ser desafiados a conhecer seja lá o que for. E não apenas ocasionalmente, vez ou outra, mas de forma permanente, diária e constante.
Sempre tive isso comigo e, por acaso, descobri, dia desses, que estou em excelente companhia a esse propósito. Recentemente, lendo o ensaio “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, de um dos maiores pensadores contemporâneos, o francês Edgar Morin (que tem mais de 50 livros publicados, boa parte dos quais traduzida para o português), inserido em uma publicação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), deparei-me com um trecho que reflete com exatidão o que concluí intuitivamente.
Diz: “A educação favorece a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Este uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade expandida e a mais viva durante a infância e a adolescência, que com freqüência a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar”.
Edgar Morin, para quem não sabe, apesar de ser um intelectual reputado, mestre de toda uma geração, que não precisa provar mais nada para quem quer que seja, é uma pessoa simples. Cultiva hábitos comuns e não faz pose de pensador, até porque não precisa. É como qualquer um de nós. Ou seja, trata-se de uma pessoa “normal”, da forma que entendemos normalidade.
Sheila Grecco constatou a seu respeito: “Edgar Morin detesta os estudiosos apocalípticos, assiste, sem preconceitos, telenovelas, gosta de western, usa laptop para escrever, navega pela internet, tem paixão pelo Carnaval e pelas mulheres brasileiras, ri da tecnoburocracia científica e, apesar disso ou exatamente por isso, é um dos maiores intelectuais franceses em atividade”.
Confunde-se, amiúde, educação com mera instrução, com treinamento, com adestramento para o exercício de determinada atividade ou profissão. Ela, no entanto, é um processo maior, muito mais amplo e abrangente. Começa logo após o nascimento e só termina no momento da nossa morte. É um exercício constante, permanente, incessante. Nunca estamos plenamente educados.
A educação envolve corpo e mente; comportamento individual e coletivo; tem como finalidade desenvolver, de forma integral, todo o imenso potencial que temos e, sobretudo, nos abrir as portas da realização pessoal que, em última instância, é o fundamento da felicidade.
Os mestres, claro, têm papel fundamental no processo educativo. Podem nos marcar positivamente para o resto de nossas vidas ou não passarem de pessoas que passaram por nossas vidas sem deixar nenhuma marca, quando não das que nos provocaram dolorosos traumas. Daí eu concordar com Henry Adams, que afirmou: “Um professor sempre afeta a eternidade. Ele nunca saberá onde sua influência termina”. É uma responsabilidade, convenhamos, para a qual nem todos estão preparados.

Thursday, December 15, 2005

Prosa é arquitetura

Pedro J. Bondaczuk


O escritor Ernest Hemingway, que também foi jornalista (e dos bons) nos ensina, com a credibilidade de quem conquistou um Prêmio Nobel de Literatura, que "prosa é arquitetura e não decoração interior". Ou seja, adverte os que pretendem se comunicar com os outros, através da difícil arte do texto, que este deve ser, antes de tudo, funcional. Sua beleza nasce de sua harmonia, de sua clareza e, sobretudo, de sua capacidade de passar um recado. E não pode se ater apenas à forma, embora esta seja importantíssima, e da correção gramatical, que é indispensável. Precisa ter um conteúdo que atraia esse ditador implacável, em cujas mãos estão tanto o sucesso quanto o fracasso de quem vive de escrever: o leitor.
Gustave Flaubert destacou que "quando se possui a idéia, a palavra jamais há de faltar". Mas quando esta não existe? Quando se pretende, por exemplo, redigir uma crônica que, por sua própria definição, se caracteriza pela leveza, pela descontração, pelo vislumbre de perenidade naquilo que é trivial, aparentemente sem importância, como as circunstâncias do dia-a-dia, ou um objeto absolutamente comum, ou uma emoção? Como agir? Aí é que está o problema.
A crônica... Bem, é uma complicação. E não somente para mim, mas para escritores com muito mais talento e vivência literária do que eu. É o caso de Paulo Mendes Campos, por exemplo, autor de tantos livros e textos publicados em grandes revistas nacionais e internacionais, que constatou: "Quem tem facilidade de escrever, não é escritor: é orador". É um consolo para cronistas menos experientes e menos famosos. Como encontrar um tema que seja, ao mesmo tempo, leve e que fascine o leitor? Como agradar esse ditador anônimo, mas implacável, cuja opinião (e cumplicidade) nos é tão importante?
Scott Fitzgerald dá uma dica: "Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas, e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar". Ou seja, é preciso um desnudamento emocional, mesmo que tenhamos escrúpulos em nos desnudar publicamente, em deixar à mostra nossas mais secretas angústias, nossos mais profundos receios e nossas mais protegidas esperanças, temerosos, quem sabe, do ridículo, ou de sermos acusados de cometer um atentado ao pudor.
Por essa razão, não é sem motivo que uma tela em branco do visor do meu microcomputador (até pouco tempo atrás era uma lauda em branco), causa tamanho terror em tantos cronistas (entre os quais, por que não, me incluo). Há momentos em que fico à beira do pânico, pois tenho compromissos a cumprir. Com o quê preencher todo esse espaço? O quê escrever, sem descambar para o ridículo? Com quais ingredientes compor uma crônica? Com sangue, com vísceras, com alma, com vivência, com vida, recomendam os grandes mestres.
Tenho, desde que cismei que era cronista (e isto há já dez longos anos), diariamente, uma experiência semelhante (guardadas as devidas proporções) àquele episódio bíblico em que o patriarca Jacó lutou com um anjo até o romper do dia, no Vale de Jaboc, para ser abençoado. Procuro, também, a bênção, mas de um tema, da clareza, da empatia e da capacidade de persuadir o leitor.
Não raro me questiono se tamanha preocupação não se deve, apenas, à vaidade. Aliás, nem estou, sequer, sendo original nesse questionamento. Ele foi feito, com extrema graça e criatividade, por meu saudoso poetinha dos Pampas, Mário Quintana. Esse mestre do texto e do talento poético nos legou estes versos, do poema "Da preocupação de escrever", que dizem: "Escrever...Mas por que? Por vaidade, está visto.../Pura vaidade, escrever!/Pegar da pena...Olha, que graça terá isto,/se já se sabe tudo o que se vai dizer!..." O pior é que muitos não sabem. Não raro, também não sei. Daí a conformação quase que “arquitetônica” deste despretensioso texto para o qual rogo a complacência dos leitores..

Wednesday, December 14, 2005

Dia de glória

Pedro J. Bondaczuk


O fato aconteceu na sexta-feira, 6 de junho de 1997, dia seguinte à decisão do Campeonato Paulista no Morumbi, em que o Corínthians, com um empate de 1 a 1 com o São Paulo, gol do ex-lateral esquerdo sampaulino André Luiz, se tornou o campeão da temporada. Mas poderia acontecer em qualquer época ou lugar, nas finais das várias competições de futebol pelo País afora.
Um homem, que chamaremos de João – o nome verdadeiro pouco importa –, aparentando, pela roupa que vestia (na verdade um uniforme), uma condição social bastante humilde, se aproxima de outro, impecavelmente trajado, com terno de lã e gravata de seda importados (provavelmente italianos), sapatos feitos a mão, também na Itália, identificado, simplesmente, como Klaus, com o qual se supunha tinha alguma intimidade. Não muita, é verdade.
No olhar do primeiro, um brilho de vitória e de superioridade. Agia como se tivesse obtido uma fortuna na loteria ou coisa assim. Ou como se tivesse passado em algum concurso público, conquistando uma vaga que lhe renderia além de salário milionário e toda a mordomia imaginável, um poder ilimitado sobre um batalhão de subalternos. Ou como se fosse um diplomata que houvesse sido agraciado com alguma cobiçada embaixada, pela qual tivesse lutado a vida toda.
João esmerava-se em louvar as virtudes do Timão: a velocidade de Mirandinha, o toque de bola refinado de Donizeti, a raça e a categoria de Antônio Carlos, a colocação perfeita de Ronaldo embaixo do travessão, a agilidade, inteligência e precisão no chute de Marcelinho Carioca e, é claro, a coragem e a visão de gol de André Luiz.
Enfim, exaltava o, para ele incomparável, talento de todo o time corintiano, até dos reservas e juniores, sem esquecer do técnico, do auxiliar deste, do treinador de goleiros, do médico e até do massagista. Se bobeasse, teceria loas para os garotinhos da equipe da categoria dente de leite, que mal estavam aprendendo a dar os primeiros toques na bola.
Klaus, por seu turno, um tanto constrangido e cabisbaixo, como se estivesse diante de um chefe poderoso e sábio, de cujo humor dependeria todo o seu futuro, ouvia, calado, curtindo uma imensa humilhação. Vez em quando, ensaiava apresentar algum argumento. E este era, invariavelmente, o de que o Tricolor não perdeu o jogo decisivo. – "Deixou de conquistar o título apenas em decorrência do regulamento" –, insistia, sem nenhum entusiasmo e nenhuma convicção. E, de fato, não convencia o interlocutor.
A cada tímida intervenção, logo era atropelado por João, que agia como se fosse o dono do Corínthians, ou no mínimo o seu treinador, Nelsinho Baptista. Ou algum diretor, quem sabe. Ou representante do patrocinador do clube. Não era nada disso, é claro! Não passava de um pobre coitado, sempre às voltas com a cobrança da patroa, com o assédio dos cobradores e com as crescentes dificuldades para prover o mínimo de sustento à família.
Sequer sócio do clube conseguia ser. Não teria como pagar as mensalidades. Os meninos, dois filhos, um de doze e outro de catorze anos, estudavam em um colégio municipal decadente da periferia, onde traficantes de drogas tinham livre trânsito. Bem que gostaria de colocá-los numa escola particular, dessas bem caras, que garantem um ensino de primeira qualidade e mantêm os estudantes a salvo, ou pelo menos mais distantes, da maconha, do crack e da cocaína. Mas como fazer isso, com esse salário miserável, de fome, que recebia, que mal dava para pagar o aluguel do barraco, na favela da Vila Prudente, no qual se "escondia"?!
Afinal, aquilo nem era morar. Era, simplesmente, se esconder. Além de tudo, precisava estar sempre esperto, e atento, para se livrar do assédio e da ameaça dos marginais e, principalmente dos traficantes, que impunham a lei, a ferro e fogo, a poder de balas, naquele violento pedaço de São Paulo.
Um gosto, porém, João, mulato espigado, banguela, com apenas dois dentes na frente, na arcada superior da boca, com uma extensa e feia cicatriz no rosto, tinha, e que lhe causava imenso orgulho: não perdia um único jogo do Coringão dentro do Estado de São Paulo. Fora, era muito difícil de acompanhar, pois não tinha como bancar as viagens. Ainda assim, durante o último Campeonato Brasileiro, chegou a participar de caravanas para o Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Curitiba, onde quase morreu de frio.
Fiquei pensando, com os meus botões: "como é estranho esse negócio de torcida...A pessoa diz que torce para determinado clube e pronto. Todos acreditam. Não pode estar mentindo? Isto nem passa pela cabeça dos outros. Saboreia as vitórias como se fosse uma façanha sua, pessoal. E tripudia sobre os adversários, encarados com inferioridade, porque 'seus' times não conseguiram as conquistas obtidas pelo 'dela'".
Depois de meia hora, ou pouco menos, saboreando o triunfo, posando de soberano, com ares de imensa sabedoria e de quem é dotado de supremo bom gosto, João teve um rápido e raro instante de condescendência com sua "vítima". "Pelo menos vocês chegaram à final. E o Porco? Que vexame!", afirmou, triunfante, quase tão feliz com o fracasso palmeirense quanto com o sucesso do Corínthians.
Klaus, do alto dos seus um metro e oitenta de altura, cabelos loiros e bem cuidados, olhos azuis e brilhantes denotando ser pessoa de saúde perfeita, porte atlético de quem se alimenta do bom e do melhor, freqüenta academias de ginástica, passa férias em Cancun, Paris ou Miami e mora numa confortável mansão no Morumbi, deu um tapinha amistoso nas costas do interlocutor, com seus dedos delicados, de unhas bem aparadas e protegidas com esmalte incolor, e entrou, desolado, em sua Mercedes do ano.
Era físico nuclear de uma estatal, formado pela USP, com pós-graduação na Alemanha e estágios na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Como João, também tinha dois filhos, ambos, igualmente, com doze e catorze anos. Estava longe deles, atualmente, já que os meninos estudavam em um colégio interno caríssimo, situado em Genebra, na Suíça e só voltariam para casa nas férias do fim do ano.
João, sentindo-se o dono do mundo, prosseguiu o seu caminho, empurrando, com alegria, o seu carrinho de lixo, feliz como passarinho. Era o gari responsável pela limpeza na frente da empresa onde Klaus trabalhava e era um dos principais chefes. Coisas do futebol...

Tuesday, December 13, 2005

Onipresença da solidão

(Este poema foi composto há mais de 40 anos, em 17 de agosto de 1965. Lembro-me que não gostei dele e joguei-o no lixo. A arrumadeira de casa, não sei porque cargas d'água, recolheu-o e guardou em uma de minhas gavetas. Anos depois, fazendo arrumação, encontrei-o. Quis jogar fora outra vez, mas findei por guardá-lo. Por estes dias, encontrei-o de novo e resolvi compartilhar o texto com vocês).


Viajo...
O trem
rodando
pesado
nos trilhos
e a brisa
cantando,
e o mundo
correndo,
casas,
árvores
animais
carros,
pessoas
voando, voando,
surpreendem-me
calado
e só!

Estou só... estou só... estou só...
Murmura
o bólido
deslizando
nos trilhos.

Crianças sorrindo...
Mulheres sorrindo...
Velhos sorrindo...
Profusão de sorrisos!

E o murmúrio
martela
em meu
ouvido:
Estou só...estou só...estou só...

Pessoas andando,
pessoas falando,
pessoas gritando,
pessoas que lêem:
pessoas felizes?

E o trem
murmura:
Estou só...estou só...estou só...

Jovens de mãos dadas com a esperança,
velhos de mãos dadas com a experiência,
crianças de mãos dadas com o futuro.

Contudo eu,
solitário,
sou todo ouvidos
para o estribilho:
Estou só...estou só...estou só...

Pessoas estranhas se encontram.
Olhares furtivos se cruzam.
Mãos ansiosas se enlaçam.
Lábios sequiosos se juntam.
No túnel escuro do acaso
amores se perdem, se acham.

Todavia
sigo a
ouvir:
Estou só...estou só...estou só...

O trem pára.
(a vida não pára,
apesar da morte)!
Crianças pobres vendem confeitos,
crianças felizes compram o supérfluo.
Pessoas mastigam.
Pessoas fumam.
Pessoas sorriem.
Pessoas felizes?

O trem vai partir
(como a vida?)
pro seu destino.

E volto
a ouvir:
Estou só...estou só...estou só...

Chego, afinal.
(Meu Deus, onde?!).

Saio do trem e da estação.
Subo as escadas da Luz,
com a maleta na mão.

Caminho por uma rua
entre milhares de sombras,
ariscas, velozes, opacas,
formigas apressadas
que se chocam, tontas,
anônimas, sem rumo.

Mas vago só
com meus pensamentos.
Meus passos, plangentes,
murmuram na calçada:
Es-tou só...es-tou só...es-tou só...

Caio em desespero.
Seria a loucura?!
Entro num beco.
Dou vazão ao recalque
em incontido soluço
que mais parece refrão
de algum bailado russo:
Es-es-tou sóóó...es-es-tou sóóó...es-es-tou sóóó...

Chego, afinal, em casa.
Ligo o rádio
(não existe rádio!).
Pego um livro
(eu não tenho livros!).
Somente o silêncio,
indecoroso e venal
e o vôo de uma mosca
que zumbe, monótona:
Essssstou ssssssó...esssssstou sssssó...essssstou sssssssó...

Por fim durmo.
É sono pesado
e sem sonhos:
prefiro estar só!!!

Monday, December 12, 2005

No princípio era o verbo...

Pedro J. Bondaczuk


O meu mundo é o das palavras. Pesquiso-as, sorvo-as, bebo-as, uso-as, faço delas minha voz, minha vez, minha forma de ser e de dizer presente diante dos meus pares. São meu instrumental, meu ar, minha luz intelectual, o alimento do meu espírito, a matéria-prima dos meus sonhos, dos meus versos, das minhas elucubrações. São a minha forma de ganhar o pão sagrado e indispensável de cada dia. São meu credo, meu objetivo, minha alegria e minha preocupação. Desde que surgiu o primeiro ser inteligente no mundo, vivemos por palavras, lutamos por palavras, morremos por palavras.

Os grandes líderes da espécie humana, os guardiões do sagrado ou do profano; os mestres sublimes como Cristo, Buda, Maomé, Lincoln, Gandhi; ou os verdugos do gênero humano, como Alexandre, Júlio César, Átila, Napoleão ou Hitler; os poetas e os profetas; os filósofos e os feiticeiros; os disseminadores das ciências e os arautos do obscurantismo fizeram delas o seu instrumental de luz ou de trevas, de liberdade ou de opressão, de inteligência ou de ignorância. de grandeza ou de miséria.

Nunca vou me cansar de lê-las, de estudá-las, de aprendê-las, de dissecá-las, de entendê-las, de utilizá-las para dar corpo aos meus sonhos. E como são caprichosas! Como são mutantes, volúveis, instáveis, sensíveis! Pablo Neruda lembrou, em um magistral poema: "Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que lhe obedeceu./Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes./São antiqüíssimas e recentíssimas./Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada..."

Diz-se que o homem foi feito "à imagem e semelhança de Deus". Esta parecença, porém, estes sutis traços semelhantes, essa identidade que nos torna "filhos" do Criador do Universo, não estão no físico, no tamanho, no peso, na altura, na beleza, na glória ou na resistência. O homem é pequeno, é frágil, é feio, é miserável e é fraco. A "semelhança" reside na possibilidade mágica, fantástica, miraculosa de se comunicar através de signos coerentes e inteligíveis para todos. Nessa magia, nesse encantamento, nesse milagre que é a palavra. Porquanto, "no princípio era o verbo...", que sempre pré-existiu e continuará existindo quando (ou se) já não mais houver matéria, energia, cosmo, espaço, vazio...

O professor norte-americano Stephen Greenblatt lembra que "nossas palavras estão cheias de vestígios que sequer compreendemos completamente quando falamos, de vozes que existiram no passado e silenciaram, estão mortas. Nossas vidas estão cheias das presenças fantasmagóricas de nossos ancestrais, de nossos pais, de nossos avós, das figuras que nos tocam e em relação às quais tentamos nos situar". Sinto que a única chance que tenho para que, com a minha morte (fatalidade impossível de evitar) não desapareçam todos os vestígios de que existi, amei, odiei, trabalhei, sofri, fui feliz, acertei, errei e aspirei à imortalidade, é a palavra.

Mas essa essência da sabedoria universal requer talento no trato. Exige que quem dela se utilize – quer no relacionamento corriqueiro do cotidiano, quer na nobreza do raciocínio – o faça com competência, com atenção, com carinho. Mark Twain alertou que "palavras são como granadas. Quando usadas inadequadamente, explodem". Seu uso desastrado propicia desentendimentos, conflitos, separações, ódios, incompreensões, guerras e mortes. Frustram, humilham, aborrecem, desanimam, matam.

O poeta Fagundes Varela considera-a a "mais forte das armas, a mais firme, a mais certeira", que provoca os maiores estragos na alma humana. Daí as noites insones e a faina incansável dos dias para entendê-las, dominá-las, absorvê-las, aprender a manejá-las com cuidado, com amor, com competência, para construir, para consolar, para engrandecer, para solidarizar, para defender os indefesos, para condenar as injustiças, para reivindicar direitos.

A tarefa é superior às minhas forças e os resultados são incertos. Faço parte dessa confraria dos sonhadores, desses criadores de castelos imaginários e de mundos inexistentes, conhecidos como "escritores". Por isso, como Guilhaume Apollinaire, rogo às gerações futuras, ao que daqui a dez, quinze, vinte, cem anos ou mais eventualmente lerem estas linhas: "Piedade para nós, que exploramos as fronteiras do irreal!!!"

Sunday, December 11, 2005

Lance fatal - Final

(Continuação)


Prenda já havia penetrado na grande área. Viu um vulto negro jogar-se a seus pés. Os pulmões estavam estourando, por falta de ar. Não conseguia respirar. O ar parecia de chumbo, de tão pesado. Uma névoa toldava-lhe a visão. Os ouvidos zumbiam.
Sentiu que iria desmaiar. A última coisa que lembrou foi o rosto bonito de Denise e seu sorriso de arrebentar coração. E visualizou a cara de espanto e de raiva do italiano. Tudo escureceu...
A torcida explodiu no estádio. Uma loucura coletiva apossou-se da multidão, que urrava, cantava, sapateava e extravasava sua euforia. O policiamento foi impotente para conter as pessoas que pulavam o alambrado para invadir o campo. Era um delírio nunca antes visto por aquelas bandas. Muita gente estava sendo pisoteada no corre-corre que então se estabeleceu.
Uma imensa aglomeração se formou ao redor do Prenda, que estava esticado dentro da rede. Havia entrado com bola e tudo. Um coro de "é campeão" ecoava por todos os cantos. O heróico zagueiro permanecia imóvel dentro do gol, com os olhos vidrados.
A princípio, todos pensaram que ele estivesse fazendo cera, para ganhar tempo. Vicentinho gritou para abrirem espaço.
--- "Ele desmaiou de emoção! Abre, para que ele possa respirar" –, comandou o jogador, empurrando os que teimavam em se aglomerar em torno do Prenda.
O árbitro ordenou que o atleta inconsciente fosse retirado do campo, para autorizar uma nova saída do Estrela Vermelha. Isso, aliás, parecia impossível, pois havia mais de três mil pessoas no gramado, festejando, abraçando os jogadores, cruzando o campo de joelhos.
Prenda foi carregado, inerte, nos braços do massagista, um negro forte e atarracado, espécie de mascote do time. Os torcedores, a custo, arredaram para as laterais do campo. Dada a saída, o árbitro encerrou o jogo. Queria evitar qualquer possível complicação, que poderia pôr, até, a sua vida em risco. Saiu correndo para o vestiário, sem olhar para trás.
A comemoração assumiu aspecto de loucura. A festa era verdadeira catarse coletiva, em que os torcedores descarregavam todos os seus problemas, pessoais, domésticos, profissionais, econômicos, ou fossem quais fossem, não importa. Era uma descompressão, talvez um tanto exagerada, para os recalques populares, como já havia acontecido tantas e tantas vezes, em uma infinidade de lugares desse país do futebol.
Gente pagava promessa, atravessando o gramado, de joelhos. As redes foram arrancadas pelos torcedores e seus pedaços disputados a tapa, para servirem de lembrança da memorável conquista. Até as duas traves desapareceram e ninguém sabe quem as levou e para onde.
Bandeiras do clube foram plantadas, com orgulho, no grande círculo do campo. Todos queriam alguma recordação desse momento, que em breve seria esquecido, e só lembrado, de maneira distorcida, já em forma de lenda, muitos anos depois, pelos saudosistas.
Por alguns instantes, na euforia das comemorações, os torcedores haviam até esquecido do grande herói do dia, que soube buscar, com garra, a compensação de uma falha individual. Até que um, mais fanático, cismou que queria a camisa do Prenda, o mais cobiçado troféu dessa jornada gloriosa.
Logo, uma multidão histérica juntou-se ao solitário torcedor e dirigiu-se para a lateral do campo, próxima à mesa do representante da Federação Paulista de Futebol, onde o craque ainda estava sendo atendido, imóvel, como fora retirado de dentro da rede pelo massagista. O médico balançava a cabeça, desconsolado, impotente para fazer qualquer coisa.
A notícia, circulando de boca em boca, acabou, de súbito, com o clima de euforia existente. Como se o ato fosse ensaiado, todos calaram-se ao mesmo tempo no estádio. Era possível ouvir-se até uma mosca voando. Para a estupefação geral, o massagista do clube, tomado por um convulsivo e incontrolável ataque de choro, informou, desolado, entre soluços:
--- "Gente, o Prenda morreu!!!

Saturday, December 10, 2005

Lance fatal - Parte 5

(Continuação)


--- "Chuta, chuta desgraçado!" – , gritou o lateral direito Carlinhos.
--- "Solta! Estou livre!" –, pediu o ponta Esquerdinha.
O Torniquete encostou junto ao Prenda, para receber a bola. Era o lateral esquerdo do time e tinha fama de decidir partidas, vindo sempre de trás, para arrematar a gol. Tinha boa pontaria. Seu chute era forte e certeiro. Era o batedor oficial de faltas do Serra Azul.
--- "Ô Prenda, fominha, quer levar a bola pra casa?!!?" –, berrou o médio volante Zuza, doido para dar um chega pra lá no companheiro, irritado com a demora na conclusão do lance. O pior é que o tempo estava acabando e o time precisava, de qualquer maneira, fazer mais um gol.
--- "Chuta logo, Prenda, que o goleiro está se adiantando" –, preveniu, ansioso, o ponta de lança Marcão.
O gol estava agora muito próximo. O barulho da torcida era ensurdecedor. – "Não posso perder a bola agora" –, pensou o zagueiro central. – "Já fui muito longe para desistir! Vou furar a merda desta rede! Não! Melhor é entrar de bola e tudo!" –, pensava Prenda, já completamente sem fôlego pelo esforço sobre-humano que fazia.
Este lance decidiria a sua vida. Ou chutava fora e embolsaria a bolada do italiano, mas nunca mais poderia se ver no espelho, ou então fazia a jogada certa, dando a vitória ao seu time e se redimiria moralmente. O que fazer? Ó dilema!!!
Giácomo, depois daquela conversa no armazém, não voltou mais a procurar Pedro, ou Prenda, como queiram. Mas a idéia ficou martelando dias e dias em sua cabeça. Pesou os prós e os contras. Mudou seu humor. Tornou-se brusco e irritadiço. Denise atribuiu o seu mutismo à ansiedade natural pela decisão do campeonato, avaliação idêntica aos colegas do time.
As apostas sucediam-se na cidade, atingindo cifras astronômicas. Prenda tomou, na véspera do jogo, a decisão que julgava ser a mais acertada, que seria a saída para o seu dilema. Pediria ao técnico Cidinho para ficar de fora do jogo, alegando dores na coxa, ou qualquer outra contusão. O garoto revelação do juvenil do Serra Azul, Antenor, um negro espigado, que jogava com elegância e disposição, era um substituto à altura. Seria um sangue novo na equipe.
Mas, no íntimo, Prenda queria mesmo era disputar essa partida. Sabia que o garoto reserva, embora sendo craque, poderia tremer num jogo tão importante. A responsabilidade era excessiva para um jogador tão jovem. Se fracassasse, ficaria definitivamente queimado junto à torcida e ao técnico. Era sacanagem colocar o garoto nessa fogueira.
No vestiário, na hora da distribuição das camisas, decidiu falar com o Cidinho. O técnico reuniu todos os jogadores num círculo ao seu redor, para a preleção tática. Prenda estava distraído. Não teve coragem de pedir substituição. E foi repreendido por não estar prestando atenção na explanação do treinador.

(Continuação)

Friday, December 09, 2005

Lance fatal - Parte 4

(Continuação)


Denise, com os seus luxos e extravagâncias, havia, em pouco tempo, conseguido fazer com que o casal ficasse atolado em dívidas. Economia, para ela, era um palavrão. Agia como se dinheiro desse em árvore ou fosse capim. Comprava compulsivamente tudo o que via, fosse necessário ou supérfluo, não importa.
A nova casa, construída com enorme sacrifício, recentemente, era uma afronta à cidade. Destoava das demais residências, velhas e descoloridas, da vizinhança. Nem o prefeito, ou o gerente do banco local, moravam em palacetes tão suntuosos. E eles eram apenas dois.
A casa, uma mansão de dois pavimentos, estava localizada no Largo da Matriz, pouco além da acanhada Prefeitura de Serra Azul e se constituía, até, em ponto turístico da cidade. O carro que tinham era uma BMW do ano. Fora adquirido em São Paulo, numa empresa especializada em veículos importados.
As despesas com os empregados, necessários para manter em ordem o enorme palacete, daria para sustentar, durante três meses, com fartura, qualquer dos operários dessa cidadezinha pacata e acolhedora, mas relativamente pobre.
Jóias, vestidos, sapatos, discos e livros consumiam importâncias mensais tão altas, que Pedro não conseguia mais sustentar os luxos e caprichos da mulher, por mais que trabalhasse e economizasse no seu próprio conforto. Vezes sem conta o casal discutia por causa do desperdício de dinheiro.
Nessas ocasiões, Denise fazia drama, xingava, chorava e ameaçava deixá-lo, tendo, inclusive, uma vez, chegado a fazer as malas para ir embora. Mas quando faziam as pazes...!! Ah! as noites posteriores às brigas!! Que delírio! Pedro daria qualquer coisa na vida para não perder esses momentos de paixão e loucura.
Os braços quentes e macios de Denise em torno do seu pescoço...Os beijos demorados, úmidos e vorazes... O ventre morno, macio e cheiroso da sua deusa... O seu sexo, possessivo e ganancioso... Os seus seios, graúdos, empinados, durinhos e perfeitos... "Denise valia qualquer sacrifício!", concluía, embevecido.
E as dívidas continuavam se acumulando, numa pirâmide de avisos de protestos, promissórias vencidas e cartas de cobrança. O casal estava caminhando para o abismo da ruína financeira e parecia que nada conseguiria salvar os dois da catástrofe. Mas o quê importava?! O importante era não perder Denise, pensava Pedro.
Em Serra Azul, todos os endividados recorriam ao agiota mais famoso da região, um italiano barrigudo, pescoço curto, baixinho, ralos cabelos negros, sempre despenteados e um ar de permanente desleixo na maneira de se vestir. Chamava-se Giácomo Franchiti. Na verdade, era uma figura repulsiva e sobretudo temida, mas para muitos, era considerado a tábua de salvação.
Embora os juros que o agiota cobrava chegassem a 10% ou mais por mês, o que na época, em meados dos anos 70, era uma exorbitância, um roubo, uma cínica extorsão, pois representava quatro vezes mais do que o cobrado por qualquer banco, o carcamano era tolerante com atrasos no pagamento. Claro que cobrava pesadíssimas multas dos que se atrasassem. Mas ninguém ousava reclamar.
Metade dos moradores da cidade estava pendurada em dívidas com o italiano, que por essa razão, era uma figura respeitada, senão temida pela população. Corria o boato de que até o prefeito lhe devia uma quantia bastante alta, por causa de um empréstimo que teria feito para pagar uma chantagem feita pela amante, para que essa não denunciasse o caso que tinham há mais de cinco anos. Seria um escândalo! E o fim da carreira política do alcaide pulador de cerca. Pedro era um dos maiores, senão o maior devedor de Giácomo.
Dias antes do jogo decisivo do campeonato amador, o comerciante foi procurado em seu armazém pelo agiota. – "Preciso enrolar o italiano" –, pensou. – "Não tenho como lhe pagar agora". Giácomo aproximou-se do balcão e, com sua voz melíflua e macia e seu jeito hipócrita pediu uma pinga, que Pedro lhe serviu de imediato.
--- "Esta é por conta da casa" –, falou, no intuito de amaciar o ânimo do agiota.
--- "Então, como vai a vida, Prenda" –, perguntou o italiano, com ar de quem não quer nada.
--- "Difícil, sabe como é. Sei que estou atrasado no pagamento da promissória deste mês. Mas peço que o senhor tenha um pouco de paciência, que eu vou pagar. Sempre paguei, não é mesmo?! No dia 20 vou receber de alguns fregueses e aí eu acerto, está bom?!" –, disse o comerciante, receoso por uma resposta negativa do inflexível credor.
O agiota fez que não ouviu. Emborcou, de uma só vez, o copinho de pinga, fazendo caretas. Depois, fixou seus pequenos, espertos e perversos olhos negros em Pedro e disse, aparentando ares de casualidade:
--- "Não esquenta! E, a propósito, sabe que eu apostei muito dinheiro no jogo da decisão do campeonato da próxima semana?!".
--- "Fez bem! –, respondeu Pedro, em tom de bajulação. – "Em casa nós não vamos perder, de jeito algum, essa parada!" –, acrescentou com entusiástica convicção.
--- "Acontece que apostei que o Estrela Vermelha será o campeão! É uma grana preta a que estou arriscando nos pés desses marmanjos, mas tenho certeza de que vou ganhar uma bolada! O empate é meu!" – explicou.
--- "Chiii, seu Giácomo, o senhor fez uma grande bobagem! Jogando em casa, e com a torcida do nosso lado, não perdemos para ninguém, nem que o time todo jogue com as pernas amarradas! Acho que o senhor não tem chances!" – concluiu o comerciante.
--- "Pedro, você me deve duzentos mil cruzeiros novos, não é verdade?!" – disse de repente o agiota, mudando bruscamente de assunto, passando as mãos pelos ralos cabelos, empastados de brilhantina, num gesto aparentemente casual.
O comerciante gelou. – "Pronto, o carcamano agora vai me cobrar! Estou ferrado!" –, pensou, em desespero.
--- "Mas eu vou pagar, o senhor sabe disso! Estou pagando as parcelas quase em dia, não é verdade? Apenas neste mês atrasei um pouco. Mas já disse que no dia 20 eu acerto a promissória" –, respondeu Pedro, um tanto exaltado, irritado com aquela cobrança intempestiva e nada sutil.
--- "Calma! Você não entendeu. Não estou cobrando coisa alguma. Aliás, conheço um meio de você liquidar rapidinho, na semana que vem, com esta dívida" –, respondeu Giácomo, em tom conciliador.
--- "O que você quer dizer? –, perguntou Pedro, desconfiado, estranhando essa conversa.
--- "Apenas o que disse. Se você for esperto, na semana que vem, além de receber todas as suas promissórias quitadas, ainda pode ganhar qualquer coisa a mais, algo assim como quinhentos mil cruzeiros por fora" –, insistiu o agiota.
--- "Você quer me subornar! Está pedindo que eu amoleça o jogo?! Esqueça!" –, gritou, indignado, o comerciante, com um olhar ameaçador, a ponto de agredir o italiano.
--- "Você é que sabe. Se lembra daquela promissória de cem mil cruzeiros que assinou para o Carlos da farmácia? Aquela, vencida há cinco meses! Pois ela agora é minha. Posso mandar executá-la, se você preferir assim" –, rebateu Giácomo, com ar de triunfo.
--- "Ora, saia daqui, seu rato imundo, italiano filho da puta, antes que eu lhe parta a cara!" –esbravejou Pedro, corando, esbugalhando os olhos e cerrando os punhos.
--- "Calma, moço, já vou indo! Não se altere! Mas pense bem na minha proposta. Afinal, não é tão difícil fazer um golzinho contra, ou cometer um pênalti, num momento oportuno da partida. O que você tem a perder? Nada! É só um jogo de futebol, nada mais. Pelo contrário. Você só terá vantagens colaborando comigo. Além de ganhar um dinheirinho, ainda pode sair limpo, se souber fazer as coisas" –, retrucou Giácomo, sorrindo ironicamente.
--- "Sai daqui, seu patife imundo! Desgraçado! Miserável! Unha de fome filho da puta!" –, vociferou Pedro, saindo, ameaçadoramente, de trás do balcão, com a mão enorme engatilhando um soco, pronto para atingir o insolente. – "Ora, onde se viu! Tentar me comprar!" – pensou, indignado, o comerciante.
A diferença de tamanho e porte físico entre ambos era notável. Enquanto Giácomo, um homem maduro, de 45 anos, era baixinho, gorducho e todo maneiroso, Prenda era um gigante, um atleta, uma fortaleza.
Com seu porte avantajado, todo músculos, tinha dois braços que eram como toras. Uma eventual agressão equivaleria a uma tentativa de homicídio, tamanha era a desproporção entre os dois.
Giácomo era uma figura caricata, anacrônica, repulsiva, parecendo ter saído de algum almanaque antigo. Era ridículo. Trajava, costumeiramente, um terno cinza, provavelmente sempre o mesmo, dado o seu pão-durismo. Completavam a indumentária um colete ensebado e uma gravata borboleta muito velha.
--- "Calma, rapaz! Amanhã eu volto! Pense bem na minha proposta, sem falso moralismo, está bom?" – concluiu o italiano, já estrategicamente postado na calçada. Dito isso, retirou-se, de mansinho, cruzando, a passos rápidos, o Largo da Matriz.
Quando Giácomo saiu, Pedro, aos poucos, se acalmou. Não tardou para que a proposta do agiota não soasse mais tão indecente e absurda. – "Por que não?" –, pensou. – "Quem vai saber? E quem pode provar?" –, concluiu, intimamente decidido a aceitar o suborno e encará-lo como "normal" para as circunstâncias.

(Continua)

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