Saturday, January 28, 2006

Tecnologia boa, serviços nem tanto

* Pedro J. Bondaczuk


A tecnologia que possibilitou o desenvolvimento telefone celular (“aparelho de comunicação por ondas eletromagnéticas que permite a transmissão bidirecional de voz e dados utilizável numa área geográfica que se encontra dividida em células, cada uma servida por um transmissor/receptor”, conforme definição da Wikipédia), e sua ampla e crescente expansão, veio, como tantas outras, facilitar a vida do usuário. Tanto que alcançou, em dezembro de 2005 (conforme informaram as operadoras) 85,6 milhões de clientes no Brasil. Ou seja, mais do que a População Economicamente Ativa (PEA) brasileira e quase a metade de todos os habitantes deste país de dimensões continentais.
Ademais, ao contrário do que se apregoa, o tal do aparelhinho, em si, não se constitui em risco – nem físico e nem psicológico – a quem dele se utiliza, como algumas pessoas e instituições tentaram provar, e não conseguiram. O mesmo não se pode dizer, porém, das suas antenas. Mas esse é outro assunto, que merece considerações mais amplas e em separado.
Em resumo, este é o teor do que escrevemos no artigo divulgado na semana passada aqui neste espaço nobre do Comunique-se. Muita gente interpretou, no entanto (afoitamente), que estivéssemos, ao mesmo tempo em que defendíamos a excelência dessa tecnologia, tecendo loas às empresas que operam esse tipo de serviço no País.
Claro que não o fizemos e nem poderíamos fazer. Por mais mal-informados que fôssemos (e, acreditem, não o somos), sabemos, de sobejo, que a telefonia celular está entre os líderes de reclamações e problemas nos vários Procons espalhados pelo Brasil afora. E temos absoluta certeza que isso não ocorre por acaso. O brasileiro nem é tão ranzinza assim e raramente corre atrás dos seus direitos, o que prova que o atendimento é muito ruim.
A maior parte das queixas refere-se à falta de sinal, às tarifas abusivas (diríamos escorchantes) e à inexistência de detalhamento nas contas, entre outras tantas. Mas não é só isso. Não existe, por exemplo, nenhum sistema de proteção que impeça a clonagem dos aparelhos, o que se tornou verdadeira praga entre nós, trazendo prejuízos e contratempos de toda a natureza e, claro, uma dose cavalar de aborrecimentos ao descontente usuário.
Para que se tenha uma pálida idéia da extensão desse crime, somente na casa de um dos bandidos que se valem da fraude para ganhar dinheiro às custas dos incautos, localizada nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a polícia encontrou por volta de 300 aparelhos já clonados, prontinhos para seguirem para as mãos de detentos, nos vários presídios do Estado (e de fora dele), para que, através deles, pudessem comandar, de dentro das cadeias, seqüestros, assaltos, assassinatos, extorsões e sabe-se lá mais o quê.
Imaginem, até ser descoberto e preso, quantos outros usuários mais somente esse indivíduo não fraudou e prejudicou! E esta foi apenas a pontinha de um gigantesco iceberg. Com certeza, como ele, há muitos e muitos e muitos outros “espertalhões”, espalhados por aí, agindo impunemente, para desespero dos proprietários de telefones celulares.
Outro aspecto a considerar são os preços da telefonia no Brasil, notadamente da fixa. Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe) revela que a inflação acumulada entre 1994 e 2004 – nos dez primeiros anos de Plano Real, portanto – foi de 154,6%. Pois bem, nesse mesmíssimo período, as contas de telefones fixos subiram 706%!!!! Por que? As operadoras dão inúmeras explicações, nenhuma, todavia, convincente.
Daí a preocupação que elas têm com a vertiginosa expansão do “Voz sobre IP”, ou seja, dessa espécie de telefonia que se utiliza do computador, sem tarifas, sem taxas, sem reajustes, sem contas e sem a burocracia irritante e besta, que tanto desgostam os consumidores e que tentam, em vão, barrar. Convém ressaltar que a ligação do telefone celular é ainda mais cara do que a do fixo. Vai daí...
É verdade que a carga tributária brasileira, entre as mais elevadas do Planeta, é a grande vilã dessa história e tem muito, muitíssimo a ver com isso. O Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) constatou, por exemplo, que do tanto que o usuário paga em sua conta, no final do mês, 40% se constitui em impostos!!! E qual a justificativa para isso? Qual a razão dessa cobrança até absurda? Essa dinheirama toda, arrecadada pelo Fisco, reverte em benefício do consumidor? O governo diz que sim. A sociedade acha que não. Com quem está a razão? Cada um que responda com base na própria experiência!

Friday, January 27, 2006

E eles voltaram - Parte 6

(Conto de Natal)

(Continuação)

Como Tânya não parasse de chorar, desde o momento em que recebera aquele telegrama misterioso que tinha em suas mãos, comecei a ficar preocupado.
--- "Será que o problema é dela, envolvendo alguma coisa que lhe aconteceu enquanto esteve na aldeia ou é da correspondência, que trouxe alguma notícia tão ruim a ponto de abalar tanto uma pessoa tão equilibrada e jovial como minha irmã mais nova?" –, fiquei perguntando a mim mesmo, sem saber o que fazer.
O primeiro impulso foi o de tirar aquele papel, que ela amassava convulsivamente, de suas mãos. Não sei explicar porque, porém, algo me impedia de agir dessa forma. Uma sombra de mau agouro desceu sobre mim. Era um pressentimento de que aquela folha branca, com o timbre do Exército do czar, poderia modificar o meu destino. E eu tinha medo.
Nunca acreditei nessa história de sexto sentido. Aliás, sempre fui tido como o membro mais céptico, racional e equilibrado da nossa família. Jamais fui dado a arroubos místicos e quando um dia Andrei, meu futuro cunhado, falou sobre certas experiências que haviam sido feitas em Moscou, acerca de transmissão de pensamentos à distância, só pude dar um sorriso de mofa e de absoluta incredulidade.
Até hoje ainda costumo brincar com ele a esse respeito, zombando da sua ingenuidade em acreditar em tudo o que lhe dizem. – "Os moscovitas são cheios dessas invenções" –, disse-lhe na oportunidade, em tom de galhofa.
Lembrei-me que havia sentido essa mesma sensação estranha, que estava experimentando agora, no dia em que mamãe morreu. Corri para a cozinha e trouxe uma dose de conhaque para reanimar Tânya, que estava pálida, trêmula e prestes a desfalecer. Agora eu estava alarmado de fato!
Pensava em levar minha irmã à aldeia, para que o doutor Bóris desse uma olhada em seu estado, embora não confiasse muito no velho bêbado. Era bem possível que neste instante ele estivesse roncando, encharcado de vodca, como um urso vadio e desdentado, em estado de hibernação etílica.
A cor começou a voltar ao rosto de Tânya, após ingerir a dose generosa do conhaque que a forcei a beber, entre tosses e gemidos. Suas mãos já não estavam mais tão frias como antes, embora ela ainda não conseguisse articular qualquer palavra inteligível, em virtude dos espasmódicos soluços que lhe sacudiam todo o corpo.
Gentilmente, tirei o papel de suas mãos, mas não tive coragem de ler imediatamente. Dobrei-o, supersticiosamente, e o deixei na escrivaninha de papai, enquanto saía para o alpendre, para respirar um pouco o ar frio da tarde e meditar.
O céu estava escuro novamente. Nevava bastante, contrariando as previsões de melhoria do tempo. Tudo levava a crer que iria nevar a noite toda e talvez no dia seguinte inteiro. Yulka veio lamber-me as mãos, todo assanhado, e eu fiz um demorado carinho em sua orelha peluda.
Dentro de casa, podia ouvir, ainda, os soluços abafados de Tânya. – "Alguma coisa de muito ruim aconteceu com papai e Kyrillo" –, concluí. – "Somente eles poderiam provocar uma reação tão intensa em minha irmã, a predileta do velho" –, raciocinei.
Decidi enfrentar a realidade, fosse ela qual fosse. Subi primeiro para o meu quarto, para conferir uma dúvida que, de repente, me assaltou o espírito. Abri a cômoda e...Surpresa! Os presentes que havia ganhado, na noite passada, de papai e de Kyrillo, não estavam mais lá.
Desci a escada, como um raio, e fui perguntar a Tânya se havia mexido nas minhas coisas. Ela balançou a cabeça, em negativa. – "Estranho" –, pensei. – "A não ser minha irmã, ninguém mais esteve em casa" –, refleti. Entretanto, atribuí a negativa dela ao seu estado emocional, visivelmente abalado.
--- "De certo ela esqueceu, ou prefere não me dizer nada agora, para não me irritar" –, concluí. Contive o meu ímpeto inicial, de interrogá-la mais severamente.
Subi novamente e fui para o gabinete de papai. Em tudo, ali, eu sentia a sua presença. Em seus papéis, em seus livros, em seus móveis austeros, mas de muito bom gosto e num retrato de mamãe, pintado por um artista da aldeia, que praticamente dominava todo o aposento e podia ser visto de qualquer canto em que se estivesse.
Vi o papel dobrado, do jeito que eu havia deixado, sobre a escrivaninha. Ele exercia um fascínio até hipnótico sobre mim. Mas, estranhamente, estava dominado por um medo incrível daquilo que ele pudesse conter. Resolvi acabar de vez com aquele impasse. Afinal, nunca tive essas reações bobas. Desdobrei-o e comecei a ler.
A cada palavra lida, no entanto, entendia menos o seu significado. A minha primeira reação foi achar que aquilo era alguma brincadeira macabra. – "Mas quem faria uma coisa dessas e ainda usando papel timbrado do governo?!" –, refleti, desconfiado.
Reconheci, também, a assinatura do oficial que teria escrito a mensagem, pois se tratava de um velho amigo de papai, dos seus tempos de caserna. Até se hospedara em nossa casa, em várias ocasiões, quando vinha em missão do Exército a Moscou.
Aos poucos, as palavras foram penetrando em minha consciência e foi então que não entendi mais nada... A mensagem, em tom seco e formal, dirigida a mim, dizia, somente:
"Prezado senhor Illya Mikhailovich Kladunov:
Cumpre-nos a ingrata tarefa de comunicar a V. Sa. que Mikhail Illich Kladunov, capitão do Exército de Sua Majestade, o czar de todas as Rússias, e Kyrillo Mikhailovich Kladunov, soldado, ambos do 3º Regimento da 8ª Brigada de Cavalaria, foram mortos, em ação, no dia 5 de novembro passado, na Batalha de Inkermann, na Criméia. Tombaram como heróis, na defesa da Pátria. Aceite nossas sinceras condolências..."

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Thursday, January 26, 2006

E eles voltaram - Parte 5

(Conto de Natal)

(Continuação)

--- "Illya, quase ia esquecendo, trouxe um presente para você" –, disse Kyrillo, como que subitamente se lembrando de algo que não deveria esquecer.
--- "Infelizmente não vou poder retribuir" –, respondi –, "afinal, como poderia adivinhar que vocês viriam?!! Há muito que não tínhamos qualquer notícia de vocês. A última, foi trazida por um cossaco, que pernoitou em nossa casa" – acrescentei, num tom misto de censura e de desculpa.
--- "Não se importe comigo, mano" –, disse Kyrillo. – "Quanto a escrever, seria impossível naquele inferno" –, aduziu, com um vinco de preocupação aparecendo-lhe na testa, como se alguma recordação mais trágica lhe emergisse à mente.
--- "Mas vamos, Illya, abra o seu presente" –, voltou à carga, readquirindo a animação. – "Pelo que eu saiba, há muito tempo você deseja algo assim" – , acentuou, sorrindo.
Desembrulhei, atabalhoado, o objeto, enrolado num jornal velho, todo borrado e desbotado, e não me contive. Corri para Kyrillo e dei-lhe outro longo abraço, mais apertado ainda do que o da recepção, sufocando aquele sujeito grandalhão, com olhar de criança indefesa, ao qual queria tanto bem.
Meu irmão havia trazido da Criméia um punhal turco, com cabo de madrepérola, cravejado de diamantes. Lembro-me que quando os dois partiram, eu havia manifestado o desejado de possuir uma arma dessas, que tinha visto numa gravura de enciclopédia na casa da Vera.
Meu pai não se fez de rogado. Levantou-se, solenemente, como se fosse fazer um discurso muito importante para os seus comandados, um velho hábito adquirido ao longo de sua extensa carreira militar, e disse:
--- "Também não me esqueci de você!". – E num gesto abrupto, passou-me um enorme pacote, que trazia escondido atrás da cadeira e que no meu entusiasmo pelo reencontro eu não havia notado até então.
--- "Vamos, abra e experimente!" –, acrescentou. – "Tirei as medidas por Kyrillo. Claro que descontando meio homem" –, aduziu, em tom de brincadeira. Meu irmão, perto de mim, era um gigante musculoso em presença de um raquítico anão.
Eu puxei a compleição física franzina da minha mãe. Desembrulhei o pacote, todo afobado, vidrado de curiosidade e de lá saíram um maravilhoso gorro de pele de marta e um grosso sobretudo marrom, cujos pêlos até brilhavam, de tão novos. Notava-se que eram artigos da melhor qualidade.
Beijei meu pai, comovido, e se não me falha a memória, parece que vi duas lágrimas querendo descer de seus olhos austeros e duros, para a sua barba negra, salpicada de fios grisalhos e desalinhada.
Ficamos conversando até as primeiras luzes do novo dia aparecerem na janela. Falamos de tudo, menos da guerra. Recordamos casos engraçados e episódios comoventes da história da nossa família. Cansado, convidei-os a se recolherem, ao que ambos responderam, quase que em uníssono:
--- "Não podemos! Viemos, apenas, para um último momento de confraternização. Nossa missão é bem longe daqui. Temos muito que viajar ainda".
Não sei explicar a razão, mas aquelas palavras soaram como um definitivo adeus. Procurei espanar aquele pensamento sombrio. "Que nada! O velho e Kyrillo sabem se defender! Afinal, não estão aqui comigo?!" – perguntei a mim mesmo, em tom de afirmação.
Mas aquela sensação estranha que me dominava teimava em permanecer no meu espírito. Naquele momento, atribuí o fato à despedida. O adeus sempre me comoveu, mesmo que a pessoa que me dizia essa palavra, ou a quem eu a enunciava, pudesse ser encontrada a qualquer momento ou mesmo no dia seguinte.
Não sei por qual razão, me lembrei que não vi o trenó e nem a parelha de cavalos de papai e de Kyrillo, quando voltei da aldeia. – "Talvez eles os tivessem deixado na casa de algum camponês da herdade" – , findei por concluir.
Minutos depois, pude ouvir ao longe o som dos sininhos amarrados no pescoço dos cavalos. O ruído afastava-se, lentamente, tornava-se cada vez mais fraco e indistinto, até que desapareceu de vez.
Subi para o meu quarto, localizado no segundo andar da casa, guardei, na vasta cômoda, os presentes que havia ganhado e só então me dei conta de que papai e Kyrillo não haviam trazido nada para Olga e nem para Tânya. Aliás, durante toda a noite, mal haviam falado delas. – "Por que será?!” –, pensei, intrigado. Achei isso muito estranho, mas resolvi não perder muito tempo buscando explicações para esse curioso detalhe.
Despi-me e deitei-me, exausto, sentindo ainda os efeitos de tantas e tão fortes emoções. Este fora o Natal mais feliz e surpreendente da minha vida. Dormi quase que de imediato.
Antes de cair no sono, naquele estado de semi-inconsciência que precede o desligamento completo da realidade, ouvi, nitidamente, as vozes de papai e de Kyrillo dizendo – "Illya, adeus! Seja forte! Cuide de Tânya e de Olga por nós!".
Julguei estar sonhando. Talvez até estivesse. Dormi, enfim. Fui despertado já bem tarde, cerca de uma hora da tarde do dia seguinte, com a voz de Tânya, galhofeira, como sempre, atazanando os meus ouvidos, chamando-me de preguiçoso. Pensei em contar-lhe de imediato a minha experiência noturna. Consegui conter-me, todavia, deixando para falar das novidades quando Olga retornasse da aldeia.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Wednesday, January 25, 2006

E eles voltaram - Parte 4

(Conto de Natal)

(Continuação)

Quando cheguei ao alpendre da nossa casa, após ter desatrelado os cães do trenó e tê-los recolhido ao canil e alimentado, notei que havia luzes na sala de estar. Achei estranho, pois quando havíamos saído, eu, Olga e Tânya, ainda era dia claro e, por conseqüência, nenhum de nós havia acendido os candelabros, até por uma questão de prudência, de segurança, para evitar incêndio acidental.
--- "Deve ter sido algum servo que esqueceu alguma coisa, voltou para pegar e, ao sair, deixou de apagar as luzes" – pensei. Anotei mentalmente aquela falta grave, para cobrar da criadagem no dia seguinte. A ela, aduzi mais uma: o fato da lareira também ter sido deixada acesa, já que podia ver, perfeitamente, uma fumaça azulada saindo pela chaminé.
Entrei no vestíbulo, tirei o gorro de astracã, o grosso casaco de pele de urso e pendurei ambos atrás da porta. Descalcei as botas, um tanto enlameadas, que tive o cuidado de deixar escondidas num canto, para limpar logo cedo, no dia seguinte, antes que Olga voltasse e pudesse ralhar comigo, calçando grossos chinelos de lã no seu lugar, que eram um alívio para os meus pés doloridos. Feito isso, dirigi-me para a cozinha, para preparar um revigorante chá.
Ao chegar, no entanto, à porta desse espaçoso e agradável cômodo, quedei estupefato. Esfreguei duas, três, dez vezes os olhos para espantar um possível delírio ou eventual ilusão de óptica. Não! Eu não estava delirando!
Sentado junto à longa e sólida mesa de madeira polida, onde os servos faziam as suas refeições, estava papai, taciturno como antes de partir para a Criméia, mas aparentemente com boa saúde. Budka, o nosso gato de estimação, estava enroscado em seu colo, com os olhos como que vidrados de êxtase pelo carinho que recebia daquelas mãos grossas e fortes.
Junto ao grande fogão a lenha, que desprendia um intenso e gostoso calor, Kyrillo retirava um samovar de prata de uma das bocas, relíquia de várias gerações da família, e conduzia-o para a mesa. Yulka, o cão predileto de todos nós, que só faltava falar de tão esperto que era, dormia preguiçosamente aos pés de papai.
Por alguns instantes, que me pareceram uma eternidade, a surpresa paralisou-me. Todos os movimentos faltaram-me, simultaneamente, em todas as partes do corpo. Não conseguia me mover e, principalmente a língua, tinha ficado inerte. Fiquei estático, calado, mas radiante com o inesperado presente de Natal que estava recebendo!
Meu primeiro impulso foi o de correr para a aldeia, para avisar Tânya e Olga da grande novidade. Depois, eu e Kyrillo corremos ao mesmo tempo, como que impulsionados por uma poderosa mola, um em direção ao outro, para um forte abraço fraternal, desses de estalar todos os ossos. Fiz o mesmo com papai, que no entanto não era muito dado a esse tipo de gestos de efusão de sentimentalismo. Compreensivelmente, porém, ele abria nesse momento uma rara exceção a essa sua rígida regra pessoal.
Apanhei, debaixo da longa pia de pedra, a tigela bojuda, onde Galina guardava a nata, o açucareiro no armário e a forma repleta de deliciosos "peroshquês", que minha irmã mais velha sempre fazia questão de preparar ela mesma, de cima do fogão a lenha.
O velho pediu uma garrafa de vodca, que fui buscar, apressado, em seu gabinete, que permanecera virtualmente trancado desde a sua partida e onde somente Polina entrava, de vez em quando, para fazer a limpeza.
Acomodados junto à mesa, falamos todos, ao mesmo tempo. Havia tanta coisa para ser dita, de parte a parte! Quando nos demos conta da nossa precipitação de falar, caímos em uma gostosa e jovial gargalhada, que ecoou pelas paredes e pelo teto da casa e soou como uma música deliciosa e angelical para os meus ouvidos.
Até papai, depois de dois tragos de vodca, voltou a ser o homem alegre de antigamente, de antes da morte da mamãe. A princípio, nem ele, e nem Kyrillo, quiseram falar muito da Criméia e da grande carnificina que ocorria naquela região. Mas, devagar, foram deixando de lado esses escrúpulos e narraram algumas peripécias, apenas as mais engraçadas, ocorridas, geralmente, envolvendo "mujiques" analfabetos, ingênuos e ignorantes. Dos combates em si, nenhuma palavra. E eu respeitei esse sentimento de ambos. Afinal, a ocasião não era propícia para assunto tão macabro. Eles deviam ter visto cenas horríveis para serem relembradas em qualquer época, quanto mais numa ceia de Natal improvisada, como a nossa nesse momento.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Tuesday, January 24, 2006

E eles voltaram - Parte 3

(Conto de Natal)

(Continuação)

Eu estava regressando, só, para a nossa herdade, naquela noite de quarta-feira, véspera do Natal de 1854. Retornava, um tanto cansado, da casa de Vera, com quem estava namorando há já quase dois anos, planejando marcar para breve a data do nosso casamento, tão logo papai e Kyrillo voltassem do front.
Enfrentava caminhos muito difíceis nesta curta, mas acidentada jornada, pois havia nevado bastante em todo o dia anterior e até a metade deste. O céu agora estava claro e as estrelas cintilavam, como minúsculas, mas magníficas tochas numa procissão noturna. A lua brilhava intensamente no firmamento e o ar estava bastante frio, com uma ligeira brisa soprando que, no entanto, parecia cortar, quando, eventualmente, entrava em contato com a pele.
Tânya havia acompanhado Olga até a aldeia e ficara na casa do tio Ivan para passar ali o Natal. Toda a criadagem tinha sido dispensada, já que o meu plano original não era de voltar à herdade, mas permanecer nessa noite com a família de Vera.
Na atmosfera, parada e quieta, como que embalsamada de perfume, era possível de se ouvir, ao longe, o eco dos risos, de sons de guizos amarrados no pescoço dos cães que puxavam trenós e notas perdidas de canções natalinas, entoadas por pessoas que se presumia estarem alegres. Ou, o que era mais provável, embriagadas, para rebaterem o frio intenso, desse inverno particularmente severo ou para esquecerem as agruras de uma vida cinzenta, penosa e sem muitas perspectivas.
Ao longe, pude ver um rústico trenó, puxado por um robusto cavalo, que tinha imensa dificuldade com a neve em que afundava as patas e que chegava quase à sua barriga, que se afastava da nossa propriedade. Julguei ter reconhecido o "staretz" Athanásio, monge ortodoxo local, com sua longa barba grisalha, como se fora Santa Klaus.
Esse santo homem era amigo da família e, com certeza, estava voltando à aldeia, após encontrar tudo fechado e presumir que não havia ninguém em casa. Pensei em apressar os cães do meu trenó para alcançá-lo, mas desisti. Preferia estar um pouco sozinho, para recordar as pessoas que desejava ter ao meu lado nesta noite, mas não podia.
Algumas, seria impossível de abraçar e conversar com elas, não somente nesta véspera de Natal, mas em qualquer outra ocasião, por já não pertencerem ao mundo dos vivos. Eram os casos do tio Piotr, de mamãe e do primo Vassia, entre tantas. Outras pessoas, com as quais gostaria de partilhar minhas alegrias e preocupações, estavam muito distantes dali, como papai e Kyrillo.
Não pude me furtar de imaginar onde os dois estariam agora. "Talvez estejam, quem sabe, no fragor de alguma encarniçada batalha, cheia de estrondos, gemidos, fumaça de pólvora e cadáveres em profusão, espalhados no campo desolado, matando pessoas que nunca viram e jamais voltariam a ver, para não serem mortos. O mais provável, no entanto, é que estejam em uma barraca de campanha, dormindo ou conversando com os camaradas de armas sobre os combates desse dia, sobre a família e ou acerca da importância da data", ponderei.
--- "Será que as circunstâncias da guerra e o cansaço das longas marchas lhes permitem pensar um pouquinho que seja em nós?" –, perguntei aos meus botões.
Já fazia uns dias que eu estava tendo estranhos pressentimentos sobre a situação dos dois. É verdade que fazia quase dois meses que um oficial conhecido nosso, de regresso da Criméia, havia informado que vira meu pai e meu irmão durante uma retirada forçada de sua unidade, após a batalha de Blaklava, vencida pelos turcos. E que, a despeito da derrota das tropas russas naquela oportunidade, ambos pareciam estar muito bem. Pelo menos não haviam sido aprisionados e nem estavam feridos.
Depois disso, todavia, não soubemos mais nada deles. Carta já nem lembrava mais quando havia recebido a última. Desde o começo de novembro, eu vinha sentindo essa indefinível e sutil inquietação, uma espécie de irreparável sentimento de perda. Não comentei com ninguém da família, para não alarmar minhas irmãs. Afinal, poderia estar errado. Deus sabe o quanto estava torcendo para isso, para estar enganado e tudo não passar de mera e justa preocupação pela integridade dessas pessoas que tanto amo.
Quando estive em Moscou, no mês passado, soube qualquer coisa a respeito de concentrações de tropas para uma nova batalha, que poderia ser a decisiva, segundo o que se comentava. Entretanto, nenhuma nova notícia sobre a guerra chegou até nós desde então, nem oficial e nem oficiosa.
O território russo é uma enormidade. É tão extenso, que às vezes se passa até mais de um ano para que se saiba de fatos acontecidos na cosmopolita São Petersburgo. Imaginem notícias da inóspita região do Mar Negro! Com todas as dificuldades e perigos que existem, na locomoção para aquela ou daquela zona, informações de lá demoram uma eternidade para chegar!

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Monday, January 23, 2006

E eles voltaram - Parte 2

(Conto de Natal)

(Continuação)

Em março deste ano de 1854 estourou a guerra da Criméia, contra os turcos. Em pouco tempo, muitos oficiais, que estavam afastados da vida militar, foram re-convocados, um tanto às pressas, e enviados, imediatamente, para o front. Entre eles estava papai.
Kyrillo alistou-se como voluntário. Por mais que todos buscássemos tirar essa idéia de sua cabeça, foi inútil. Não havia força no mundo capaz de evitar que ele se incorporasse aos combatentes.
Olga, no final das contas, até gostou que ele fosse para o front. Afinal, estava bastante preocupada com papai e ninguém melhor para estar ao seu lado do que um jovem impetuoso, como era o meu irmão mais velho. Kyrillo tinha 27 anos e era um homem de estatura elevada, de um metro e noventa, robusto como um touro, bastante ágil para a sua compleição, louro, de olhos azuis, absolutamente saudável e dotado de uma energia incomum.
Era exímio caçador e atirava como ninguém. Comentava-se, na aldeia, que possuía um tiro tão certeiro, que seria capaz de acertar uma abelha em pleno vôo, a cem metros de distância. Exagero, é claro! Todavia, sua habilidade, tanto com uma espingarda, quanto com uma pistola, ou fuzil, era rara, digna de admiração.
Este fato, e mais o apego que tinha por papai nos deixavam tranqüilos quanto à proteção ao velho, que apesar da idade, era dado a arroubos de rapaz. É claro que a casa ficou um pouco mais sem graça sem eles. E as responsabilidades de zelar e de proteger a família, que já não eram pequenas com os dois presentes, redobraram e recaíram todas sobre os meus ombros. E não apenas as de proteção, mas as da administração da propriedade, além da resolução de pendências, que freqüentemente se verificavam entre os servos da nossa herdade. Eu teria de substituir o velho em tudo, e por tudo.
A princípio, senti-me inseguro com tamanha carga. Mas contando com o bom-senso de Olga, sempre por perto para corrigir os meus eventuais erros, tudo ficou mais fácil. E a não ser pelas naturais preocupações que tínhamos com as más notícias que nos chegavam do front, e pela saudade que todos sentíamos de papai e de Kyrillo, nossas vidas corriam quase que de forma normal.
Isto, até àquela sexta-feira, quando a notícia que havia causado tanto comoção a Tânya nos atingiu em cheio.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

Sunday, January 22, 2006

E eles voltaram - Parte 1

(Conto de Natal)


Quando Tanya, minha irmã, desfeita em lágrimas, deu-me a notícia, minha primeira reação foi de incredulidade e até de uma certa indiferença. "Não pode ser! Deve ter havido algum engano", pensei, balançando a cabeça, entre complacente com o seu choro convulsivo e céptico, achando até um pouco de graça na situação melodramática, gerada por algum erro de interpretação, por algum equívoco, desses comuns que acometem pessoas crédulas ou supersticiosas.
Sempre me considerei um sujeito prático e racional. Confio nos meus sentidos e não creio no sobrenatural. Minha educação foi cartesiana e, por temperamento, acredito, apenas, no que é lógico, naquilo que é possível de ser comprovado.
Lá fora havia voltado a nevar, após relativa melhora do tempo, no dia anterior. Eu ainda trazia no espírito a satisfação pela visita que havia recebido na noite de Natal, o que me deixava predisposto à simpatia, e até a um pouco de indulgência com a tolice alheia. Principalmente, com as fraquezas da minha irmã. Como Tanya insistisse, gaguejando e chorando, em comunicar sua versão do fato, que a havia abalado dessa maneira, mas sem conseguir se fazer entendida, comecei a ficar intrigado, sem conseguir dissimular uma ponta de irritação.
--- "Por que não?!" –, perguntei a mim mesmo, abrindo um ínfimo espaço para a dúvida, mesmo que essa atitude fosse um tanto irracional.
--- "As estradas estão intransitáveis com a neve e a lama. Os lobos famintos e os bandoleiros, que não faltam nestes tempos difíceis, atacam qualquer um. Nem uns e nem outros têm raciocínio suficiente que lhes possibilite distinguir um oficial do czar de um mujique qualquer. Não são capazes de reconhecer nem o próprio soberano" –, conjecturei.
Essa idéia ficou martelando a minha cabeça por alguns instantes, agora misturada à descrença naquilo que me estava sendo comunicado de forma tão dramática por Tanya.
--- "Não, papai não se deixaria enganar por ladrões, que ademais são uns celerados sem muita combatividade e fogem espavoridos quando sentem que irão encontrar resistência. Quanto aos lobos, a pontaria de Kyrillo costuma ser infalível" –, ponderei.
Mas a dúvida havia se instalado, de vez, em meu espírito, enquanto Tanya não conseguia se conter, abraçada comigo e chorando no meu ombro, de forma contínua e convulsiva, segurando na mão um papel com o timbre do Exército do czar.
--- "Illya, o que vamos fazer?” –, perguntou minha irmã, buscando em meus olhos uma resposta para algo que eu nem sabia se era real ou apenas imaginado.
Naquele momento, só nós dois estávamos na sala. Olga não havia voltado, ainda, da casa de uma amiga, que fora visitar na terça-feira, portanto, há três dias. Estávamos na sexta-feira e minha irmã mais velha deveria passar o fim de semana todo fora. Isto, se o tempo melhorasse. Caso continuasse nevando, é possível que só voltasse para casa em dez dias ou mais.
Tanya era uma bela moça, no frescor dos seus 18 anos, cheia de vitalidade e humor. Embora fôssemos uma família proprietária de terras, ela parecia uma camponesa, livre, desinibida, vivaz, em seu selvagem esplendor. Era o símbolo da própria mulher russa, conhecida por sua tenacidade. Sua voz suave, sempre cantarolando alguma canção que aprendia com os servos da casa, ou caçoando de Vanka, o cocheiro; ou de Galina, a cozinheira, ou mesmo de mim, era o som que mais se ouvia naqueles ermos perdidos da Rússia.
Tanya era dessas pessoas agitadas, independentes, marotas, que estão sempre correndo e tropeçando nas coisas, balançando seus longos cabelos louros e agindo como se sempre estivesse com pressa, mesmo quando não havia, visivelmente, nada para fazer. Parecia uma garotinha travessa, de nove anos, e não se dera conta, ainda, de que crescera e se transformara numa bela moça, capaz de virar a cabeça de qualquer rapaz.
Segundo a opinião de Olga, o que lhe faltava era um homem capaz de domar o seu ímpeto juvenil. Sempre que dizia isso a Tanya, ouvia, por resposta, que estava ficando velha, rabugenta e resmungona. Que ela, sim, precisava se casar, para não ficar para titia. Geralmente esses pequenos bate-bocas aconteciam o dia todo. Quando menos se esperava, lá estavam as duas altercando, na maioria das vezes aos gritos. Mas terminavam sempre se entendendo, aos risos e beijos.
Apesar de tudo o que de ruim nos aconteceu nos últimos dois anos, podíamos ser considerados uma família unida, amorosa e feliz. Nossa mãe havia morrido no verão de 1852 de uma doença misteriosa, que médico algum conseguiu nem mesmo diagnosticar. Desde então, era Olga que cuidava de todos nós, esfalfando-se nos trabalhos domésticos, ralhando com a criadagem e até se preocupando com a nossa educação religiosa, tal como mamãe fazia. Ou até com mais energia. Era austera, zelosa e organizada, sem perder o senso de humor.
Aliás, quanto mais o tempo passava, mais Olga ficava parecida com mamãe, nos traços, nos trejeitos e até na voz, suave e melodiosa. Era severa, é verdade, quando a situação exigia, mas sempre pronta a acalmar as nossas dores, reais ou imaginárias, quando estas se manifestavam. Sua maneira de vestir-se, de pentear-se e até de andar não era o de uma moça de 25 anos. Gostava de usar um coque bem comportado no alto da cabeça, que lhe dava um aspecto austero, realçado pela roupa discreta e de tons neutros. Não sei o que seríamos sem Olga!
Kyrillo, antes de partir, costumava dizer que nossa irmã mais velha precisava conviver mais com rapazes. Que não era justo que sacrificasse a sua juventude para substituir mamãe. Todos concordávamos com sua opinião, ao menos da boca para fora. Mas nenhum de nós seria sequer capaz de conceber aquela casa enorme e vazia sem a sua presença constante, severa, protetora e prestativa.
Papai nada dizia a respeito. Aliás, o velho havia mudado bastante nos últimos tempos. Passava horas e horas fechado em seu gabinete. E sempre que algum de nós entrava, para chamá-lo para o jantar ou para comunicar algum fato ou dizer que havia alguma visita à sua espera na sala, geralmente o encontrava recostado em sua cadeira de espaldar alto, com os olhos fixos num ponto imaginário do espaço, como que perdido em meditação.
Por outro lado, dera para exagerar na vodca, posto que de maneira discreta, notada apenas por mim e por Kyrillo, que éramos as pessoas com quem ele tinha mais contatos. Papai tornara-se arredio e evitava sair para visitar amigos, com os quais mantinha um bom relacionamento antes da morte de mamãe. Quando recebeu a convocação para incorporar-se ao Exército, fiquei com a estranha impressão que ele chegou a ficar aliviado. Conclui que o velho precisava era de um pouco de ação para esquecer a esposa morta.

(Continua)

(Conto publicado no livro "Quadros de Natal").

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